Aniversário do horror do “Vél d’hiv” (1942)

“Transmitir a memória do povo judeu, do sofrimento e dos campos de concentração (…) Dar testemunho uma e outra vez. Reconhecer os erros do passado e os erros cometidos pelo Estado. Não deixar nada fora das horas sombrias da nossa História é, muito simplesmente, defender uma ideia do Homem, da sua liberdade e da sua dignidade. É lutar contra as forças obscuras que estão sempre a atuar. Este combate sem tréguas é tanto meu como vosso”.

Jacques Chirac, antigo Presidente da República francesa, 1995

Aniversário do horror do “Vél d’hiv” (1942)

Em 1995, pela primeira vez, formal e oficialmente, a República francesa reconhecia, através do seu recém-eleito Presidente, Jacques Chirac, a responsabilidade do Estado francês, na deportação de milhares de judeus, provocando a morte desumana de tantos e o sofrimento atroz de outros (idosos, jovens e crianças incluídos). Entre 1942 e 1995, um silêncio incómodo autorizava este “tabu” e exigia a grandeza de Estado que Chirac soube assumir.

  1. O que aconteceu?

Em 1942, a França vivia sob a ocupação alemã, no quadro da Segunda Guerra Mundial. O governo francês, cúmplice com o ocupante alemão, instalou-se na cidade de Vichy, na sequência do Armistício assinado pelo General Pétain (1940). Numa outra geografia, no sudeste francês, desenvolveu-se o movimento que ficou conhecido como “La Résistance”. Este movimento, liderado subsequentemente pelo General De Gaulle, foi fundamental no resgate da independência francesa e no fim da guerra, em cooperação com britânicos e norte-americanos.

Nesse ano, nos dias 16 e 17 de julho, a polícia de Vichy, composta por cidadãos franceses, desencadeia uma rusga à comunidade judaica parisiense, conduzindo-a para o “Velódromo de inverno” e encarcerando-a, aí, durante seis dias. Cerca de 13000 judeus, dos quais um terço eram crianças, estiveram nesse espaço, sem alimentação, sem quaisquer condições sanitárias, tendo a grande maioria sido deportada para Auschwitz. Anteriormente, alguns foram para o campo de “Drancy”, sobretudo as crianças, após a separação dos pais. Os homens passaram pelo campo de “Beaune-la-Rolande”, antes da deportação para “Auschwitz”. Pela primeira vez, foram vítimas da rusga mulheres e crianças (totalizando cerca de 9500 pessoas). As casas vagantes foram imediatamente ocupadas por franceses denunciantes. Quatro mil e quinhentos polícias franceses, sob comando alemão, foram mobilizados para esta iniciativa de terror.

No Velódromo, entre sangue, vómitos, excrementos e urina, as doenças propagaram-se rapidamente. Uma parte dos detidos morreu no local. Alguns cometeram suicídio, lançando-se dos anéis mais altos para o centro do recinto. Ninguém os recolhia. Quanto aos sobreviventes, nenhum sabia que destino lhes seria reservado.

O “mal banalizado”, de franceses contra franceses, num quadro de cumprimento de ordens do ocupante inimigo e de denúncias torpes e cobardes, colocou em causa o país da divisa solidária e constituiu uma das mais terríveis passagens da História da Segunda Guerra Mundial, em França e no Mundo.

  1. O “Dever de memória” e a visão pessoal de Simone Weil

O conceito de “dever de memória”, cunhado por volta de 1970, foi apropriado pela autonomização da memória da “Shoah” (Holocausto). Refere-se, atualmente e de forma mais geral, à preservação da memória de episódios históricos violentos e traumáticos, como o Holocausto, no sentido de instruir os jovens para que, munidos do conhecimento da História, possam construir futuros de Paz. Simone Weil, sobrevivente de “Auschwitz”, com o número de prisioneira 78651, filósofa e ativista política, defendia que a memória não deveria representar uma imposição (um dever), mas um conhecimento e uma consciencialização relativa às páginas mais violentas, assim como as mais luminosas, no quadro do combate pela dignidade humana e no compromisso pelo desenvolvimento de leis e de políticas que eduquem para a Paz e que o inefável terror pelo qual as vítimas do nazismo passaram, não tornasse a acontecer.

Multiplicaram-se os institutos, os programas nacionais e supranacionais, Simone Weil foi, inclusivamente, presidente da “Fundação memória da Shoah”, porta-voz incansável da urgência da Paz e da Concórdia.

3 – Porque vale a pena, hoje, recordar o “Vél d’hiv” e homenagear as suas vítimas: a questão da indignação selectiva ou “dois pesos, duas medidas”

A globalização, no quadro da difusão tecnológica fácil e rápida, sobretudo acrítica, tem permitido uma violenta divulgação de notícias / “informações” falsas, de teorias revisionistas da História, da inversão dos factos e um apelo convocatório ao ódio, actualmente dirigido sobretudo contra cristãos e judeus.

O extremismo islâmico, com apoio de faixas políticas importantes, nos países ditos “ocidentais”, deu origem ao movimento que se designa por “islamoesquerdismo” que consiste na defesa de valores e acções contrárias aos pressupostos ideológicos das principais correntes da esquerda ocidental, validando, apesar disso, intervenções conducentes à “limpeza étnica” de judeus e de cristãos, por exemplo, o que não nos deve fazer esquecer, apesar de toda a propaganda, dos pressupostos da teoria da “solução final” proposta por Hitler.  A indignação selectiva ou “dois pesos, duas medidas” (“double standards”), a atribuição ou anulação do valor da vida, consoante as proveniências étnicas e/ou religiosas, fundamento do anti-intelectualismo que vigora, infelizmente, nos média e nas universidades, formatando jovens para a violência e a experiência acrítica da ab-rogação do Outro, representam uma marca do nosso tempo que indicia um retrocesso civilizacional grave, indesejável e perigoso.

Organizações feministas que, no Ocidente, assumem um discurso incisivo sobre a defesa da dignidade da mulher, silenciam o “apartheid” de género que os regimes muçulmanos extremistas impõem às mulheres (refiro-me muito especificamente, ao Irão onde o regime Talibã permite, por lei, o espancamento até à morte, das mulheres, assim como a aplicação de choques elétricos por infracções ao código de vestuário, por exemplo). O pacto das esquerdas ocidentais com o cancelamento das mulheres (pelo vestuário e pela proibição da voz, falada ou até cantada) nos regimes radicais, o silêncio das esquerdas ocidentais face às vítimas destes regimes teo-autocráticos, é o mesmo princípio que presidiu silencioso massacre dos judeus, em 1942, no Velódromo de inverno, em Paris.

A indignação selectiva, princípio doutrinário do nacional-socialismo nazi (judeus, ciganos, homossexuais, pessoas portadoras de deficiência), a que se submetem as esquerdas ocidentais, representa um grave atentado ao que consubstanciou, no Ocidente da defesa dos Direitos Humanos, um tempo de oitenta anos de Paz. A multiculturalidade não deu lugar à interculturalidade, já sabemos. Não é possível consensualizar a defesa dos Direitos humanos com quem os nega e ataca. O “dever de memória” está agonizante.

A 16 e 17 de julho de 1942, em Paris, 4000 crianças foram deportadas, separadas dos seus pais, pelo simples facto de serem judias. Eram todas francesas. Na mesma data, mais de cinco mil mulheres foram separadas dos seus filhos e deportadas, pelas mesmas razões. Eram todas francesas. Os três mil homens, igualmente. Franceses mataram franceses, a mando de uma autoridade externa e cruel.

O Ocidente está a ser vítima do mesmo processo e subornado para ceder a Ética do respeito pelos Direitos Humanos, à sua violação. Está captivo de interesses e de regimes que pugnam por “limpezas étnicas”, que distorcem a História e o Presente, que violam a dignidade das pessoas e que ofuscam os regimes democráticos, em favor de opressores e violadores. Comprometem, de forma profundamente desencorajante, a garantia que cada geração deve à seguinte, de um futuro melhor.

Recordar que, em 1942, o regime nazi impôs aos agentes da polícia francesa que encarcerassem 13 mil irmãos, num espaço onde dificilmente caberiam mil pessoas, pelo simples facto das suas origens serem judaicas, deveria fazer-nos pensar nos métodos do “Hamas” e da “Jihad islâmica”, do “Boko Haram”, do “Hezbollah”, dos “Houthis” e outras milícias “Shi’ite”, todos considerados “proxies” iranianos e treinados pelo IRGC do Irão. Estes “comandos” paraestatais que nos recordam a violência da Idade Média, retomada por Hitler, sem qualquer tipo de respeito pela vida ou pelo seu valor, espalham o terror e contribuem para a estratégia expansivo-conquistadora dos Talibã. Todos estes “braços armados” do Irão assumem como método de conquista os raptos, as violações e a destruição generalizada de aldeias/cidades inteiras. Os silêncios cúmplices ensurdecem.

O “Relatório Dinah – 2025” que resulta de um processo de estudo e de investigação sobre os acontecimentos do 7 de outubro, em Israel, no qual se comprovam as bárbaras violações, perpetradas pelo Hamas, a mulheres raptadas e tidas como reféns, a algumas crianças e até bébés, degolados e violados barbaramente post-mortem, não contou com qualquer referência das organizações feministas ocidentais e, lamentavelmente, menos ainda da ONU (organização capturada, há muito, por interesses contrários aos princípios que presidiram à sua fundação e que deveriam constituir a sua missão).

A banalização do mal (Arendt), a indignação selectiva, a perda de consideração pelo valor da vida, por opção ideológica, estão a conduzir-nos ao fim de um tempo de respeito civilizacional que pautou o comportamento do Ocidente após o Holocausto.

4 – “Defender uma ideia do Homem, da sua liberdade e da sua dignidade” – Chirac

Retomo um dos fragmentos da epígrafe. Que ideia de Homem-Mulher, que ideia de Ser Humano defendem as pessoas que manipulam jovens para a violência, que os formatam para a aceitação de valores contrários à defesa dos Direitos Humanos e que os constrangem ao revisionismo histórico? Que ideia de Ser Humano defendem as pessoas que são cúmplices de regimes cujo estatuto programático supõe a destruição de outros povos e o cancelamento das mulheres, tratadas como entes inferiores e destituídas de quaisquer direitos? Que ideia de dignidade pretendem os manipuladores de consciências que impõem aos jovens a defesa de regimes onde é lícito apedrejar e violar mulheres por parte dos pais e irmãos porque não devem morrer virgens?

Não é, de facto, politicamente correcto este texto. Não pretendo que o seja.

Recordar a rusga do “Vél d’Hiv” (1942) é facultar o entendimento do presente, através do conhecimento das atrocidades da História. Franceses, sob o comando das autoridades nazis, procederam à maior deportação de judeus (cidadãos franceses) ocorrida durante a segunda guerra mundial, em França. Não foram deportados por serem combatentes ou por estarem envolvidos nas actividades da Resistência francesa. Foram deportados, violados e mortos, barbaramente, por serem judeus.

Elie Wiesel, escritor e activista pelos Direitos humanos, judeu sobrevivente dos campos de concentração, dedicou a sua vida, pós-encarceramento, à memória do Holocausto. Tinha quinze anos quando foi deportado. No momento da libertação, tinha ficado órfão. Mais tarde, escreveu um primeiro livro onde compilou os registos da sua experiência nos campos de concentração, principalmente em Auschwitz. O livro foi primeiramente publicado em “yiddish” e intitulava-se, numa tradução literal, E o mundo permaneceu em silêncio. Dedicou a sua vida a escrever sobre a Paz e a propor a paz como solução para o mundo. Pugnou por um mundo sem injustiças e que respeitasse a dignidade humana. Foi-lhe atribuído o Prémio Nobel da Paz, em 1986. Faleceu em 2016 tendo permanecido, por muitos anos, uma referência da transformação do horror e do sofrimento em esperança e aprendizagem. Em muitas universidades, norte-americanas e também europeias, é proibida – atualmente – qualquer referência ao autor e activista. A censura e o cancelamento dos autores do Holocausto estão a ser prática corrente em muitas universidades. Porquê? É lamentável que os lugares onde a reflexão, a discussão, o treino e o exercício crítico deveriam ser a regra, sejam agora monumentos à censura, ao incentivo ao ódio e às propostas de validação de limpezas étnicas, de “soluções finais”, de modelos ideológicos neonazis, afinal.

Nos campos de uma vasta geografia deste planeta, jazem os mortos, vítimas de violenta incivilidade, em 2025. A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945. Recordar a barbárie do “Vél d’hiv”, hoje, honrar a memória dos mortos, representa um dever de consciência cívica do qual não nos podemos/devemos demitir. A hipoteca da Paz e dos valores de respeito civilizacional que a consubstanciam, marcou sempre, ao longo da História, períodos de grandes perdas do compromisso com o valor da vida e do respeito pelo Outro.

Termino com uma referência a Primo Levi, autor igualmente censurado em muitas universidades ocidentais. Nascido em Turim, em 1919, membro da Resistência contra o nazismo, foi deportado para Auschwitz. Sobreviveu e dedicou-se à escrita como “dever de memória”: «esta é a experiência da qual saí e que me marcou profundamente; o seu símbolo é a tatuagem que até hoje trago no braço: o meu nome de quando não tinha nome, o número 174517”. No seu livro “Se isto é um Homem”, um dos que o tornou uma voz respeitada no âmbito dos estudos sobre o Holocausto, escreveu:

“Ainda não compreendemos a natureza do monstro em que nos transformamos (…). Basta oferecer a alguns indivíduos em estado de escravidão uma situação privilegiada, certo conforto e uma boa probabilidade de sobrevivência, exigindo em troca a traição da natural solidariedade com os companheiros, e haverá por certo quem aceite (…). Aqui, a morte é uma possibilidade constante, mas a vida é uma esperança frágil”.

É isso. Hoje, é isso.


 

Uma fonte: https://www.fondationshoah.org/

Uma sugestão: o filme “Elle s’appelait Sarah”, de Giles Paquet-Brenner, com Kristin Scott Thomas, baseado na obra homónima de Tatiana de Rosnay e traduzido, em português do Brasil, como “A chave de Sarah”. É muito rigoroso, do ponto de vista histórico, retratando com fidelidade o horror dos dias do “Vél d’hiv” e do que sucedeu.

 


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