Velhos achados – A Fonte

Caminho fora, os passos lentos a percorrer o tempo da memória, começo por descer a Rampa do Muro da Coelha, passo a curva larga que me situa junto do Campus universitário e eis o início do sítio da Penteada, o lugar onde espraiei os olhos e pisei as pedras de calhau rolado, luzidias de tanto uso, pela passagem dos corças de bois e das  airosas mulas  carregadas de cana de açucar e de pipas de vinho. Este cenário longínquo chega agora aos meus olhos e traz-me o retrato dum caminho que já não existe, senão na momentânea alegria de recordar uma infância feliz. E sigo  com a cabeça cheia de um turbilhão de evocações; um a um vislumbro os vultos que por aqui espalharam suas rotinas, pelas fazendas, pelo lagar, pela venda do Alexandre, pela escola de Maria do Carmo, até à cidade. O Alexandre tinha de tudo do que todos precisavam para sobreviver: mercearias, lenha para as lareiras, azeite para as lamparinas, petróleo para os fogareiros, alfarrobas, pirolitos, rebuçados de leite e uma adega que fazia a vez de bar. Também vendia tabaco de cheirar para alimentar o vício das velhas mulheres que o usavam à conta de curar as cefaleias. Quanto ao vinho, o Alexandre vendia-o a copo e anotava numa lista o número de copos consumido por cada beberrão, que só liquidaria a conta quando recebesse a paga do patrão, ao fim de semana. O processo era o mesmo em relação às mercearias, que as mulheres pagariam quando recebessem o dinheiro dos bordados.

Era um tempo de parcos recursos, mas as fazendas ofereciam fartura de frutas e hortaliças e ninguém ali passava fome. As terras fertilizavam-se com adubos naturais feitos das folhagens e raízes secas que se enterravam para se transformarem em húmus, exercendo-se o que hoje se designa por agricultura biológica. Uma velha prática que agora ganhou um nome novo, não sendo todavia novidade. Recordo particularmente a pujança da couve galega que ganhava altura, até dois metros e as enormes ameixas de damasco aveludadas e doces, como  nunca mais voltei a encontrar.

Evocar estas épocas, não é necessariamente uma atitude passadista, no sentido pejorativo com que se rotula muitas vezes a saudade, ou o desejo saudável de recordar. Significa, sim, afirmar os benefícios duma vida simples, próxima da Natureza, como hoje se apregoa e recomenda, pelas mais diversas razões que vão todas confluir no processo preocupante dos desequilíbrios provocados pelas alterações climáticas e na prevenção da saúde.

Estas minhas crónicas habituais, acabam todas por seguir por veredas inesperadas, antes de atingirem os acessos directos  às metas inicialmente previstas. Neste caso a meta era a fonte como indica o respectivo título. No entanto para chegar à fonte tive que andar todo um caminho que me era familiar na época em que a vida nos faculta as primeiras e mais fundas emoções, aquelas que, intuitivamente, mais se interiorizam e constituem uma marca de sangue e nervos cujos efeitos só muito mais tarde se reconhecem. E tudo isso se projecta no futuro que hoje vivemos e a História se encarregou de alterar.

O Caminho da  Penteada que agora percorri  permitiu-me arrostar com a ruina da antiga  fonte, um velho achado perdido entre muros encardidos, tristemente abandonado. O que era dantes um nicho de volta perfeita embutido num largo muro amarelo, sob um típico balcão madeirense, com uma brilhante torneira de latão que dava de beber ao sítio, tornara-se  num vago destroço irreconhecível. A via rápida surge, suspensa, rasga o espaço, numa direcção difícil de prever,  para quem a observa cá de baixo e não se entende qual a intenção que levou os construtores do novo envolvimento a conservarem ali a triste ruina da fonte, como um rosto saudoso onde se secaram as lágrimas, como um livro de memórias votado ao esquecimento numa estante de um tempo perdido, porque já poucos conhecem o alfabeto com que se aprende a ler a vida.

A fonte da Penteada ainda lá está, desfigurada e irrecuperável.. Só eu a reconheço. Só eu sei do seu feliz e sadio passado.

 

Irene Lucília Andrade

 


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