Os Gigantes

Anda a Europa afadigada em eleger os seus representantes, afim de que, por eles, se instaure em cada país, a felicidade. Esta é a realidade que move, através de metáforas e altas retóricas, o fervor lírico com que cada um se arroga a ser o melhor, o mais eficaz e mais seguro.

Por mim, com a humildade com que geralmente olho para o sol desta ilha, para os seus nevoeiros, abismos e vertentes, para as ladeiras que conduzem as casas até ao infinito e as serras  que traçam uma ténue fronteira entre a terra e o universo, estou disposta a consumir-me na vida avassaladora doutras emoções. Então entro, voluntariosa e absoluta, no trilho estreito da Levada Nova, pelo lado dos Maroços e sigo na direção do Vale das Mimosas. São seis quilómetros e meio até ao túnel do Caniçal. Contudo os pés não se atrevem a tanta distância, que o corpo já não prescreve essa audácia. Só os olhos. Os olhos ,como se fossem assas, galgam durante meia hora  a imensa onda da floresta e o grandioso socalco que, serra fora, oferece alcandorados caminhos onde raras casas se aninham, onde os homens e as mulheres tecem a vida de rotinas difíceis e de pacíficas resignações… Apesar da agrura da rocha, dos invernos frios e dos ofuscantes nevoeiros.

Paro, atónita…e emociono-me até aos ossos. Esta terra é linda, dizem-me de fora os que passam  com pressa e alardeiam a vontade de erguer aqui sonhos de riqueza e rendíveis projectos de subsistência. Mas este é o lugar e o momento em que me rendo apenas ao gigantismo desta paisagem ciclópica e humana, porque nela os homens criaram modos próprios e processos engenhosos de agregar a montanha às suas vidas, sem destruir o que a natureza lhes oferece de genuino, aqui, onde o sentido estético é gémeo do instinto, para preservar a ética do milagre quotidiano. Viver neste lugar é realizar dia a dia uma forma de resistência contra a morte que a todo o momento afronta os que sobem e descem os degraus encravados na encosta, a uma altura inacreditável sobre o abismo.

Há um homem novo que sai  agora duma casa escondida entre trepadeiras junto à estrada lançada no fundo do vale e sobe a longa escada com uma corda na mão e uma foice ao ombro. É o ícone perfeito do camponês destas serras que desaparece por fim, lá no alto, onde a montanha toca o céu, porque o gado, abrigado algures, marca a hora da ração. Espanto-me depois ao surpreender  o vulto duma velha mulher, sustendo na mão um pequeno saco, a galgar vagarosa e penosamente a mesma escada. Esta mulher carrega, por sua vez, a ração que mitigará a sua própria fome.

Fico a vê-los, de longe, não sei que pensamentos lhes assistem, neste cumprimento diário da sua particular via-sacra. Pressinto no entanto que, apesar de tudo, há  uma mansidão e uma complacência neste acto diário, que fazem deles verdadeiros gigantes, heróis  duma existência ignorada, impensável para quem desconhece a geografia sofrida desta ilha paradisíaca, onde o paraíso se traduz pelo conflito bíblico da sobrevivência.

A ilha é assim. Ainda que se traga mais perto os anseios duma Europa unida e próspera, por mais que as vozes se levantem no melhor sentido do bem e do conforto para todos, o esforço do ilhéu para vencer o desconforto do abismo, é uma marca de heroísmo que lhe confere uma especial dignidade e o merecimento do respeito  que o mundo lhe deve.

O ilhéu é um homem silencioso. O seu silêncio é a expressão  da força telúrica que os penedos escondem no interior das ravinas. A Ilha, alguns  entendem-na como uma trama complexa onde se submergem entre o mais fundo dos precipícios e a densidade dos magmas, as subtilezas da alma humana. De tal modo se dilui que poucos dão por ela. A maior parte não reconhece a verdade arrojada desta existência velada. A alma dos ilhéus profundos é um fogo discreto que se revolve e sobressalta na agitação oculta das pedras. Contorce-se na ânsia incontida duma nesga de espaço.

É a sábia adaptação a este espaço que distingue a serra pela grandeza da sua humanização e os  humanos pelas características particulares do seu gigantismo.

Na Levada Nova dos Maroços  a água passa límpida e serena, tão serena como o silêncio heroico do camponês que confia ao perigoso abraço da serra a humilde ousadia  dos seus passos.


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