Engenheiros debatem resiliência dos sistemas eléctricos insulares

A Ordem dos Engenheiros – Região Madeira organiza, esta segunda-feira, um debate público sobre a resiliência dos sistemas eléctricos insulares e interligados, à luz do apagão ibérico de 28 de Abril, considerado o maior colapso eléctrico da Europa Ocidental nas últimas décadas. O evento, que decorre no Museu Casa da Luz, Funchal, com diversos especialistas e responsáveis do sector energético, serve também para dar destaque à estratégia inovadora da Madeira na integração de energias renováveis e armazenamento com baterias, refere um comunicado.

A estratégia para a ilha da Madeira, no que se refere a sistemas alternativos de abastecimento de energia eléctrica, é semelhante ao que já funciona no Porto Santo, através de baterias e geradores.

A informação foi avançada, no início da tarde desta segunda-feira, no Museu Casa da Luz, no Funchal, por Francisco Taboada, durante a cerimónia de abertura do novo ciclo de conferências “Conversas com a Sociedade”, promovido pela Ordem dos Engenheiros – Região da Madeira, subordinado ao tema  “A Anatomia das Redes Eléctricas: Apagões e Outros Jargões”.

Esta estratégia, segundo o presidente da Empresa de Electricidade da Madeira, permite uma integração pacífica das energias renováveis, especialmente a solar.

O Porto Santo detém um parque solar existente de 2 MW, com a potência renovável a totalizar 13,5 MW. Com a combinação de duas baterias (20 MW de potência total e capacidade similar) e os 13,5 MW de potência renovável, além das interligações limitadas, estudos indicam que a central térmica do Porto Santo pode ser desativada por cerca de 200 minutos, transformando-a numa central de emergência que só arranca em caso de insuficiência solar ou eólica.

Apontando a central de baterias do Porto Santo, a primeira na RAM, como um caso de sucesso, Francisco Taboada referiu que, apesar da diferença na proporção, a entrada da primeira bateria da Vitória, no Funchal permitiu retirar dois grandes grupos de reserva da Central Autónoma, gerando poupanças significativas em combustível, emissões e manutenção. A segunda bateria permitirá a remoção de mais dois grupos. A Madeira também beneficia da produção hidroeléctrica (cerca de 1,5% do sistema energético), eólica (150 MW) e solar (20 MW), totalizando cerca de 170 MW de renováveis, sem contar com os 150 MW de autoconsumo.

A Empresa de Electricidade serve cerca de 140 mil clientes e está a concluir a instalação de 140 mil contadores inteligentes em toda a Região.

Francisco Taboada recordou que, apesar dos avanços, o sistema isolado da Madeira, dependente de transportes marítimos e condições atmosféricas, não está isento de eventos disruptivos. “É fundamental que a central térmica esteja preparada e que se aprenda com outras comunidades para garantir a máxima segurança à população”, reiterou o responsável pela EEM.

Já numa nota de apresentação do evento, a presidente da Região Madeira da Ordem dos Engenheiros, a entidade organizadora, frisou a importância de compreender as fragilidades dos sistemas eléctricos e implementar medidas preventivas face a apagões.

“A sociedade moderna vive uma crescente dependência do sector elétrico, com aumento do consumo e a eletrificação dos transportes”, recordou Beatriz Jardim, para quem a transição energética e o uso de renováveis levantam questões sobre a estabilidade e segurança do fornecimento.

“Persistem dúvidas sobre a preparação de Portugal para futuros apagões e as medidas mitigadoras”, frisou a responsável pelos engenheiros na RAM. “Enquanto Espanha já implementou pacotes legislativos e financeiros para prevenção, Portugal parece demonstrar alguma inércia”, referiu.

“Ilha eléctrica”

A sessão de abertura contou ainda com a intervenção de António Vidigal, antigo presidente da EDP Inovação e consultor em energia. O investigador classificou a Península Ibérica como uma “ilha eléctrica”, devido às fracas ligações com o resto da Europa, e analisou o apagão ibérico como resultado de decisões técnicas que agravaram uma situação de tensão elevada nas linhas de 400 kV com baixa carga. Sublinhou a importância de reforçar a “situational awareness” com tecnologias mais rápidas (como LANs em vez de SCADA), mitigar rapidamente oscilações e assegurar uma inércia mínima através de condensadores síncronos, particularmente em sistemas isolados como o da Madeira.

No centro das preocupações esteve o impacto da transição energética sobre a estabilidade da rede. A crescente integração de renováveis, baseada em inversores e não em máquinas rotativas, reduz a inércia da rede, tornando-a mais vulnerável a falhas. António Vidigal defendeu a adopção de regras claras sobre limites de variação de frequência (RoCoF), a instalação de equipamentos “grid-forming” e a monitorização permanente da inércia do sistema.

Nesta cerimónia, interveio também Luís Gouveia. O vogal do Conselho de Colégio de Especialidade de Engenharia Electrotécnica da RMOE abordou a resiliência das baterias na resiliência da rede eléctrica da Madeira e do Porto Santo.

O encontro desta segunda-feira visa promover um debate sobre a resiliência dos sistemas elétricos, analisando o apagão de 28 de Abril. Serão realizados dois painéis: o primeiro sobre a resiliência de redes interligadas versus isoladas, e o segundo sobre o impacto de apagões, eventos climáticos extremos e cibersegurança. Haverá espaço para questões após cada painel.

O primeiro painel aprofundará a comparação entre redes isoladas e interligadas. É destacado que as redes isoladas, como a da Madeira, têm uma responsabilidade acrescida devido à sua especificidade, pequena dimensão e afastamento das redes continentais, o que simplifica a gestão técnica, mas é dificultada pela crescente integração de energias renováveis.

O apagão ibérico de 2025 foi considerado o maior colapso eléctrico da história moderna da Europa Ocidental, afectando mais de 58 milhões de pessoas. As consequências directas incluíram interrupções nos transportes (aeroportos, serviços médicos), na saúde (hospitais com geradores, mas com equipamentos críticos e sistemas de informação afectados), nas comunicações (redes móveis e internet parcialmente indisponíveis) e no abastecimento básico (água potável).


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