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Um título, o simples título de um livro, uma sensação de que, de repente, em setenta anos, a vida recua e, do alto duma falésia suspensa sobre o Mediterrânio, se desprende um sonho, para, em segundos, chegar à ilha atlântica onde vivo, porque Mnemosine, soberana dos mistérios do tempo, continua atenta. As distâncias aproximam-se no tempo da alma, sendo a alma a essência que acautela a nossa permanente juventude. Uma memória feliz sobrepõe-se sempre a qualquer tipo de envelhecimento. A História avança, renovam-se os costumes, reformulam-se os valores, as crenças, os propósitos, mas a vida da psique humana revela sempre os mesmos anseios e as mesmas necessidades. Há um fenómeno intrínseco à espécie humana só possível de se traduzir através duma metáfora, a que Maria Zambrano chamou «A metáfora do coração». Esse fenómeno consiste no conflito permanente entre sentimento e racionalidade, sendo o sentimento o responsável pelos processos da catarse que permite à razão libertar-se de certos extremismos ou intransigências. Quando se estabelece o equiíbrio entre um e outra, assiste-se a grandes actos de humanismo e a História está repleta deles.
O livro de San Michele que eu li na minha adolescência, constituiu um marco de referência para o meu relacionamento com muitos aspectos da vida. Ainda hoje continua sendo. «Lê-lo e meditá-lo é aprender a viver» afirma o editor na sétima edição desta obra escrita por Axel Munthe. Não tenho nenhuma relutância em recomendar esta leitura aos jovens do tempo de hoje, na sua maior parte alheios a valores fundamentais de relacionamento com o mundo. Realço de novo as palavras do editor;«(…) em nenhum outro livro se afirma tanto a simpatia da alma que aproxima e enleia indivíduos, pátrias, continentes e povos.»
Axel Munthe nascido no fim do sec. XIX na Suécia foi um médico escritor que, enquanto jovem estudante de medicina, após uma viagem a Capri e em contacto com o povo e a história da ilha, alimentou e realizou um sonho ainda hoje vivo e exemplar. A sua Villa de San Michele, a casa que construiu a partir das ruínas que envolviam o palácio de Tibério, na alcandorada Anacapri, constitui actualmente um património histórico e cultural activo que agrega um museu, um belo jardim e é palco onde se apresentam espectáculos com grandes orquestras e cantores de todo o mundo. O recheio do museu é constituído por achados etruscos e romanos encontrados durante a recuperação do espaço e outras obras que este jovem empreendedor foi adquirindo ao longo do tempo de construção do seu sonho. Realizou-o com a colaboração dos habitantes de Anacapri a quem rende homenagem no seu livro : A Maria Porta-Letere que subia os 177 degraus fenícios de San Michele para lhe entregar as cartas; Mastro Vicenzo que cuidava da sua própria vinha e mais tarde lhe vendeu a propriedade; o padre Anselmo, o ermitão instruído que conhecia as lendas de Tibério e lhe contava sobre a ocupação da ilha pelos ingleses e mais tarde pelos franceses. Recorda também o velho Pacciale. homem do mar e seu jardineiro. Recorda-os com a ternura com que refere o caracter dos homens genuínos, honestos nas palavras e nos actos, assim como deixa fluir nitidamente a ironia queirosiana que lhe merecem as futilidades dos mundanos de Paris, a condessa X, Monsieur Le Comte e a tia marqueza.
Mas o projecto de Axel Munthe foi muito para além do refúgio pessoal, onde escreveu o livro da sua vida e sempre procurava nos regressos do exercício da medicina em Paris ou na Suécia. A montanha de Barbarossa voltada para a ilha de Ísquia, faz parte da sua propriedade, adquirida expressamente para conter uma reserva de aves migratórias que ele quis salvar das redes e armadilhas dos comerciantes clandestinos. No topo da montanha ergue-se o castelo milenar de Barbarossa procurado na Primavera por ornitólogos de todo o mundo para observação das aves.
Capri, terra mediterrânica, oferecida aos privilégios do turismo de luxo, possui este tesouro precioso, sonho de um jovem de 19 anos que dedicou a vida a erguer um paraíso onde animais e gente, flores e videiras, e memórias do passado histórico, se envolvem numa aura mística que o texto evoca ao longo de cerca de 400 páginas, onde razão e sentimento se harmonizam, para afirmar uma obra de interesse universal, exemplar e inspiradora para quem procura um sentido para a vida.
O Livro de San Michele, tenho-o em particular reserva afectiva, desde a minha adolescência. Voltei a folheá-lo e, de novo, percebi que os sonhos de juventude só se engrandecem se procurarem caminhos de paz e de harmonia com o que à nossa volta constitui o apelo mítico do Panteísmo a que que Munthe chama « a idade de oiro esquecida há muito, em que Pan,( não o sátiro, mas o deus cósmico, total e abrangente), vivia ainda e as árvores da selva podiam falar e as vagas do mar cantar e os homens escutar e compreender».
Julho, 2025
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