Era uma vez… cultura

Houve um tempo em que a palavra “cultura” evocava com mais evidência, património, conhecimento, artes, tradições, pensamento crítico e identidade. Hoje, o termo cultura parece servir para designar quase tudo, desde eventos, animação, entretenimento, lazer, festivais ou qualquer atividade com alguma dimensão pública. O conceito foi sendo progressivamente alargado até abranger realidades muito distintas entre si. Paradoxalmente, quanto mais se invoca a cultura, menos claro se torna aquilo que verdadeiramente se entende por ela.

Esta confusão (não) é apenas uma questão de linguagem. É o reflexo de uma sociedade que tem vindo a descaracterizar a cultura, reduzindo-a, muitas vezes, ao consumo imediato ou mera tendência passageira. Aquilo que exige tempo, reflexão e sensibilidade é frequentemente ultrapassado pelo que gera mais visualizações, mais partilhas ou mais lucro.

A cultura não é apenas um espetáculo, um concerto ou uma exposição. É também a memória coletiva de um povo, a sua língua, a literatura, a música, o teatro, o património, as tradições, os costumes, a gastronomia e a capacidade de pensar criticamente sobre o mundo.

Assiste-se a uma preocupante desvalorização da cultura. Os hábitos de leitura diminuem, muitos espaços culturais enfrentam dificuldades para sobreviver, os artistas continuam a lutar por reconhecimento e condições dignas, enquanto o investimento cultural é frequentemente visto como uma despesa e não como um investimento no desenvolvimento das comunidades.

Ao mesmo tempo, cresce a ideia de que tudo é cultura. Embora, num sentido antropológico, toda a manifestação humana possa ser entendida como expressão cultural, esta interpretação não deve servir para esvaziar o significado da palavra. Quando tudo passa a ser cultura, nada verdadeiramente o é. Perde-se a capacidade de distinguir entre aquilo que contribui para o enriquecimento intelectual e humano e aquilo que apenas satisfaz um consumo rápido e efémero.

As redes sociais e a inteligência artificial vieram democratizar o acesso à informação e à criação artística, o que representa uma oportunidade inegável. Contudo, também favoreceram uma cultura da instantaneidade, onde o sucesso se mede em segundos de atenção e não pela qualidade ou pelo impacto duradouro de uma obra.

Importa, por isso, recuperar o verdadeiro valor da cultura. Não como um privilégio reservado a alguns, mas como um direito de todos e uma responsabilidade coletiva. Valorizar a cultura significa apoiar quem cria, preservar o património, incentivar a leitura, promover as artes e garantir que o acesso ao conhecimento não depende da condição económica de cada cidadão.

Uma sociedade que desvaloriza a cultura empobrece, mesmo quando cresce economicamente. Sem cultura, perde-se a capacidade de dialogar, de compreender a diferença, de questionar, de inovar e de construir uma identidade comum.

A cultura não desaparece de um dia para o outro, mas desvanece-se, silenciosamente, sempre que deixamos de a valorizar. Se não quisermos que a expressão «Era uma vez… cultura» deixe de ser uma metáfora para se tornar uma triste realidade, é tempo de devolver à cultura o lugar que lhe pertence. Porque a cultura é o alicerce de uma sociedade que conhece as suas raízes, compreende o seu presente e tem a capacidade de construir um futuro mais consciente, mais livre e mais humano.

 


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