Diálogos poéticos (imaginados) entre Irene Lucília Andrade e Umberto Eco: diário de bordo

“Tal como se podia avistar entre os reflexos do mar uma ilha que não havia, do mesmo modo se podia confundir duas ilhas que existiam e não encontrar nunca aquela a que se queria chegar. Eis como se perdem as ilhas. E eis porque não se encontram nunca. Como dizia Plínio (II,96), certas ilhas flutuam sempre” (1)

Notas da ínsula (onde se discorre sobre ilhas, as oceânicas, porque das outras nascerão outros textos)

A peculiar geografia das ilhas – pedaços de terra rodeados de água – constitui fonte de inspiração literária desde tempos imemoriais. A descontinuidade física, a distância e o isolamento têm suscitado uma assinalável profusão de registos. Nathalie Bernardie-Tahir et François Taglioni (2005) evocaram o estatuto das ilhas referindo-se-lhes através das expressões “mundos em miniatura ou mundos à parte”. Essas características são as que deram origem à noção de insularidade, tendo Philipe Pelletier (2005) empregue o termo “finitude” para aludir a estes espaços “limitados”. Assim sendo, desenvolveram-se múltiplas áreas de estudo relacionadas com a especificidade das ilhas, ora analisando a sua singularidade, ora procedendo a ensaios comparatistas com o designado “espaço-mundo” que as rodeia e/ou do qual possam depender política e administrativamente. A par das áreas científicas que se dedicam ao estudo dos espaços insulares, nascia a Nissologia/Nesologia/Nessologia (do grego nissos – ilha) cuja designação não reúne consenso. Às ilhas, à insularidade e à ilheidade (Moles, 1982), aportam Ciências sociais e humanas, entre as quais a Geografia. Segundo Pelletier (2005), as ilhas constituem um “bom objecto geográfico”. Num artigo intitulado “Vivre dans l’île – une approche de l’îléité océanienne” (2), Joël Bonnemaison refere que “A insularidade é o isolamento. A ilheidade é a ruptura; um elo quebrado com o resto do mundo, logo um espaço fora do espaço, um lugar fora do tempo, um lugar nu, um laço absoluto (…). A ilha é habitável na medida em que não é nem um centro, nem uma periferia, mas o elemento de um percurso que a reúne com o mundo” (trad.minha). Este conceito, próximo do de “identidade insular” (Brunet et al., in Dans les Mots de la géographie,1992), ou definidor do mesmo, contribuiu para a construção do que se designa como o “imaginário das ilhas”, o seu encantamento e o desenvolvimento das mais variadas expressões oníricas da descoberta, ligadas aos espaços insulares. Exotismo, apelo à evasão, experiência do Outro, as ilhas configuram a projecção de uma vivência feliz e de uma realização pessoal garantida, ideias ou sentimentos que podem contrastar com os dos habitantes desses espaços. No texto já citado, Bonnemaison refere, ainda, que “a ilheidade participa (…) no universo da representação e da metáfora (…). A ilha (…) ultrapassa, com efeito, a medida da sua singularidade física. Há uma simbologia da ilha que remete para um arquétipo ideal, variável segundo as civilizações e até mesmo segundo os indivíduos. Chamemos ilheidade a este arquétipo. Não há, com certeza, um arquétipo universal de ilha. Aqueles que nelas vivem não têm os mesmos critérios que aqueles que sonham com elas ou que vendem a sua imagem” (trad. minha).

Do ponto de vista político-administrativo, algumas ilhas (isoladas ou arquipelágicas) são Estados (p. ex. Malta e Cabo Verde), outras são regiões autónomas (p. ex. Madeira e Açores, em Portugal, Ahvenamaa, na Finlândia ou Canárias, em Espanha). No entanto, há diversas formas de administração própria ou de vínculos com os Estados dos quais dependem. Este distanciamentorelativamente aos Estados dos quais fazem parte, política e administrativamente, contribuiu para a definição do conceito de ultraperiferia que, no quadro da União Europeia, designa um conjunto de nove zonas insulares distantes do continente europeu: Saint-Martin (uma “colectividade do ultramar” – COM), Martinique, Guadeloupe, Guyane, Réunion e Mayotte (quatro departamentos e “regiões do ultramar” franceses – DROM), a comunidade autónoma das ilhas Canarias (Espanha) e as regiões autónomas portuguesas, Madeira e Açores. Este estatuto, inscrito no “Tratado sobre o funcionamento da União Europeia”, permite que os constrangimentos inerentes à condição insular sejam atenuados e tendam, apesar do contexto difícil da globalização, a “esbater-se” (Bernadie-Tahir e Taglioni, 2005). Deste modo, foi valorizado (o que não quer necessariamente dizer que tem sido devidamente “aproveitado”) o seu posicionamento geoestratégico tendo em conta a extensão do território marítimo, o que contribui para que a União europeia detenha, actualmente, a mais vasta Zona Económica Exclusiva (ZEE). Conceitos como acessibilidade, coesão e subsidiariedade, passaram a fazer parte de um “jargão” político europeu e nacional. Numa recente entrevista (3), um dos mais proeminentes especialistas mundiais dos estudos acerca das ilhas, Godfrey Baldacchino (4) coloca em evidência uma dimensão da maior relevância para o planeta e que respeita às ilhas: “o seu contributo para a luta contra as alterações climáticas, a luta pela sustentabilidade e as muitas iniciativas que as pessoas desenvolvem para reduzir a sua pegada de carbono, propondo e colocando em prática ecossistemas, sistemas económicos que causam menos danos ao meio ambiente. As ilhas são muitas vezes usadas para mostrar que isso é possível” (trad. minha). Ao longo da entrevista, Baldacchino desenvolve a ideia segundo a qual as ilhas assumem, cada vez mais, para além da sua importância geopolítica, uma relevância geoeconómica.

Poiesis em diálogo (uma interacção imaginada)

Irene Lucília Andrade, poetisa portuguesa, nascida na ilha da Madeira, tem inscrito nos seus textos poéticos ou de prosa poética o “arquétipo” insular a que alude Bonnemaison. Num texto, publicado em parte (4),em 2019, Irene Lucília refere que “A ilha é assim. Ainda que se traga mais perto os anseios de uma Europa unida epróspera, por mais que as vozes se levantem no melhor sentido do bem e do confortopara todos, o esforço deste ilhéu para vencer o desconforto do abismo, é uma marcade heroísmo que lhe confere uma especial dignidade e o merecimento do respeitoque o mundo lhe deve”. As dimensões de superação das adversidades, físicas e emocionais, que a ilha coloca aos seus habitantes e que a poetisa designa como “desconforto do abismo” representam uma das linhas temáticas mais frequentes não só na sua poesia, mas nos escritos acerca das ilhas, em geral. Os habitantes das ilhas, detentores dos segredos ancestrais da terra e dos oceanos, são – desse modo – caracterizados como seres especiais: “O ilhéu serrano é um homem silencioso. O seu silêncio é a expressão da força telúrica

que os penedos escondem no interior das ravinas. A Ilha, alguns entendem-na comouma tramacomplexa onde se submergem entre o mais fundo dos precipícios e adensidade dos magmas, as subtilezas da alma humana. De tal modo se dilui quepoucos dão por ela. A maior parte não reconhece a verdade arrojada desta existênciavelada. A alma dos ilhéus profundos é um fogo discreto que se revolve e sobressalta naagitação oculta das pedras. Contorce-se na ânsia incontida duma nesga de espaço. Asua resistência projecta-se com um vigor desusado sobre qualquer território doplaneta. Se sai à procura dum mais largo horizonte é porque sente dentro de si umaespécie de nascente copiosa que não se resigna com a estreiteza dos vales por lhe

travar a extensão dos caudais.Este apelo insular é comum à maior parte dos que saem, um fenómeno intrínseco ànatureza dos mais sensíveis que são, afinal muitos, quase todos. Desde o homem docampo ao habitante da urbe, são conhecidas as experiências dos que, dum modo oude outro, têm histórias de viagem para contar. A aventura da procura, odeslumbramento e o desencanto, a luta e a aflição do desfasamento que mói dia a diae acicata a saudade”.

Não sei se Bonnemaison terá lido a poesia de Irene Lucília Andrade ou se conhece a portuguesa “saudade” que da viagem se enunciou “ilheidade” e deixou, na Laurissilva, as réstias de lamentos nostálgicos dos primeiros povoadores.

Umberto Eco, no texto de onde emana a epígrafe deste, refere-se às ilhas e à sua cartografia assim: “esta ideia de ilha (…) obriga-nos a pensar no modo como, antes de ser resolvido o problema das longitudes, para reconhecer as ilhas, se recorria aos desenhos dos seus perfis, como tinham sido vistos a primeira vez”. Irene Lucília retorque: “Na verdade, a superfície, a configuração, a densidade da ilha, não serão apenasaquelas que se registam nos mapas e nas edições geográficas, mas as que seauscultam na enorme e oculta extensão que permanece desconhecida e se prolongapelos poros e grutas das montanhas, pela ruga de cada socalco, barranco ou vereda,sob tectos de silêncio e ansiedade, até ao ponto mais recôndito dos olhos das mulherese dos homens, e do mais alto pinheiro antes do céu”. O diálogo entre escritores prossegue porque Umberto Eco, “concordando” com Irene Lucília, afirma: “Até porque o perfil de uma ilha muda com a cor do céu, a bruma, a hora do dia e talvez até mesmo a doce estação que muda a consistência das massas arbóreas.” A Academia refuta, com fundados argumentos, que estas questões sejam específicas das ilhas, alegando que tudo o que os escritores aqui citados defendem poderia descrever outros espaços não-insulares. Natureza, mar e serra, abismo e solidão, heroísmo e resiliência, brumas e mistério. Irene Lucília Andrade: “Dum lado a montanha que amedronta e domina; do outro, omar que reprime e submerge. Entre estes dois atavismos se define o dilema destehomem insular. Ir ou ficar. Partir ou manter intacto o elo”. A poetisa rebate com o segredo menos bem guardado do ilhéu: o de estar circundado por águas com a profundidade do desejo da viagem, com a certeza do “elo” que não explica, mas que exerce uma força centrípeta, misteriosa e arrebatadora. O “eu” fragmentado do ilhéu, reflexo emocional da geografia do seu habitat, enuncia a alquimia transfigurativa da “ilheidade”. Esta dimensão pode justificar a razão pela qual (quase) todas as narrativas utópicas situam as sociedades ideais, felizes e perfeitas em ilhas.

“Dizia-se que os habitantes das ilhas da Madeira, de Palma, de Gomera e de Ferro, enganados pelas nuvens, ou pelos espectros da Fada Morgana, acreditavam, por vezes, avistar a insula perdita da parte do ocidente, fugidia entre a água e o céu” (Umberto Eco, op. citada). Não se sabe se os ilhéus também sonham com outras ilhas (o turismo garantiria que sim) mas Irene Lucília, “condescendendo”, deixa a Eco uma elegia sentida e melancólica que o emociona e atrai: “De tal modo se dilui quepoucos dão por ela. A maior parte não reconhece a verdade arrojada desta existênciavelada. A alma dos ilhéus profundos é um fogo discreto que se revolve e sobressalta naagitação oculta das pedras. Contorce-se na ânsia incontida duma nesga de espaço. Asua resistência projecta-se com um vigor desusado sobre qualquer território doplaneta. Se sai à procura dum mais largo horizonte é porque sente dentro de si umaespécie de nascente copiosa que não se resigna com a estreiteza dos vales por lhetravar a extensão dos caudais”.

Fragmentos de um diário de bordo

O NRP/NE “Sagres” acabara de aconchegar-se no porto do Funchal. Esta paragem, no quadro da missão do navio, levá-lo-á, subsequentemente, ao Brasil onde marcará presença nas comemorações da independência do país. As velas ostentam a Cruz de Cristo e a proa é “comandada” pelo Infante D. Henrique. No seu diário de bordo, regista – milimetricamente – as indicações da latitude e da longitude, da profundidade do mar e da velocidade do vento. Entro no barco com a certeza de visitar uma ilha, uma outra ilha, chamada “Portugal”, que nos representa, “nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo” (lê-se no folheto distribuído). Na sua narrativa de viagem, regista o número de visitantes, em geral, e os ilustres, em particular. Esta ilha, é das que “flutuam sempre” (Eco) e que, das chegadas e das partidas, exerce o arquétipo insular como modus vivendi.

No texto de Irene Lucília Andrade, a que aludi, a autora cita um outro poeta português, nascido na Madeira, José Agostinho Baptista(em Pontos Luminosos – Açores e Madeira, 2006):

“Tudo acaba na sedução das cadeiras,

das páginas onde soletramos um sonho atlântico,

o ancoradouro que nos prende:

ainda que o digas não partirei –

conheço a nostalgia que vive para sempre no coração da

Infância e dos barcos”.

Ao abandonar o NRP/NE “Sagres”, experimentei a certeza da insula e a nostalgia de outras partidas e de outros regressos. Os ilhéus, somos feitos do mar e do seu sal, das suas marés e do encantamento da Lua. Os ilhéus, somos os calhaus rolados que se deixam inebriar pela poderosa energia das ondas, ora embalando, ora forçando à edificação do lugar.

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(1)Umberto Eco, in Construir o inimigo e outros escritos ocasionais, “Porque a ilha nunca é encontrada”, Gradiva.

(2)  Artigo publicado na revista “L’espace géographique” (1990).

(3) https://www.enainstitute.org/en/publication/islands-beyond-tourism-interview-with-godfrey-baldacchino/

(4) https://www.enainstitute.org/en/publication/islands-beyond-tourism-interview-with-godfrey-baldacchino/

(5) https://funchalnoticias.net/2019/05/18/os-gigantes/(esta publicação corresponde a parte do texto inicial aqui citado).