Rui Barreto: CDS é “direita anti-populista” que deve fazer coligação pré-eleitoral com o PSD-M

Antes do início do XVIII Congresso do CDS-M, que se realiza este fim-de-semana, o FN trocou algumas impressões com Rui Barreto, sobre a natureza do projecto que apresenta perante os militantes, e a sua visão sobre um partido que já no decurso dos encontros que manteve com as bases considerou “intergeracional, interclassista (…) democrata cristão”, “liberal na economia e que preserva as tradições”. Defende uma coligação pré-eleitoral com o PSD-M e diz que o CDS afirmou-se, “e bem”, no Executivo. A nível nacional, apoia Nuno Melo.

Funchal Notícias: A sua moção de estratégia, que apresenta ao XVIII Congresso do CDS, intitula-se “A Direita da Madeira”. Em seu entender, onde se situa hoje em dia a direita no espectro político e que valores defende? Entende que a mesma é por natureza conservadora e tradicionalista, ou tem por dever renovar-se?

Rui Barreto – A nossa direita não é imutável e muito menos é tradicionalista, que é diferente de ser conservadora. A direita representada pelo CDS é uma direita liberal na economia e mais conservadora nos costumes. É uma direita personalista, ou seja, assente no primado da pessoa e assente, também, nos valores da democracia cristã. Renova-se e procura responder aos problemas novos com respostas novas e concretas, sem acreditar em utopias passadistas ou futuristas. É uma direita anti-populista e que não embarca necessariamente em modas, sejam elas liberais ou outras que tais. É uma direita de equilíbrios e de moderação.

FN – A moção ultrapassa o número necessário mas, mesmo assim, reflecte o apoio de apenas 250 militantes. Não deveria o CDS ter hoje em dia uma mais ampla mobilização e massa crítica, dada sua presença no governo e a importância que lhe diz ser atribuída na política regional?

RB – Tenho dificuldade em entender a pergunta. Por um lado, diz que a moção tem mais assinaturas do que o necessário, mas, por outro, diz que deveria ter mais. A moção foi subscrita por um número de militantes que me parece absolutamente razoável e, como bem refere, acima do necessário.

 FN- O CDS diz-se garante de estabilidade. Há por outro lado quem o acuse de ser “bengala” dos social-democratas, cuja ideologia, de resto, não partilha totalmente. Mas são muitos actualmente os elogios feitos pelo CDS ao Governo Regional, tantos quantas eram antes as críticas. Como comenta? 

RB– O CDS é garante de estabilidade, sendo essencial a uma maioria absoluta que, a pandemia e a atual crise que a guerra no leste da Europa trouxeram, já provou ser necessária. Não entendo a questão da bengala. Na esmagadora maioria dos países europeus, os governos são de coligação e ninguém é bengala de ninguém. Os integrantes das coligações negoceiam, como nós fazemos, acertam posições, como nós fazemos, defendem um projeto comum, que é aquilo que fazemos.

FN – Como comenta a saída de vários militantes, paulatinamente, nos últimos tempos?

RB- O CDS-M tem registado mais entradas do que saídas…

FN – Que novos modelos se propõe introduzir na governação, conforme referido? 

RB – Defendemos, agora e sempre, um modelo apoiado no mérito, na iniciativa privada, na liberdade de escolha. É fundamental não esquecermos que governo teve de lidar com situações de emergência como nenhum outro na história da autonomia. A emergência pandémica obrigou o Governo a concentrar energias, primeiro, na salvaguarda da saúde pública e depois, na salvaguarda de empregos através do apoio às empresas. Em apenas um ano, a Madeira perdeu o equivalente a 15% do seu PIB mas mesmo assim, hoje, no dia em que falo consigo, temos o numero mais baixo de desempregados das ultimas décadas, temos mais empresas a ser criadas do que a ser encerradas, temos uma procura turística ímpar, ou seja, o trabalho, feito em condições muito, muito complexas, foi bem feito. Este foi um governo de emergência, obrigou à adoção de situações de recurso, a respostas urgentes. Entendo que algumas críticas possam ser feitas, mas recuso totalmente a critica de que o CDS não se afirmou no Executivo. Afirmou-se a afirmou-se bem. Pura e simplesmente, seria uma absoluta irresponsabilidade, no meio de uma crise sem precedentes, andar em bicos de pés a dizer que a ideia “a”, “b” ou ”c” era do CDS e que o CDS queria mais isto ou mais aquilo. Se querem alguém que faça esse papel, não serei eu certamente, até porque – e assumo isto claramente – mais importante do que o bem dos partidos é o bem comum.

FN – Sente-se legitimado sem sombra para dúvida como líder do CDS-M? Tendo em vista, aliás, que não tem adversários? 

RB – Qualquer líder eleito em Congresso tem legitimidade.

FN – Isso [a não existência de adversários] é saudável para a saúde de um partido, que se quer diversificado e plural, ou antes reflecte um consenso, uma estabilidade?

RB- Qualquer militante do CDS-M pode apresentar uma candidatura à liderança do partido.

FN –  Qual poderá ser o futuro do CDS-M? E a nível nacional, já agora? 

RB – O CDS-Madeira era visto como um partido que fazia uma oposição assertiva e competente. Hoje, passou também a ser visto como um partido capaz de governar. Vem-se assumindo no Governo com mérito e competência. Quanto ao futuro, se falarmos no futuro mais próximo, defendo agora uma coligação pré-eleitoral com o PSD-M, porque dois partidos que conseguiram entender-se na situação atrás descrita, merecem a oportunidade de implementar os seus programas, mais livres de amarras resultantes da pandemia e, esperemos nós, da guerra. Não se entenderia muito bem, e ambos ficaríamos a perder, se daqui a um ano andássemos a disparar um contra o outro. Quanto ao futuro mais distante, estou plenamente convencido de que o CDS será sempre, na Madeira, um ponto de equilíbrio e de moderação e isso será reconhecido pelos eleitores. Quanto ao CDS nacional, a situação é, de facto, complexa e exige que, nesta fase, todos entendam que o inimigo está lá fora e não no interior. Teremos de voltar a ser claros nas ideias que defendemos e assertivos a comunicá-las e necessitamos que os nossos melhores estejam disponíveis. Estou convencido de que o Nuno Melo é o homem certo para dar a volta ao texto.