E a Capela de São Paulo?

– Hoje é dia de São Pedro!

– E também de São Paulo!

– A propósito, como se encontra a Capela de São Paulo, ali na parte de cima da Rua da Carreira?

– Jaz morta e apodrece, parafraseando Fernando Pessoa, no ‘Menino da sua mãe’.

– Mas não tinham prometido a sua recuperação?

– Sim, há muitos anos. Miguel Albuquerque prometeu a recuperação integral daquele núcleo arquitectónico, em Abril de 1996, era então presidente da Câmara Municipal do Funchal. A Capela foi encerrada em 2014, por razões de segurança. O CDS, quando estava solteiro, ainda falou da situação deste imóvel classificado. Foi em Setembro de 2015. Presentemente já não se interessa pela Capela. Tem outras capelinhas ou, como afirmou recentemente, o impagável Lopes da Fonseca, uma «coisa é estar na oposição e ter ideias, outra é fazer parte do Governo e ter responsabilidades».

Fotos Rui Marote, Junho de 2022

– Não me faças rir. Parece que, filosoficamente, quem tem responsabilidades não pode ter ideias e quem possui ideias está isento de responsabilidades.

– Pois, é hilariante, como de resto outros devaneios parlamentares.

– Mas mais ninguém se interessou pela Capela fundada no tempo de João Gonçalves Zarco e que foi a primeira sede da freguesia de São Pedro?

– Claro que sim. A defunta ou agonizante Comissão dos Seiscentos Anos do ‘Descobrimento’ do Porto Santo e da Madeira incluiu a Capela de São Paulo no seu rol de intenções, mas, como a Secretaria do Turismo e Cultura não realizou o restauro, aquela Comissão não se pôde atrelar.

– Entendi. E essa Secretaria o que fez pela Capela?

– Que se visse, até hoje, nada que tivesse passado do papel para o terreno. Parece, no entanto, que pretende o restauro. A anterior secretária regional, a engenheira agrónoma Paula Cabaço, afirmou, em Setembro de 2018, que esperava realizar essa obra em 2019 e 2020. Entretanto, esta senhora foi colocada na presidência do Conselho de Administração dos Portos da Região Autónoma da Madeira, em Novembro de 2019, na sequência da formação do XIII Governo Regional, para o qual não foi escolhida.

– Pelos vistos, nada fez pela Capela. Por falta de dinheiro?

– Não me parece ter sido por causa de verbas. O projecto da recuperação da Capela de São Paulo estava inscrito no Plano e Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Região Autónoma da Madeira [PIDDAR] de 2019 e no de 2020. Tinha programação financeira plurianual, 2019-2021, sendo o financiamento comunitário no valor de 330 774,00 euros. Continua no PIDDAR de 2022, nomeadamente o lançamento da empreitada de recuperação da Capela de São Paulo e a elaboração da proposta e caderno de encargos para a intervenção de conservação e restauro.

– Então, nada ainda foi feito. E o actual secretário não se preocupa com o estado da Capela de São Paulo?

– Bem, ele afirmou na Assembleia Legislativa da Madeira, em 16 de Dezembro de 2020, que as obras de recuperação da Capela de São Paulo deveriam começar no ano seguinte. Depois deste compromisso, nunca mais ouvi ou li palavras suas sobre a Capela, apesar de a imprensa publicar abundantes e longos textos, julgo que da autoria dos seus assessores, sobre intervenções, feitas ou a fazer, no Património Arquitectónico da Região.

– Nem sei o que diga, nem o que possa concluir. E qual é a posição da Direcção Regional de Cultura [DRC] face à degradação da Capela?

–  Pouco se sabe. Em 21 de Abril de 2021, o Diário de Notícias afirmava que a DRC preparava a recuperação da Capela de São Paulo, adiantando que já se encontrava, em fase de contratação pública, o projecto de execução – arquitectura e especialidades – com o intuito de restaurar o imóvel histórico.

– Este imbróglio faz-me lembrar a história de uma mulher que queria ser pasteleira. Confeccionava bolos há anos, segundo dizia. Certo é que ninguém os via sair do forno. Muito menos os provava.

– Também há quem diga, mas nem quero acreditar, que as obras não arrancam com receio da vizinhança. Adossado à Capela está o edifício, onde funcionou o primeiro hospital da Madeira. Há mais de trinta anos apresenta-se com aquele deplorável estado de ruína, em parte devido à construção da via da cota 40.

–  Ora essa, então o património religioso vai ser sacrificado por causa dos humores do lado, ainda por cima arruinado? Onde é que já se viu uma coisa destas?

– Isto parece acontecer na nossa terra. Há uns que se acham donos de tudo.

– Até de ruínas da Igreja?

– De tudo, mesmo. Porém para não se fazer mau juízo da DRC quanto a esta matéria, o melhor é dizer como São Paulo, mutatis mutandis: «não é o que eu quero aquilo que pratico; mas aquilo que odeio é o que faço. […] Pois o querer está ao meu alcance; realizar o bem é que não. Não é o bem que quero que faço, mas o mal que não quero – é esse que pratico.» (Rm 7,15.18-19)

– Mais simples seria dizeres que de promessas e boas intenções está o inferno cheio, enquanto a Capela de São Paulo, imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, está cada vez mais arruinada, e parece faltar vontade política para a sua recuperação, bem como do edifício onde esteve instalado o primeiro hospital da ilha.

– Infelizmente, é o que temos. O estado a que chegou não se deve, por certo, à falta de apelos para o restauro da Capela. Até se pensava que o novo presidente da Junta de Freguesia de São Pedro se interessaria pelo Património Arquitectónico do seu território. Mas, por agora e publicamente, nada se pode registar da acção da autarquia perante a ruína da Capela de São Paulo, que também se chamou de São Pedro e foi a primeira sede desta freguesia.

(Reprodução da conversa entre dois amigos no Refúgio do Fala-Só)