Preservação da freira da Madeira é um trabalho hercúleo: Considerada extinta na década de 60 tem atualmente 65 a 80 casais

Acção de formação terminou com uma visita de campo ao maçico montanhoso oriental (Pico do Areeiro). Fotos Funchal Notícias.

No maciço montanhoso oriental da Madeira (a mais de 1.400 metros de altitude) há um trabalho hercúleo que se desenvolve há décadas. Os vigilantes da natureza e demais técnicos do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza (IFCN) preservam uma espécie endémica que na década de 60 foi considerada extinta: a freira da Madeira.

As freiras (a da Madeira e a do Bugio) são aves marinhas pelágicas (vão ao mar alto), endémicas da Madeira. A Freira da Madeira tem, atualmente, 65 a 80 casais, com área de nidificação restrita ao maciço montanhoso oriental (entre os Picos do Areeiro e Ruivo).

Já a Freira do Bugio nidifica no planalto sul da ilha do Bugio (Desertas) e a população atual é de cerca de 160 a 180 casais.

Para preservar estas espécies está a decorrer um projeto de conservação “LIFE Freiras”, co-financiado pela Comissão Europeia. Ao longo de todo o ano, mas especialmente no período de reprodução, os vigilantes da natureza monitorizam os ninhos construídos em escarpas íngremes.

A ideia é criar habitats ideais de nidificação, resilientes às alterações climáticas, aos incêndios (daí o controle de invasoras como a giesta) e às ameaças de predadores como ratos ou gatos. A poluição luminosa nas zonas costeiras é outra das ameaças.

Para informar/formar/sensibilizar para esta problemática, o IFCN promoveu esta semana uma ação de formação que envolveu dezenas de professores das escolas da Levada (Ângelo Augusto da Silva), Carmo (Maurílio Dantas) e Galeão (Dr. Edurado Brazão de Castro).

Nélio Jardim, Isabel Freitas, Marta Nunes, Cristina Medeiros, Cátia Gouveia e Carlos Lobo explicaram tudo o que havia para explicar sobre a temática. Por exemplo, o facto de 2/3 da ilha da Madeira ser parque natural, o facto da laurissilva ocupar cerca de 20% da ilha; o facto de 8 levadas ou troços de levadas (dos mais de 3.100 km espalhados pela ilha) serm candidatos a património mundial da UNESCO.

Também se falou das Reservas Naturais (integrais e parciais, terrestres e marinhas); de cagarras, gaivotas, garajaus, almas-negras, roques de castro, corre-caminhos, tarântulas, osgas, lagartixas, patagarros, calcamares, pintaínhos; dos lobos marinhos das Desertas e das cerca de 200 espécies de plantas que lá existem.

Falou-se ainda da diferença entre espécies vegetais exóticas e nativas/indígenas/autóctones; das 166 espécies e sub-espécies endémicas da Madeira, 50 delas no maçico montanhoso oriental; do urzal (de transição e urze molar); do cedro, de sorveiras, massarocos, estreleiras, ranunculos, erva-coelho, violetas, perpétua branca, aipo do gado. Da vegetação rupícola de altitude; do goivo da serra, cravo de burro, azedas, orquídea da serra, arméria da Madeira, ensaião e erva-arroz.

Foi também importante para clarificar conceitos sobre a Rede Natura 2000 e as suas duas variantes: Directiva Aves [Zonas de Protecção Especiais(ZPE)] e Directiva Habitats [Zonas Especiais de Conservação(ZEC)]. Também se falou dos Sítios de Importância Comunitária (SIC) que precisam de 6 anos para passarem a Zonas Especiais de Conservação. Por exemplo, existe na Madeira um SIC, denominado SIC Cetâceos, correspondendo a cerca de 682 mil hectares de área e até 2500 metros de profundidade à volta das ilhas da Madeira e Porto Santo.

Ao todo a Região tem 4 ZPE, 11 ZEC e 8 SIC. A Região tem, ainda, 15 monumentos naturais.

Quais são as ameaças a tudo isto? No passado foi a recolha de madeira e a pastorícia. Hoje são os incêndios, as alterações climáticas, a introdução de espécies exóticas como a giesta, a carqueja, as acácias, ácer, abundância, árvore-do-céu, cana-vieira, intrometidas, brincos de princesa, bananilha, novelos, coroas de henrique, tabaibeira, maracujã de banana, incenseiro, tabaqueira, penacho, etc. (plantas invasoras). A lista é infinita e, ao todo, estão identificadas 341 espécies de plantas invasoras.

Para as espécies animais, as grandes ameaças são os coleccionadores de ovos, os ratos e gatos, as cabras, ovelhas e coelhos, os incêndios, a pressão humana (turismo de montanha), a poluição luminosa e a ignorância dos sítios de nidificação.

Por exemplo, estima-se que na Macaronésia, cerca de 110 aves morram vítimas de poluição luminosa, pelo que é importante promover planos diretores de iluminação pública. À noite, é também importante respeitar os habitats das borboletas noturnas. Aliás, estima-se que existam cerca de 170 espécies de borboletas noturnas na Macaronésia.


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