
Com Pedro Encarnação, Romeu e Melissa Vieira (texto)
No número 77 da rua Fernão Ornelas, um quadro vivo prende a atenção, particularmente dos turistas: à entrada da loja “Bordal”, uma mulher puxa da agulha, concentrada na sua arte, ao mesmo tempo que a seus pés se abre ao público, num convite velado mas sedutor, uma bela e rica toalha de outras eras. O progresso passa mas a tradição com qualidade permanece. Uma homenagem viva ao Bordado Madeira foi a forma genial encontrada pela empresa para fazer-se anunciar no coração comercial da cidade. E que bem funciona! Madeirenses e forasteiros, ainda sem entrar na loja, perdem-se nos encantos de pontos artesanais sobre tecidos riquíssimos, mostrando que a indústria do bordado continua a singrar no mercado, porque a cada dia se recria sem perder a sua matriz identitária.
Em tempo de assinalar a Festa da Flor, a Bordal associa-se ao evento, decorando as laterais da entrada da loja com viçosas flores, numa mensagem subliminar a dizer que esta empresa caminha a par e passo com os eventos emblemáticos da Região.
Ao passar pela porta de entrada, deparamo-nos com uma escadaria tradicional, com retratos de grande dimensão, a preto e branco, a oferecer ao visitante a linguagem da memória histórica da indústria, das antigas bordadeiras da Região e algumas das máquinas utilizadas antigamente pelas próprias. Outros tempos, outras lutas feitas de linhas e dedais, numa época em que os quintais das moradias faziam sentar a mãe, as filhas e as avós para, em recato, bordar para a casa de bordados, como forma de assegurar a sua sobrevivência. Um tempo feito de silêncios e cumplicidades, sem os soundbites dos telemóveis ou das tablets. E como rendia o bordado.

No primeiro andar, é onde se situa a loja propriamente dita, a vitrine dos preciosos trabalhos bordados à mão para todos os figurinos, gostos e tendências, desde aos acessórios de mesa, às peças de roupa (de bebé e de senhora), toalhas, cortinas, lençóis, entre uma panóplia muito ampla de outros produtos com a marca Bordado Madeira, certificada pelo Governo Regional.

No segundo andar, mergulhamos na fábrica propriamente dita, algo raro hoje numa empresa que se faz acompanhar da unidade de produção nas mesmas instalações da loja. Somos conduzidos pela simpatia da Lúcia, com a sua bela blusa de Bordado Madeira, que nos convida a fazer uma viagem pelas etapas de confeção dos produtos. A primeira etapa é a do desenho sobre papel vegetal, abundando ali cerca de 60 mil esboços. Após essa etapa, do outro lado da sala, uma funcionária atenta e diligente mostra a segunda fase, a perfuragem, uma espécie de cópia que será depois passada ao tecido. Caminhamos loja adentro com os aromas de uma memória histórica, em que o cheiro a petróleo, parafina e anil nos apresentam a fase da estampagem, a passagem do desenho para o tecido, tudo num ambiente de absoluta quietude. E aqui merece especial nota a seleção dos tecidos de elevada qualidade provenientes da Bélgica, Portugal e Suíça.
Outra nota de relevo: a mão de obra é unicamente madeirense. Uma das funcionárias, na empresa há 45 anos, na secção da estampagem, mostrava o sorriso pronto com evidente gosto pelo trabalho, como se fossem flores no meio de flores.


No terceiro e último andar, defrontamo-nos com uma exposição com trabalhos da conceituada estilista Nini Andrade, onde está exposta uma toalha que demorou um ano e meio a ser finalizada, mas também trabalhos expostos em vitrines para a prestigiada marca Chanel e para os filhos da princesa inglesa de York. Parcerias que têm permitido alavancar o negócio, internacionalizá-lo e alimentar a chama de um setor importante para a Madeira.
A finalizar as etapas de produção, com bordados feitos por bordadeiras de casa, as peças são cortadas de acordo com o desenho original, depois lavadas à mão nos antigos tanques e, ainda húmidos, são engomadas ao verso do tecido, sendo tudo isto feito à mão e à medida. Necessitam depois do selo de qualidade do IBVAM para garantir a qualidade genuína do produto como Bordado Madeira.


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