
O número de espécies invasoras em águas portuguesas sobe para 231, segundo um estudo do MARE, publicado na revista científica Marine Pollution Bulletin, e que reúne o trabalho liderado por investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, e do ARNET – Rede de Investigação Aquática, resultando na actualização mais completa do inventário nacional de espécies marinhas não indígenas desde 2015. Cinco novas espécies foram identificadas na costa sudoeste do continente, junto ao Porto de Sines, através de um programa de monitorização ambiental de longo prazo que acompanha aquela área geográfica, desde 1997.
O estudo conclui que o continente soma 159 espécies confirmadas, os Açores 81 e a Madeira 62, com o Pacífico Norte como principal origem das espécies identificadas em águas continentais portuguesas, e o Atlântico Norte a dominar a origem das espécies marinhas invasoras identificadas nos arquipélagos da Madeira e dos Açores.
O trabalho propõe também uma lista de vigilância inédita com 22 espécies detectadas através de ADN ambiental, um sistema de detecção precoce capaz de identificar espécies invasoras antes de serem observadas a olho nu.
Esta é uma actualização importante na ciência portuguesa, no inventário nacional de espécies marinhas não indígenas. Para o mesmo foi reunido o resultado da pesquisa de 31 investigadores de 11 universidades portuguesas, três entidades públicas nacionais e diversos institutos de investigação, tendo o estudo sido liderado por investigadores do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, e do ARNET – Rede de Investigação Aquática.

O estudo revela um padrão geográfico claro sobre a origem destas espécies marinhas invasoras. Em Portugal continental, 39% das espécies não indígenas são originárias do oceano temperado do Pacífico Norte, seguidas de 24% com origem no Atlântico Norte. Nos arquipélagos, o padrão inverte-se: na Madeira, 27% das espécies têm origem no Atlântico Norte e 24% no Atlântico Tropical, enquanto nos Açores, 37% provêm do Atlântico Norte e 19% do Pacífico Norte, um perfil mais próximo do observado no continente.
Em todo o país, o transporte marítimo, sobretudo através da água de lastro e da bioincrustação nos cascos dos navios, é a principal via de introdução destas espécies, com a aquacultura a ter um peso particularmente relevante no continente. O Porto de Sines, o maior e mais ocidental porto de águas profundas da Europa continental, surge no estudo como um ponto estratégico de entrada, dada a sua localização no cruzamento de rotas marítimas que ligam a Ásia, o Mediterrâneo, os Estados Unidos e África.
Além da checklist morfológica, a equipa desenvolveu uma lista de vigilância pioneira com 22 espécies detetadas exclusivamente por métodos moleculares, como o ADN ambiental, ainda sem confirmação física da sua existência. Este mecanismo funciona como um sistema de alerta precoce, capaz de sinalizar potenciais invasores antes de serem visualmente identificados no terreno.
O estudo identificou também uma lacuna importante: apesar de 71% das espécies catalogadas já estarem representadas em bases de dados genéticas internacionais, apenas 12,5% têm sequências obtidas a partir de espécimes recolhidos especificamente em águas portuguesas. Isto significa que, na prática, a maioria das “referências genéticas” usadas para identificar estas espécies em Portugal vem de populações de outras partes do mundo, o que pode reduzir a fiabilidade de ferramentas de deteção rápida como o ADN ambiental, e dificultar a distinção entre espécies muito semelhantes geneticamente. Reforçar a recolha de amostras em Portugal é, segundo os autores, uma prioridade para tornar a vigilância genética mais precisa e rápida.
“As invasões marinhas são um fenómeno dinâmico e transfronteiriço, e compreendê-las exige uma ciência capaz de trabalhar à mesma escala. Este estudo permitiu-nos ir muito além de uma simples atualização do número de espécies, revelando padrões de introdução, lacunas no conhecimento genético e prioridades para a monitorização futura”, afirma Romeu Ribeiro, investigador do MARE, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e primeiro autor do estudo.
Este trabalho resulta de uma colaboração nacional coordenada pela investigadora Paula Chainho do MARE na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (MARE-ULisboa), que envolveu a Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM), o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), além de investigadores de 11 universidades portuguesas, e é financiado, entre outros, pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), através da Agenda NEXUS, e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
O MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente – é um centro de investigação científica, desenvolvimento tecnológico e inovação com competências para o estudo de todos os ecossistemas aquáticos, na vertente continental e no mar. Promove o uso sustentável de recursos e a literacia do oceano disseminando o conhecimento científico e apoiando políticas de desenvolvimento sustentável.
Criado em 2015, integra 8 Unidades Regionais de Investigação associadas às seguintes instituições: Universidade de Coimbra (MARE-UCoimbra), Politécnico de Leiria (MARE-Politécnico de Leiria), Universidade de Lisboa (MARE-ULisboa), Universidade Nova de Lisboa (MARE-NOVA), ISPA – Instituto Universitário (MARE-ISPA), Instituto Politécnico de Setúbal (MARE-IPSetúbal), Universidade de Évora (MARE-UÉvora), Universidade da Madeira e ARDITI (MARE-Madeira).
O MARE integra, juntamente com o CBMA – Centro de Biologia Molecular e Ambiental (Universidade do Minho) e o CIMA – Centro de Investigação Marinha e Ambiental (Universidade do Algarve), o ARNET – Rede de Investigação Aquática, um Laboratório Associado de dimensão nacional que, com 742 investigadores e colaboradores em 11 instituições anfitriãs, se dedica ao estudo integrado dos sistemas aquáticos, desde as bacias hidrográficas ao oceano profundo, promovendo a ligação entre conhecimento científico, políticas públicas e ação no território.
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