Estepilha: nova profissão, “engenheiro de recolha de recicláveis”

Rui Marote
O escritório do Estepilha abre todas as manhãs ao raiar do sol na antiga primeira sala de visitas da cidade, o Cais do Funchal. Com horizonte bem distante, vems um barquinho da pesca da “ruama”, chicharro e cavala, dando entrada na baía da pontinha. Uma verdadeira montra de inspiração para novos Estepilhas, a nossa secção irónica.
No velho cais, alguém exercita movimentos de ginástica. Entretanto somos surpreendidos pelo som  de garrafas e latas.
Um homem na idade dos quarenta ou cinquenta anos, razoavelmente vestido, estava com uma das mãos a refundiar no interior das inúmeras papeleiras fixadas ao longo do cais. Não resistimos em fotografar, enquanto algumas das latas no chão rolavam, sendo projectadas para as escadas. Este senhor pesquisador de plásticos recicláveis, ou como na nossa cabeça o classificámos, sem maldade, “fura caixotes”, escolhia as embalagens, metia-as em sacos e deixava o que não lhe interessava. Estas operações repetiram-se passando a pente fino todos os caixotes de recolha.
A realidade mudou. Antes eram os sem abrigo a protagonizar esta actividade, mas a mesma parece ter-se tornado  uma fonte de rendimento para várias pessoas e não apenas para quem não tem tecto. Bom reflexo da realidade económica.
O desemprego e o custo de vida levou cidadãos a recolher latas e garrafas para vender a centros de reciclagem. Cada um tem de se fazer à vida e ter os seus próprios desafios diários e traçar o seu caminho à sua maneira. Continuávamos no cais enquanto este cidadão ia vasculhando os caixotes da Avenida do Mar no sentido Este.
Passados alguns minutos voltamos a cruzar-nos com o nosso “fura caixotes” que transportava dois sacos de supermercado com as recolhas.
Resolvemos investigar, respeitando a sua liberdade e protegendo a sua identidade.
Ficámos surpreendido quando o mesmo abriu com chave automática  um veículo que estava  parqueado em frente ao Palácio de São Lourenço onde colocou no banco detrás e na bagageira a recolha dos vasilhames. Permaneceu na esplanada de um Kiosque  para tomar um café .Voltou ao carro para prolongar e pagar o estacionamento. E voltou a revistar os caixotes da zona Oeste em direcção ao Porto do Funchal.
Com o arranque do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) da volta, o famoso lema “toma lá, dá cá” tornou-se real, recompensando a devolução de garrafas de plástico e latas. Esse incentivo financeiro deu mesmo origem a uma realidade de recolha e triagem nas ruas, como se pode ver por este exemplo. Nada de mal… há que fazer pela vida. Mas que é curioso, é. Enfim, cada um com o seu passatempo.

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