Quem responde?

Falar de quê ? Dizer o quê ? Desde há algum tempo que o ponto de interrogação me atormenta. É um tormento ondulante como um vento que, ora frio me arrefece, ora quente me atiça  uma espécie de febre, uma fogueira de sentimentos dúbios entre o cansaço e a esperança, entre a  mágoa e a tolerância, entre o desprezo e a magnanimidade, entre a revolta e a conformação. O ponto de interrogação é um sinal composto por três formas de grafismo: Uma curva, uma recta e uma forma pontual. A curva abre um percurso que se alarga e se distende, depois ,na expressão vertical duma pequena recta que conduz a um salto, para depois se fixar num ápice de tempo traduzido num ponto. Finalmente apresenta-se como um signo perturbante que contém todas as incertezas do mundo.

Se formos à sua origem, há a informação de que terá surgido pelos séc. XIV e XVII, na escrita corrente, derivada da romana, após o povo ter tido acesso à leitura que até à data era privilégio dos monges. De início era usada a palavra latina quaestio (questão) colocada nas frases, convertida mais tarde na abreviatura qo. Posteriormente aglutinou-se num único sinal mantendo as características da abreviatura com as respectivas curva e recta.

Mas o que verdadeiramente me perturba neste sinal é o seu envolvimento ontológico com reflexos cruciais no processo humanizante, na prescrição dos valores e comportamentos constantes nos sistemas de relacionamento. Ele é um indicativo poderoso dos grandes dramas dos povos, das incertezas, das dúvidas, dos medos que assolam as sociedades. Exprime-se nos olhos atónitos dos perseguidos, nas mãos levantadas dos desesperados, no choro aflito das crianças nas lágrimas reprimidas dos velhos. No silêncio lúgubre das dores contidas, nos gritos alucinantes dos martirizados.

PORQUÊ ? E lá está o pavoroso sinal levantado sobre o topo do mundo ! E o sinal multiplica-se como uma imagem reflectida em espelhos paralelos, inunda as planícies, transborda nos rios, encrespa os mares, subleva os ânimos dos crentes. Repercute-se nas cidades e aldeias entre escombros e desolação.

É ao mesmo tempo o sinal em quilha do nosso espanto, suspendendo o que ainda resta de ilusão, o que mantém a vida e a lucidez nos interstícios da História, nas pausas do seu percurso em espiral. Em algum momento o eixo que sustém as curvas do tempo há-de encontrar os pontos apaziguadores dum mundo convulsionado.

QUANDO? É esta a pergunta que ecoa pelos séculos. É esta a interrogação que exprime, por um lado, uma incredulidade crónica e, por outro, uma vontade de acção mobilizadora, que a palavra pode conter. À falta duma rampa de lançamento para vontades fortes e consciências esclarecidas  espera-se que ainda existam  para exemplo, os que, socorrendo-se da expressão poética, mantenham o seu pessoal ponto de interrogação que os ajude numa introspecção salvadora.

A poesia tem sido sempre um processo activo de  interagir no cenário das inquietações. É a persistente invectiva dos poetas que nos momentos do descalabro e da insídia concedem refúgio a quem procura uma fresta por onde escoar a revolta, a mágoa e a inépcia perante as forças de poderes opressores. E recordo aqui algumas vozes guardadas em livros vários de poetas da Ilha,  esquecidos em velhas e pouco frequentadas estantes. São vozes que ali se reúnem, colectadas em  significativos volumes na intenção fraterna  de apelar ao fastígio de bens maiores que certificam o género sensível da humanidade. QUEM os conhece? Estes, e outros…

Entretanto eis o que vão dizendo : «Voltámos para casa à tardinha do descontentamento/ trazíamos connosco o coração incompleto / descobrimos o esconderijo das maquinações / o segredo dos instintos obscenos / Aqui oiço tudo vejo/ mesmo o silêncio/ das muitas frases circundantes / o lento arder das coisas/ este é o lado/ onde elas ardem mais/ Atrás da minha casa/ passam animais lentos/ e deitam babas no silvado / ferem os ares com os cornos/ de osso frio e maciço/ Deixem-me dar ao nome do poeta este corpo de água/ de infusão de muitas vozes/ para que encontre todos os caminhos num único abraço/A quem desejar explico: não quis nunca ficar sentado/ devagar insisto/ serei o primeiro habitante/ da tristeza vencida/ corpo solene de solidão/ por consentir / e lembro-me como sorrio às vezes… ».

Hoje neste tempo frio de congeladas dúvidas continuamos a voltar para casa «à tardinha do descontentamento», trazendo sempre «o coração incompleto». Resta-nos, contra o desconforto da revolta, como fazia o poeta, «sorrir às vezes».

 

Setembro, 2024


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