Quando a escola e a família caminham juntas, as crianças sentem que pertencem, sentem segurança para além de aprenderem mais… aprendem melhor!
Nesta parceria evidente entre família e escola igualmente translúcido são os limites de ambas. Quero eu dizer com isto que, acredito imenso que a família educa para a base: os valores, o comportamento, a moralidade, a índole, o respeito, o carácter, a noção de convívio social… A escola instrui conhecimentos técnicos/científicos curriculares, desenvolvimento do pensamento crítico, socialização secundária…
O papel de ambas são distintos contudo reflecte a complementaridade entre os dois núcleos e a separação total é ineficaz. A escola não substitui a família e a família não deve eximir-se de educar ao ficar a espera que a escola o faça. A família e a escola são aliadas na formação integral da criança exigindo parceria, comunicação, diálogo e sobretudo a não transferência de responsabilidades.
Um exemplo prático: Alfabetizar é o processo de ensinar a ler e a escrever ao capacitar os alunos a descodificar letras, sons, sílabas para formar palavras e frases. O ritmo de alfabetização é a velocidade no processo de aprender a ler e a escrever e altera de criança para criança. Muitas crianças, por volta dos 7 e 8 anos já alfabetizaram e isto por si só não define o futuro da criança. Na vida adulta, não fará diferença se a criança começou a ler com 6 anos e meio, sete ou oito anos. O que faz verdadeiramente diferença é o caminho e o incentivo.
Desde os 2 e 3 anos pequenas experiências construem esta base: oferecer e proporcionar brincadeiras com argila, canetas, lápis de cor, livros sempre acessíveis às idades desenvolverá a parte motora, cognitiva, individual, conjunta e o mais importante: fazer o inverso com os ecrãs! Guardá-los em gavetas no ambiente familiar para o bem-estar dos pais e das crianças, porque o meio influencia e muito a nossa vida. Caro leitor não se esqueça, as nossas células necessitam do meio interno (citoplasma) e do meio externo (extracelular) o que as rodeia. Não fosse apaixonada pela profissão que me escolheu e considerar que a comunicação é a base, as células estão em constante comunicação e troca de substâncias com o meio externo através de uma membrana plasmática. Ora, a membrana plasmática no meio familiar é o limite saudável dos pais em relação aos ecrãs. O que sustenta o desenvolvimento é a presença, a intenção e a convivência com a leitura no dia-a-dia, um processo com mais segurança e menos ansiedade comunicacional.
Neste processo poderão ser evidentes atrasos ou perturbações na fala e/ou linguagem e terão de ser observados, analisados, investigados e intervencionados com responsabilidade terapêutica.
Comuniquemos agora sobre uma intenção do próprio ministério da educação: “Proposta sobre a possibilidade dos livros de José Saramago deixarem de ser obrigatórios no programa do 12ºano.” Se retirarmos o Único Nobel da Literatura Portuguesa, da leitura obrigatória, não estamos apenas a mudar uma lista curricular. Estamos a alterar o grau de exigência que influenciamos a nós próprios enquanto sociedade racional. Saramago não é cómodo e ainda bem porque a permanência da comodidade cria seres humanos frágeis, incapazes de sustentar pensamento próprio quando o mundo se torna um lugar desconfortável. A literatura delicada não é elitista. É treino cognitivo para autonomia. Cito o grandioso Saramago: “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” Um aluno ao ler esta frase exigirá a reler, de forma devagar, a sustentar a ambiguidade, a pensar sem corrimão num tempo em que tudo é abreviado à velocidade do scroll, à facilitação e à reacção repentina de um like. Retirar complexidade da escola é institucionalizar a desistência. Um país que afastará o seu único Nobel da experiência formativa dos jovens está a enviar uma mensagem silenciosa mas poderosa: ler profundamente deixou de ser fundamental. E quando a profundidade deixa de ser imprescindível, a liberdade começa a ficar ornamental. No mundo atual de algoritmos, slogans e certezas instantâneas, retirar Saramago é, na minha opinião, alinhar a escola com a cultura da superficialidade. E uma sociedade que abdica da profundidade torna-se vulnerável a qualquer narrativa razoavelmente repetida. Quando o pensamento enfraquece, tudo o resto fica mais acessível de manipular.
Termino a citar o singular, José Saramago: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.”
Drª. Luísa Maria
Terapeuta da Fala
Especialista em Miofuncional Orofacial
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