Por Que o SIRESP Falhou Durante o Apagão em Portugal de 28 de abril de 2025

O apagão geral que afetou a Península Ibérica em 28 de abril de 2025 expôs gravemente as vulnerabilidades do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP). Este relatório analisa as múltiplas falhas que comprometeram o funcionamento deste sistema crítico durante a crise.

Falhas Generalizadas na Rede de Antenas

O impacto do apagão no SIRESP foi devastador, afetando grande parte da infraestrutura de comunicações de emergência. A investigação da SIC confirmou que houve falhas em mais de 75% da rede de antenas do SIRESP, embora algumas continuassem a funcionar em “modo local” com capacidade limitada. Isto significa que, no momento mais crítico, três quartos da rede nacional de comunicações de emergência estava comprometida.

O próprio SIRESP admitiu oficialmente que “o maior impacto na rede SIRESP adveio da falha da rede de transmissão, que afetou, no seu pico, 75,2% do parque”. Esta situação deixou várias corporações de bombeiros, unidades do INEM e comandos da PSP sem comunicações adequadas em plena emergência.

Autonomia Insuficiente das Baterias

Uma das falhas estruturais mais graves foi a insuficiente autonomia das baterias das antenas SIRESP. Embora as estações base do sistema estivessem equipadas com baterias para garantir operação contínua durante falhas de energia, estas revelaram-se inadequadas para um apagão prolongado.

Conforme relatado pela investigação da SIC, cerca de 15,2% do parque de antenas perdeu completamente a capacidade de operar devido ao fim da autonomia das baterias após 8,5 horas de funcionamento ininterrupto. A autonomia padrão das baterias existentes ronda as 6 horas, tempo claramente insuficiente para emergências prolongadas.

O comandante dos Bombeiros da Moita, Pedro Ferreira destacou esta vulnerabilidade: “Se nós sabemos que as baterias só duram seis horas, nós temos de estar precavidos para ter algum sistema para quando as baterias falharem”.

Problemas com Geradores de Emergência

Além das falhas nas baterias, os geradores que deveriam fornecer energia suplementar também apresentaram problemas graves. Por volta das 19h53, aproximadamente 8 horas após o início do apagão, ocorreu uma falha crítica nos geradores do centro de operações do Porto.

Esta falha, que durou 70 minutos, desligou da rede praticamente todas as 108 estações base nos distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Bragança, aumentando significativamente o impacto do apagão no norte do país. A MEO, questionada sobre esta falha, afirmou que “já não é prestadora do serviço SIRESP desde o ano de 2023” e que apenas “disponibiliza alguns espaços técnicos físicos”.

Falha no Sistema de Redundância por Satélite

Outro fator crítico que contribuiu para a inoperância do SIRESP foi a falha do sistema de redundância via satélite. Este sistema, implementado após os grandes incêndios de Pedrógão Grande em 2017 com um investimento de milhões de euros, deveria garantir as comunicações mesmo quando a infraestrutura terrestre falhasse.

No entanto, conforme apurado pela investigação da SIC e confirmado pelo próprio SIRESP, este sistema de contingência esteve inoperacional durante a maior parte do apagão: “Foi detetada e reportada uma falha neste sistema de redundância satélite, entre as 15h58 e as 23h00”. Este serviço, operado pela NOS Comunicações com um contrato de quase 800 mil euros anuais até 2027, falhou precisamente quando era mais necessário.

A falha do sistema de redundância por satélite foi particularmente grave porque ocorreu simultaneamente com os problemas nas antenas terrestres, eliminando assim a camada de segurança que deveria prevenir um colapso total da rede.

Impactos Operacionais e Resposta de Emergência

As consequências destas falhas foram imediatas e graves. Os bombeiros de Montalegre, por exemplo, relataram que “o SIRESP foi logo a primeira coisa a falhar. Por volta das 14:00 caiu”. Em situações críticas, as equipes de emergência tiveram que recorrer a métodos alternativos de comunicação.

José Lopes, adjunto de comando dos Bombeiros Voluntários de Montalegre, revelou que “até os meios aéreos foram ativados via Whatsapp para o comando sub-regional”. Esta improvisação, embora necessária, evidencia a gravidade da situação e os riscos associados à falha do sistema oficial de comunicações de emergência.

O INEM também enfrentou “constrangimentos pontuais no acionamento dos meios de emergência” por todo o país. Em Coimbra, por exemplo, o INEM ficou sem acesso ao SIRESP por falta de rede.

Reconhecimento Oficial das Falhas

O próprio governo reconheceu as deficiências do sistema. O ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, admitiu publicamente: “O SIRESP não funcionou a 100%, teve falhas. Mais uma vez. Andamos há décadas a falar do SIRESP e o SIRESP teve falhas”.

A ministra da Administração Interna também reconheceu as falhas do SIRESP, assim como a Proteção Civil, bombeiros e INEM. Este reconhecimento generalizado evidencia a seriedade e a extensão dos problemas enfrentados durante o apagão.

Medidas Anunciadas pelo Governo

Em resposta a esta crise, o governo anunciou a criação de uma equipa “técnica e multissetorial” para desenvolver, no prazo de 90 dias, um estudo estratégico com vista à “substituição urgente” do SIRESP. Esta decisão foi justificada pelas “falhas estruturais e operacionais do sistema, evidentes mais uma vez durante o apagão”.

Em modo de balanço

O apagão de 28 de abril de 2025 revelou fragilidades profundas no SIRESP, com falhas em múltiplos níveis: nas antenas, nos sistemas de energia backup (baterias e geradores) e no sistema de redundância por satélite. Esta “tempestade perfeita” de falhas simultâneas expôs a inadequação do sistema atual para enfrentar emergências prolongadas e de grande escala.

A experiência demonstrou que, apesar dos investimentos e melhorias implementados após crises anteriores (como os incêndios de 2017), o SIRESP continua vulnerável a falhas sistémicas. A decisão do governo de avançar para a substituição do sistema reflete o reconhecimento da necessidade de uma solução mais robusta e resiliente para as comunicações de emergência em Portugal.

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