
Nelson Veríssimo
A publicação de breves notas sobre as freguesias da Região Autónoma da Madeira tem como principal objetivo contribuir para o conhecimento da história local.
Verifica-se, em muitos sítios digitais das Juntas de Freguesia e das Câmaras Municipais, informações erradas, em especial, no domínio da História, com prejuízo da Escola e da Cidadania. Espera-se, por conseguinte, que estes apontamentos possam ajudar a esclarecer o passado das comunidades locais.

Até aos anos 30 do século XIX, paróquia e freguesia eram praticamente a mesma unidade territorial. A diferença assentava mais na nomenclatura e contexto, religioso ou civil, do que na fronteira física. Utilizamos o termo paróquia sem precisão canónica. Freguesia tem uma conotação mais popular e foi progressivamente empregado em contextos administrativos civis. Nos séculos XV-XVIII, paróquia e freguesia dizem respeito a uma comunidade de almas, circunscrita a determinado território, dominado pela Igreja Matriz.

A freguesia da Camacha, do concelho de Santa Cruz, foi criada em 2 de fevereiro de 1680 por carta do bispo D. António Teles da Silva, em virtude da autorização que lhe foi concedida pelo alvará do príncipe regente, de 28 de dezembro de 1676. Contudo, em 1722, a freguesia de São Lourenço da Camacha estava unida ao Caniço e tinha apenas o título de ermida. Quer isto dizer que houve um período do século XVIII em que a paróquia da Camacha esteve suspensa e dependente da jurisdição do Caniço. Voltou a funcionar com normalidade a partir de 1738.
O terramoto de 1748 provocou danos no templo paroquial e implicou obras de restauro.
Em 1783, iniciou-se a construção da igreja da Camacha. Anteriormente, a sede da paróquia era a Capela de São Lourenço, fundada por Francisco Gonçalves Salgado e situada no lugar onde veio a ser construído o novo templo.
A igreja paroquial foi acrescentada com as capelas laterais do Santíssimo Sacramento (1926) e de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (1933), por iniciativa do padre João Augusto Faria (1875-1933), que também promoveu a pintura artística do tecto e obras na torre.
Nos anos 90 do século XX, foi construída uma nova igreja, projetada pelo arquiteto Jorge Freitas, que veio a ser dedicada em 10 de agosto de 1997. Todavia, a antiga mantém-se e tem beneficiado de obras de reabilitação.
No século XIX e nos princípios do seguinte, a Camacha atraiu portugueses e estrangeiros endinheirados que construíram quintas para residirem no verão. Destruídas ou arruinadas as quintas, a Camacha deixou de ser hoje lugar de veraneio. As vilegiaturas pertencem ao passado.
A tradição oral aponta, e uma escultura regista, que, no ano de 1875, se jogou futebol, pela primeira vez em Portugal, na Achada, por iniciativa de Harry Hinton, nas imediações da quinta do seu pai.
A obra de vimes e as flores foram, no século XX, produtos de referência desta freguesia, muito apreciados pelos turistas. Algumas camacheiras requereram, na Alfândega do Funchal, licença de bomboteira, para poderem vender flores a bordo dos navios que ancoravam no Funchal.
Em 1933, a Câmara do Funchal determinou que as floristas, com atividade na cidade, deveriam vestir-se de acordo com suposta tradição (saia listada colorida, camisa branca, capa e colete vermelho, debruados de verde, carapuça azul e bota chã). Esta indumentária veio a ser vulgarmente denominada como o traje das camacheiras e até, impropriamente, de regional.

O Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, fundado em 1948, com atividade ininterrupta até aos dias de hoje, tem promovido este traje e difundido, na região, país e estrangeiro, as danças e os cantares tradicionais da Madeira.
A freguesia da Camacha foi elevada à categoria de vila pelo Decreto Legislativo Regional n.º 20/94/M, de 9 de setembro (Diário da República, n.º 209/1994, Série I-A, 09-09-1994).

Os ‘Censos de 2021’ indicam que a Camacha tinha 6239 habitantes, o que representa um decréscimo da população em relação a 2001 (7991) e 2011 (7449). Segundo o Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, existem 6188 eleitores nacionais, 3 da União Europeia e 4 outros cidadãos estrangeiros residentes.
Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de azul, “brinquinho” de prata entre dois cestos de vime de ouro, com flores de vermelho, folhadas de prata. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: “CAMACHA “. (Diário da República, n.º 176, 3.ª Série, Parte A, 31-07-2001).
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