Estepilha, Carlos Moedas: prisioneiro das próprias palavras sobre responsabilidade política

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Carlos Moedas: prisioneiro das próprias palavras sobre responsabilidade política

A expressão popular “pela boca morre o peixe” nunca foi tão apropriada como no caso de Carlos Moedas e a sua resposta ao acidente do Elevador da Glória. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa encontra-se numa posição politicamente delicada devido às suas declarações passadas sobre responsabilidade política, particularmente os casos envolvendo Fernando Medina no “Russiagate” e os elogios a Jorge Coelho pelo comportamento na tragédia de Entre-os-Rios.

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As declarações comprometedoras de 2021

Em 2021, quando ainda era candidato à presidência da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas foi implacável nas críticas a Fernando Medina após o caso “Russiagate”, onde dados de manifestantes anti-Putin foram partilhados com a embaixada russa. Moedas exigiu então a demissão do autarca socialista, declarando que era necessário “um novo tipo de políticos, os que assumiam as suas responsabilidades, mesmo perante um erro técnico”.

As suas palavras foram ainda mais vincadas quando afirmou: “Fernando Medina não assumiu nenhuma responsabilidade e um líder assume as responsabilidades das suas equipas, portanto, o não assumir da responsabilidade política, e não estamos aqui a falar de um caso qualquer, estamos a falar de um caso em que estão vidas humanas em jogo, e não assumir essa responsabilidade política é muito grave”.

 

O exemplo de Jorge Coelho como referência

Simultaneamente, Moedas elogiou publicamente a postura de Jorge Coelho na tragédia de Entre-os-Rios em 2001. O então ministro do Equipamento Social demitiu-se após o colapso da ponte Hintze Ribeiro, que provocou 59 mortes, proclamando a famosa frase: “A culpa não pode morrer solteira”.

Jorge Coelho tomou essa decisão apesar de António Guterres ter tentado dissuadi-lo e de não ter culpa direta no acidente. O ministro considerou que, como responsável político da pasta, alguém tinha de “dar a cara pelo que aconteceu” e que era uma questão “de consciência”.

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A contradição atual

Agora, face ao acidente do Elevador da Glória que causou 16 mortos e 23 feridos, Carlos Moedas encontra-se numa posição contraditória. Vários líderes políticos têm apontado esta incongruência:

Paulo Raimundo (PCP) declarou: “pela boca morre o peixe”, desafiando Moedas a ser coerente com as suas declarações passadas e questionando se ele considera ter “condições para continuar com as responsabilidades que tem”.

 

Pedro Nuno Santos foi direto ao afirmar que “Moedas é prisioneiro das suas próprias declarações em 2021, quando exigiu a demissão de Fernando Medina”.

Eurico Brilhante Dias (PS) sustentou que “o engenheiro Carlos Moedas sabe qual é a única decisão que tem pela frente para manter a coerência política” e que ele “sabe que não devemos exigir aos outros aquilo que não estamos preparados para cumprir”.

A pressão política crescente

A pressão sobre Moedas tem-se intensificado. O Chega apresentou uma moção de censura ao executivo camarário, com André Ventura a recordar que “Carlos Moedas pediu a admissão de Fernando Medina por transmissão de dados à embaixada russa, mesmo que isso fosse um erro técnico” e questionando “o que diria Carlos Moedas (…) ao Moedas de 2025, após 16 mortes ocorridas no centro da capital”.

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A estratégia defensiva

A equipa de Moedas tem tentado estabelecer diferenças entre os casos. Argumentam que o “Russiagate” resultou de “um procedimento errado seguido habitualmente pela Câmara de Medina”, enquanto no elevador da Glória “não foi possível (até ao momento) relacionar qualquer falha da administração da Carris (…) com o acidente”.

No entanto, esta distinção é problemática porque as próprias palavras de Moedas em 2021 enfatizaram que a responsabilidade política deve ser assumida “mesmo perante um erro técnico” e que quando estão “vidas humanas em jogo”, não assumir responsabilidade política “é muito grave”.

 

A manutenção externalizada e os alertas ignorados

A situação torna-se mais comprometedora quando se revelou que os trabalhadores da Carris tinham reportado sistematicamente “falta de tensão do cabo de sustentação do elevador” que provocava “dificuldade no próprio sistema de travagem”. A manutenção havia sido externalizada para a empresa MNTC em 2022, numa decisão contestada pelos sindicatos.

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O dilema da coerência política

Carlos Moedas encontra-se verdadeiramente “prisioneiro das suas próprias palavras”. Ao estabelecer em 2021 um padrão tão exigente de responsabilidade política – exigindo demissões mesmo por erros técnicos quando há vidas em jogo – e ao elogiar o exemplo de Jorge Coelho, criou um precedente que agora se volta contra si próprio.

A diferença fundamental é que Jorge Coelho agiu por convicção pessoal e consciência política, enquanto Moedas parece relutante em aplicar a si mesmo os mesmos critérios que impôs a outros. Como observou Paulo Raimundo, lamentando que “a coerência não seja propriamente, hoje, uma grande virtude de muita gente”, esta situação exemplifica perfeitamente como “pela boca morre o peixe” – quando as palavras de um político se voltam contra ele próprio, deixando-o numa posição insustentável do ponto de vista da coerência e credibilidade política.

 

Bibliografia (ordem alfabética, normas APA)

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Expresso. (2025, 5 de setembro). Chega anuncia moção de censura a Moedas e Ventura pede responsabilização política. Expresso. https://expresso.pt/politica/partidos/2025-09-05-chega-anuncia-mocao-de-censura-a-moedas-e-ventura-pede-responsabilizacao-politica-c279fd15

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