Que jogo dramático em Atlanta. A Inglaterra esteve muito perto de chegar à final, colocou-se em vantagem e pareceu ter o encontro controlado. Contudo, recuou demasiado nos minutos finais. A Argentina aproveitou essa mudança de atitude, aumentou a pressão e consumou a reviravolta com dois golos tardios.
A Argentina segue para a final frente à Espanha. A Inglaterra disputará o terceiro lugar com a França.
1. A batalha tática
Inglaterra: velocidade pelos corredores e transições rápidas
A Inglaterra apresentou-se, na prática, num sistema próximo do 4-2-3-1. A principal intenção era evitar uma circulação lenta e atacar rapidamente o espaço deixado pela Argentina.
O plano inglês assentava em três ideias:
- proteger a zona central, onde Lionel Messi costuma receber a bola;
- recuperar a posse e acelerar imediatamente;
- explorar os corredores laterais através de Anthony Gordon e dos laterais.
A Inglaterra já vinha demonstrando uma forte tendência para construir os ataques pelas alas. Antes do encontro, cerca de três quartos da sua ameaça ofensiva no torneio tinha surgido pelos corredores laterais. A Argentina, pelo contrário, procurava muito mais as zonas interiores, precisamente onde Messi se sente mais confortável.
Durante grande parte do jogo, a estratégia inglesa funcionou. A equipa manteve as linhas relativamente próximas, dificultou as combinações interiores da Argentina e tentou sair rapidamente quando recuperava a bola.
Argentina: posse paciente e liberdade para Messi
A Argentina organizou-se num 4-3-3 bastante flexível. Com bola, o sistema transformava-se frequentemente porque Messi abandonava a posição inicial e aparecia entre o meio-campo e a defesa inglesa.
A missão argentina era simples de explicar, mas difícil de executar:
- circular a bola até deslocar o bloco inglês;
- encontrar Messi entre as linhas;
- atrair adversários para o centro;
- libertar espaço para os laterais ou para as entradas dos médios.
Durante muito tempo, a Argentina teve dificuldades. A Inglaterra fechou bem os espaços interiores e obrigou os argentinos a jogar para zonas menos perigosas.
Contudo, a Argentina não abandonou o seu plano. Continuou a circular a bola, colocou mais jogadores no meio-campo ofensivo e acabou por transformar a posse de bola em pressão constante.
É como empurrar repetidamente uma porta: durante muito tempo, ela parece resistir. Quando a estrutura começa a ceder, tudo pode acontecer em poucos segundos.
2. Como o jogo mudou
A primeira parte foi muito física e cautelosa. As duas equipas respeitaram-se, evitaram correr riscos excessivos e protagonizaram vários duelos intensos. O primeiro remate do encontro surgiu apenas perto da meia hora.
A Inglaterra inaugurou o marcador aos 55 minutos, por Anthony Gordon, depois de uma transição rápida e bem construída. A jogada mostrou exatamente aquilo que os ingleses pretendiam: recuperar, acelerar e atacar antes de a Argentina reorganizar a defesa.
O problema surgiu depois do golo.
Em vez de continuar a ameaçar a Argentina, a Inglaterra começou a defender cada vez mais perto da própria área. As linhas recuaram. Harry Kane ficou isolado. Os médios passaram a preocupar-se sobretudo com a proteção defensiva.
A equipa inglesa transformou o jogo numa espécie de cerco. Quando uma equipa se limita a defender uma vantagem mínima, qualquer ressalto, remate de longe ou cruzamento pode alterar o resultado.
A Argentina empatou aos 85 minutos, através de Enzo Fernández. Já nos descontos, Lautaro Martínez marcou de cabeça, após assistência de Messi, completando a reviravolta.
3. Jogadores-chave
Lionel Messi
Mesmo sem precisar de marcar, Messi foi o jogador que mais influenciou o desfecho.
A Inglaterra conseguiu limitar a sua presença durante largos períodos. Contudo, à medida que o bloco inglês recuou, Messi passou a receber a bola mais perto da área. Teve mais tempo para levantar a cabeça e escolher o passe.
A assistência para o golo decisivo de Lautaro Martínez resumiu a sua importância: visão, precisão e capacidade para decidir sob pressão. Messi terminou o encontro com duas intervenções decisivas na recuperação argentina.
Enzo Fernández
Enzo Fernández foi fundamental para dar ritmo à circulação argentina. Quando os espaços interiores estavam fechados, procurou receber mais atrás e acelerar a bola para os corredores.
O seu golo do empate teve igualmente um enorme peso psicológico. Depois desse momento, a Inglaterra deixou de pensar em controlar a vantagem e passou a tentar sobreviver até ao prolongamento.
Lautaro Martínez
Lautaro começou no banco, mas entrou para oferecer maior presença dentro da área.
A sua utilização foi uma decisão tática importante. A Argentina precisava de alguém que atacasse os cruzamentos e ocupasse os defesas-centrais. O cabeceamento que decidiu o encontro demonstrou precisamente essa capacidade.
Anthony Gordon
Foi o atacante inglês mais perigoso.
A sua velocidade obrigou a defesa argentina a recuar e criou uma ameaça permanente nas transições. Além de marcar, deu profundidade à equipa e foi particularmente eficaz a atacar o espaço nas costas dos laterais argentinos.
Jordan Pickford
Pickford realizou várias intervenções importantes durante a segunda parte. Sem as suas defesas, a Argentina poderia ter empatado mais cedo.
Contudo, quando uma equipa permite sucessivas aproximações à área, até um guarda-redes inspirado acaba por ficar exposto.
Harry Kane
Kane teve influência na construção da jogada do golo inglês, mas passou grande parte do encontro afastado da área.
Ao recuar para participar na circulação, ajudava o meio-campo. Porém, deixava de existir uma referência ofensiva para prender os centrais argentinos. Quando a Inglaterra recuperava a bola, muitas vezes não tinha ninguém em posição para receber um passe longo ou segurar a posse.
4. Forma recente das equipas
A Inglaterra chegou à meia-final depois de eliminar:
- República Democrática do Congo, por 2–1;
- México, por 3–2;
- Noruega, por 2–1.
Os resultados mostravam uma equipa competitiva, capaz de vencer jogos equilibrados, mas também com dificuldades para controlar completamente os adversários.
A Argentina chegou ao encontro depois de derrotar:
- Cabo Verde, por 3–2;
- Egito, por 3–2;
- Suíça, por 3–1.
A seleção argentina apresentava maior produção ofensiva. Antes da meia-final, já tinha marcado três golos em quatro jogos consecutivos e somava 17 golos na competição.
Essa diferença tornou-se visível no final: a Inglaterra procurou proteger o resultado; a Argentina acreditou que podia continuar a criar oportunidades até ao último minuto.
5. O plano de jogo provável e aquilo que realmente aconteceu
O plano previsto da Inglaterra
A Inglaterra pretendia:
- fechar Messi com vários jogadores;
- impedir passes pelo centro;
- atacar rapidamente pelas alas;
- explorar a velocidade de Gordon;
- aproveitar bolas paradas e cruzamentos para Kane.
O plano funcionou durante aproximadamente uma hora. O erro não esteve na estratégia inicial. Esteve na forma como a equipa reagiu depois de ficar em vantagem.
Ao recuar demasiado, a Inglaterra deixou de explorar a principal fragilidade argentina: o espaço nas costas dos laterais.
O plano previsto da Argentina
A Argentina pretendia:
- controlar a posse;
- colocar Messi entre as linhas;
- aproximar Enzo Fernández e Alexis Mac Allister;
- desgastar o bloco inglês;
- recorrer ao banco para aumentar a presença na área.
A entrada de Lautaro Martínez foi decisiva. A Argentina passou a ter uma referência mais agressiva junto dos centrais ingleses e ganhou maior capacidade no jogo aéreo.
6. Três aspetos decisivos
1. A posição de Messi
Enquanto Messi recebeu longe da área, a Inglaterra conseguiu controlar o encontro.
Quando o bloco inglês recuou, ele começou a receber mais perto da zona de decisão. Nessa posição, um pequeno espaço é suficiente para criar um golo.
Controlar Messi não significa apenas colocar um jogador junto dele. Significa impedir que a equipa adversária o encontre em zonas onde possa virar-se e observar toda a área.
2. A reação inglesa depois do primeiro golo
Este foi provavelmente o principal ponto de viragem.
A Inglaterra tinha sido perigosa quando atacava. Depois de marcar, tornou-se demasiado conservadora. As substituições e o posicionamento da equipa indicaram uma intenção clara de proteger a vantagem mínima, decisão que recebeu fortes críticas após o encontro.
Defender mais baixo não é necessariamente errado. O problema surge quando a equipa deixa de conservar a bola e já não oferece qualquer ameaça ofensiva.
3. A profundidade do banco argentino
A Argentina conseguiu mudar o jogo através das substituições.
Lautaro Martínez acrescentou presença na área. Rodrigo de Paul e Nicolás González também ajudaram a aumentar a intensidade e a pressão. A Inglaterra, pelo contrário, realizou alterações ofensivas demasiado tarde para recuperar o controlo do encontro.
Veredicto do comentador
A Inglaterra executou melhor o plano inicial e, durante muitos minutos, pareceu a equipa mais organizada. Contudo, depois de marcar, confundiu controlo com recuo.
A Argentina teve dificuldades, mas mostrou experiência competitiva. Não entrou em pânico, continuou a atacar e utilizou melhor o banco. Messi encontrou finalmente os espaços de que precisava. Enzo Fernández reacendeu o jogo. Lautaro Martínez resolveu-o.
Em linguagem simples: a Inglaterra ganhou a batalha tática durante grande parte do encontro, mas a Argentina ganhou a batalha mental e os minutos decisivos.
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