Da Rua da Amargura à Travessa da Esperança

A toponímia abre caminho ao estudo do passado de uma terra e do seu devir histórico. A mensagem forte de uma designação toponímica poderá, contudo, sugerir também uma digressão longe do seu contexto real, num título de uma leitura do presente, com a objectividade possível.

Hoje a Região Autónoma da Madeira vive na Rua da Amargura. Um Governo Regional com um presidente e quatro secretários regionais a contas com a Justiça, salvaguardados pela presunção de inocência e o direito de defesa. Uma rede tentacular de influências e clientelas que tudo pretende dominar e subjugar. Um poder político vergado ao poder económico. Uma imprensa amordaçada pelos interesses dos seus proprietários. Uma RTP-Madeira maniatada. A maior taxa de risco de pobreza em Portugal. Uma grave crise habitacional. Emigração de jovens licenciados para o estrangeiro.

RUA DA AMARGURA, MACHICO. FOTO: © NELSON VERÍSSIMO, NOVEMBRO 2024.

Na Saúde, faltam recursos e meios para diminuir os tempos de espera pelas consultas de especialidade e cirurgias. Muitos seniores doentes ou na solidão aguardam, numa longa lista, uma vaga numa Estrutura Residencial para Pessoas Idosas ou Lares Residenciais. Há um número considerável de pessoas que, por motivos sociais, permanecem internadas após a alta clínica.

A Educação enjeita a inovação, para além de tablets, quadros interactivos e manuais digitais. A paisagem vai progressivamente sendo descaracterizada. Alguns exemplares do Património Cultural Arquitectónico estão votados ao abandono ou condenados ao implacável camartelo.

O Turismo chunga invade o espaço insular, em atitudes de desrespeito pela Natureza e pelos costumes dos ilhéus. Muitos, senão a maioria dos madeirenses, padecem de falta de literacia mediática e de cultura política. Ninguém pretende mudar o povo, mas, sim, contribuir para a sua evolução intelectual. A imagem da Região surge, na imprensa nacional, como uma terra de políticos desacreditados. A Autonomia, intencionalmente ou não, aparece descredibilizada perante o País. Entre nós, é agora chama enfraquecida.

Estará tudo mal? Claro que não. Em cinquenta anos, verificou-se uma evolução considerável, sobejamente reconhecida. O progresso é indiscutível para quem, como eu, nasceu e sempre viveu nesta ilha, antes e depois de 1974. Contudo, importa também enumerar o que falta, pois, uma ampla propaganda, afecta ao PSD, difunde uma imagem que, nalguns casos, está bem distante da realidade ou dela desfocada.

Neste cenário, temos uma Assembleia Legislativa que nem é capaz de cumprir o seu próprio Regimento e procrastina a discussão de uma moção de censura ao Governo Regional da Madeira.

A espada de Dâmocles, que ameaça Miguel Albuquerque, prolonga também a sua agonia e a incerteza política da RAM, ou talvez não, porque com o CHEGA nunca se sabe.

O Partido Socialista, como no passado, alberga no seu seio uns conhecidos roedores que, em momentos cruciais, atacam a liderança, para que se desvaneça a confiança dos eleitores na oposição. Esses camaradas ainda não perceberam que o canibalismo destrói o grupo. A contestação e a discussão de novos projectos fazem-se no momento e lugar próprios. A sua ânsia de vingança e sede desmedida de protagonismo arruínam o partido. Com essas atitudes antropofágicas, a oposição socialista deixa, mais uma vez, de ser alternativa.

O JPP tenta, a todo o custo, segurar Santa Cruz, o que é natural, por não querer perder o seu reduto. Proclama um tempo próprio para a governação, confundível com a vontade de continuar a ser oposição, que exerce com firmeza e fundamento. No entanto, quem anda na disputa eleitoral tem de estar também preparado para ser poder e alargar a sua área de influência, tanto no terreno como nas matérias de intervenção. E isso não pode depender somente de grupos de cidadãos, mas da organização partidária.

O CDS faz oposição ligeira ou suave junto dos media, mas é solidário com o PSD-Madeira que, em troca, lhe garante o poder, que, de outra forma, nunca alcançaria.

Do PAN, não vale a pena falar. Se, pelo seu recente percurso na Madeira, a credibilidade já se mostrava duvidosa, com a apresentação de um voto de pesar por um lince mantido em situação ilegal, deixou, para mim, de a ter.

A IL apresenta certa firmeza de posições, mas incomoda sem se afirmar no terreno.

Para todos os males há remédio, excepto para a morte. Caminhamos, por isso, pela Travessa da Esperança.

Esperança maior era ver Miguel Albuquerque demitir-se, como recomenda o bom senso e a nobreza de carácter. Todavia, a sua teimosia poderá originar a aprovação da moção de censura, entregue pelo CHEGA.

TRAVESSA DA ESPERANÇA. PH: © RENATA LONGO, 2024.

Albuquerque, com tantos anos de vida política, sempre se achou muito importante, mas descuidou da sua reputação, indispensável para o respeito devido a uma autoridade. O desejo de ser importante é um dos pressupostos de um líder. Todavia, a esse princípio, tão bem definido por John Dewey, associa-se o reconhecimento gerado pelo respeito, e não pela ameaça e o medo do chefe.

Apesar das críticas contundentes e públicas do anterior líder do PSD-M, empenhadíssimo na substituição de Albuquerque e no fim da sua carreira política, por amor à Madeira e ao PSD, ou, quiçá, por vingança, o partido social-democrata não sabe como proporcionar uma saída airosa ao presidente, como lhe salvar a cara, porque, com o fim do exercício das funções governativas, acaba-se a imunidade que o protege das malhas da Justiça.

Cai o Governo Regional e duas alternativas se colocam: eleições regionais ou a indicação de outro social-democrata para formar governo.

Por mais que disfarce, nenhum partido, por razões diversas, quer novo acto eleitoral na RAM, num ano em que, nos meses de Setembro ou Outubro, se realizará a Eleição dos Órgãos das Autarquias Locais.

Se for essa também a vontade do Presidente da República, o que não é certo pelas decisões que tomou ultimamente, causando a instabilidade no governo de Portugal e também nas Regiões Autónomas, um novo nome terá de ser apresentado pelo partido que venceu, sem maioria, as eleições para a Assembleia Legislativa, em 26 de Maio de 2024.

Isso competirá aos órgãos próprios do PSD-Madeira e não aos notáveis do partido, mais interessados em manter o aparelho governamental bloqueado a qualquer intruso, para que do búnquer não saiam mais coelhos.

No entanto, esse candidato terá de apresentar uma solução governativa com apoio de uma maioria parlamentar. Caso contrário, será preferível não protelar eleições.

E pela Travessa da Esperança caminhamos, assistindo, à distância e com algum humor, à trambolhada política da nossa terra.

 


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