Estepilha, Mundial Futebol 2026 – VAR: Videoárbitro ou Variação Aleatória de Resultados?

Num mundo ideal, o VAR teria acabado com as injustiças no futebol. Num mundo real, limitou-se a torná-las mais sofisticadas, mais demoradas e, sobretudo, mais discutidas em câmara lenta. O Argentina–Egito foi apenas o episódio mais recente desta tragicomédia tecnológica que a FIFA insiste em vender como justiça desportiva.

A reviravolta argentina de 0-2 para 3-2, com três golos em pouco mais de dez minutos, deveria ter sido lembrada como um clássico instantâneo. Em vez disso, entrou diretamente para o arquivo das teorias, suspeitas e indignações globais. A cereja no topo do bolo foi uma petição com seis milhões de assinaturas a pedir a expulsão da Argentina — uma iniciativa com o mesmo valor prático de gritar com a televisão, mas com bastante mais cliques.

No centro do caos está o já famoso golo anulado a Mostafa Zizo. Um lance que, aos olhos de metade do planeta, foi limpo como água; aos olhos do VAR, uma espécie de crime invisível detetado apenas por microscópio digital. A alegada falta de Marwan Attia sobre Lisandro Martínez tornou-se o equivalente futebolístico de uma teoria quântica: existe, mas só alguns conseguem vê-la.

Como se não bastasse, minutos antes do golpe final argentino, Mohamed Salah foi aparentemente derrubado numa jogada que o árbitro decidiu interpretar como… futebol. Seguiu-se o contra-ataque, o golo, e a transformação de um jogo equilibrado num caso diplomático.

Naturalmente, Lionel Scaloni surgiu como a voz da razão tecnológica, garantindo que manipular resultados na era do VAR é praticamente impossível. E, de facto, tem razão — se por “impossível” entendermos “extremamente difícil de provar enquanto milhões de pessoas discordam do que acabaram de ver”.

Do lado egípcio, a reação oscilou entre a revolta e a incredulidade. Hossam Hassan falou em pressão, os adeptos falaram em escândalo, e o resto do mundo falou… bem, falou muito. Mourinho viu um assalto à luz do dia, Shearer sugeriu que mais valia entregar já o troféu, e Gary Neville basicamente resumiu o sentimento geral: depende de quem marca, decide-se de forma diferente.

Mas o momento verdadeiramente delicioso desta novela não aconteceu dentro de campo. A retirada do árbitro François Letexier das nomeações seguintes foi o equivalente institucional a dizer “não vimos nada de errado… mas também não queremos voltar a ver isto”. Um gesto subtil, quase elegante, que levanta mais perguntas do que respostas — precisamente como o VAR gosta.

Entretanto, convém não perder tempo com ilusões: ninguém vai expulsar a Argentina, repetir o jogo ou reescrever o resultado. A FIFA não funciona à base de petições online, por mais virais que sejam. A justiça no futebol tem um princípio simples: acontece no momento… ou não acontece de todo.

O que realmente fica é o ambiente. Um Mundial onde cada decisão já não é apenas analisada — é dissecada, amplificada e transformada em combustível para um debate interminável. O VAR não trouxe consenso; trouxe uma nova forma de discordar, agora com gráficos, linhas e repetições em alta definição.

E assim chegamos ao próximo capítulo: Argentina contra Inglaterra. Um jogo que, em circunstâncias normais, já seria carregado de história. Agora, será também um teste de resistência para árbitros, tecnologia e nervos. Porque, no fundo, ninguém quer saber apenas quem ganha — quer saber quem decide.

No final, talvez a maior ironia seja esta: o futebol nunca teve tantas ferramentas para ser justo, e nunca pareceu tão suspeito.


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