Rodrigues anuncia grupo de trabalho para “Hub Marítimo-Portuário”

 A Madeira pretende “afirmar-se como um pólo atlântico de inovação no sector marítimo-portuário”. O anúncio foi feito esta terça-feira pelo secretário regional da Economia, durante a conferência e auscultação pública sobre o futuro Hub Marítimo-Portuário da Região Autónoma da Madeira, realizada na Gare Marítima do Funchal, na Pontinha.

José Manuel Rodrigues diz que o projecto pretende “estruturar um verdadeiro ecossistema colaborativo”, envolvendo várias entidades, com o objectivo de “articular conhecimento, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento económico”. O Hub surge no âmbito da estratégia regional de diversificação económica, com foco na Economia Azul e na Indústria da Defesa, áreas apontadas como pilares para gerar novo valor, atrair investimento e criar emprego qualificado.

Segundo o governante, o Hub servirá para posicionar a Madeira como “território de teste e demonstração tecnológica”, explorando soluções ligadas à transição digital e energética dos portos — desde a eletrificação e energias renováveis até à descarbonização e gestão inteligente de dados. O projecto surge alinhado com a criação do futuro Observatório dos Transportes Marítimos e contará com o contributo de um grupo de trabalho multidisciplinar que inclui a Marinha e a GNR.

José Manuel Rodrigues considera que “estar no meio do Atlântico é uma vantagem competitiva”, mas apelou à cooperação do Estado. “Temos de vencer a visão centralista do país, ancestralmente cultivada em Lisboa; e é por isso que não desistimos, enquanto Região Autónoma, de ter uma gestão partilhada dos nossos mares. É um direito e uma questão de dignidade, sendo mais um contributo para construir Portugal no Atlântico”, frisou.

Durante a sessão, o governante prestou homenagem ao engenheiro António Ferreira, antigo vogal da administração portuária recentemente falecido, e agradeceu a presença do almirante Henrique Gouveia e Melo, que proferiu a conferência principal desta consulta pública.

O almirante Henrique Gouveia e Melo foi o conferencista convidado para o primeiro grande debate em torno do Hub Marítimo-Portuário. Ao Funchal trouxe o tema “Robótica de duplo uso e a sua aplicação no Mar”, destacando que a “Madeira tem a capacidade de ser um hub de soluções tecnológicas e não de aquisição de soluções tecnológicas”, uma evolução que “parece necessária”, para que não limitemos a ser “apenas compradores” de tecnologia.

A verdadeira novidade para a Região é a proposta de posicionar a Madeira como acelerador dessas tecnologias, explorando o mar variado (de calmo a agreste), o bom tempo, o espaço aéreo descongestionado, bom para fazer testes de guerra eletrónica em 360 graus, integrando academia, indústria e desregulação via GLTs, como a Magalhães – sem burocracia excessiva que “mate a galinha dos ovos de ouro”. Defendeu por isso a atracção de empresas e financiamento privado visando “os mercados globais de defesa que valem 6 triliões de euros”.

O almirante referiu que “o papel do Estado é não atrapalhar, ajudar a acelerar e a construir os tais ecossistemas que ajudam a fazer isto”.

Gouveia e Melo anunciou, desta forma, ter planos para lançar, em menos de três meses, um cluster único em Portugal dedicado à robótica militar, uma espécie de ‘venture capital’ só dedicada à “robótica militar”, com acelerador, que faz os requisitos, define os nichos de mercado e as tecnologias que são necessárias desenvolver, aliando ainda um “integrador” industrial para exportação ou venda em larga escala.

O Ex-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas começou a conferência por explicar o conceito de duplo uso: equipamentos militares adaptáveis a missões civis, como aeronaves de patrulha para vigilância de pesca ou incêndios, e tecnologias desenvolvidas com fundos militares que se vulgarizam para o civil, como a internet e o GPS. Salientou que o verdadeiro investimento reprodutivo na defesa passa por criar tecnologias capazes de gerar valor económico para o país.

O almirante assegurou que o cluster que defende geraria economia de alto valor acrescentado, retendo engenheiros e resolvendo problemas demográficos via Inteligência Artificial (IA) e robótica (ex.: androides domésticos, automação portuária), numa revolução comparável à agrícola ou industrial – aliando homem e máquina.

Madeira abre consulta pública para Hub Tecnológico Marítimo-Portuário

 A directora regional de Competitividade, Inovação e Sustentabilidade e coordenadora do projecto foi quem apresentou a visão estratégica do Hub Tecnológico Marítimo-Portuário da Madeira, que será trabalhada pelo grupo multissetorial criado por despacho de 9 de Fevereiro, deste ano. “O objectivo é garantir que o futuro reflita necessidades reais, integre conhecimento diversificado e incorpore soluções que promovam um desenvolvimento equilibrado e sustentável”, começou por referir Andreia Collard, refere um comunicado governamental.

Com uma vasta experiência na indústria de defesa na Austrália – desde cabos submarinos a satélites –, a directora regional destacou o posicionamento da Madeira como polo atlântico de referência, que pode transformar a insularidade em vantagem competitiva na transição digital e ecológica, com foco em segurança marítima, defesa, logística, economia azul, digitalização e sustentabilidade ambiental, económica e social. A Região beneficia da maior Zona Económica Exclusiva Europeia (1,7 milhões de km², que pode vir a ser alargada com extensão da Plataforma Continental de Portugal), de águas profundas, cabos submarinos, conectividade digital plena e estabilidade política, actuando como “living lab” para testar soluções exportáveis em modernização portuária, descarbonização, atracção de investimentos e criação de emprego qualificado, explicou Andreia Collard.

“Este é o momento de nos posicionarmos neste ambiente marinho”, vincou a Diretora Regional, apontando para um ecossistema que pode gerar receitas em áreas como prospeção de terras raras marinhas e economia circular, reforçando, assim, o papel da Madeira na rede marítima europeia e global.

Após a consulta e o debate públicos, o grupo de trabalho tem 90 dias para entregar relatório final com modelo de governação e plano para a implementação do Hub Tecnológico Marítimo-Portuário da Região Autónoma da Madeira.


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