Já é oficial! A Pandemia emigrou para Plutão!

Em entrevista concedida a um canal televisivo, Pedro Simas, conhecido e mediático virologista, veio publicamente decretar que “Já não há pandemia.”, mais acrescentando que, neste momento, há uma “estabilidade de infeção muito grande”, contrariamente ao parecer da esmagadora maioria dos especialistas que levantam a possibilidade de Portugal já ter entrado na 5.ª vaga da pandemia, considerando absolutamente necessário reforçar algumas medidas, designadamente o uso obrigatório da máscara e o distanciamento.

Depois de ouvir Pedro Simas, não pude evitar lembrar-me de uma situação parecida! Refiro-me à anedótica circunstância de um certo indivíduo que ouviu no rádio do carro que ia um condutor em sentido contrário na autoestrada. Para seu espanto, quando olhou, deu conta de que não era só um. Então não é que iam todos em sentido contrário!!!

Ou seja, para Simas, “iluminado” especialista, com esdrúxulos dotes de condução de pensamento em contramão, já se pode começar o foguetório, ou melhor, incentivar os que já o praticam a espalharem a boa nova, a multiplicar arraiais, a estimular a bandalheira que sabe (se não sabe, deveria saber) que vai despertar em muitos já de si praticantes ou “em pulgas” para o efeito.

Para a esmagadora maioria dos especialistas, é líquido que temos das mais altas taxas de cobertura vacinal, o que implica que a taxa de transmissão é menor, acompanhada de formas menos graves da doença e da mortalidade. No entanto, Pedro Simas e demais profetas, sobretudo os negacionistas, fanáticos das teorias de conspiração ou de estrambólicas teses que tais, como a da “vacina placebo” ou da “vacina de efeito psicológico”, seguramente vivem, já não diria noutro planeta, mas, seguramente, noutra galáxia. Quem sabe se não é essa a prova de que há, de facto, alienígenas entre nós. Eu, que sempre fui um cético no que toca a extraterrestres a passear na Fernão de Ornelas, já começo a debater-me com sérias dúvidas.

Obviamente que, apesar do galopante aumento do número de casos, a proporção e a gravidade não têm, de todo, comparação, em termos de formas graves, de hospitalização a que assistimos no passado. Até aí poderia Pedro Simas ir, sem prejuízo da verdade. Agora, daí até proclamar ou “decretar” o fim da pandemia só me leva a pensar que o dito virologista tem andado a ter aulas “online” sobre “Resfriadinho” com o grande Mestre especialista Bolsonaro.

De acordo com a Pneumologista Raquel Duarte, “este aumento exponencial de casos deve ser travado” porque, mesmo com a “almofada” da vacina “pode vir a traduzir, se não for travado, um peso no aumento das formas graves de covid-19, o que pode colocar em causa a nossa capacidade de resposta”. Segundo os especialistas que marcham no mesmo passo (esquerdo/direito, exatamente contrário ao do virologista Pedro Simas, direito/esquerdo), o travão para conter o vírus está muito substancialmente pendente do comportamento individual, podendo mesmo ser reforçado com o regresso de algumas medidas, sendo que o facto de algumas poderem ter de vir a ser impostas estará inevitavelmente pendente do maior ou menor grau de sucesso da “travagem” nos tempos mais próximos. Inevitável, igualmente, é que a intensidade da “travagem” vá sendo cada vez mais forte, de acordo com a resposta (ou falta dela) que se vá gradualmente obtendo. É muito provável, pois, a introdução de medidas de mitigação, naturalmente não tão severas quanto as do ano transato, nomeadamente o passaporte digital Covid e a reintrodução da máscara com mais eficácia (Levar o cão a passear já não se usa. Verdadeiramente “fashion” é “Mor, vou sair. Está na hora de passear o cão e a máscara. Na volta, aproveito para ir espalhando sorrateiramente por aqui e por ali as máscaras usadas, enquanto escurece.”).

Como dizia, e bem, o Presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, devem ser rejeitados quaisquer dramatismos ou deliberações com base em “surtos emocionais”, é certo, do mesmo modo que “Não vale a pena pôr-se com histerias”, ou seja, não se recomenda, por enquanto, o uso do escafandro, talvez sugerido pelos mais alarmistas, mas não será menos verdade que não podemos entrar no relaxamento “hooligan” da rebaldaria e irresponsabilidade.

A mesma razão tem o Secretário Regional da Saúde, Pedro Ramos, quando deixa claro que “As pessoas têm de pensar que o uso das medidas básicas de proteção e a responsabilidade individual são necessárias neste momento”, acrescentando ser igualmente necessária “uma atenção redobrada e altamente participativa”. Inteiramente de acordo com a tese, mas com muitas reservas em relação à responsabilidade individual que, infelizmente, não tem sido prevalente, nem é de esperar que o venha a ser, no Natal e fim de ano. Convém não esquecer que não vivemos numa “bolha”…

Segundo Gustavo Tato Borges, Vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, o prazo limite para impor medidas será o início de dezembro, sustentando que se até essa altura não for observável uma alteração do comportamento epidemiológico no País, será “fundamental aplicar medidas no início de dezembro para que no Natal tenhamos a situação controlada e possamos ter um Natal tranquilo”, posição que acompanhamos em absoluto, tal como perfilhamos a sua consideração de que “houve uma falha de comunicação que transformou o sucesso da campanha de vacinação numa perceção de alívio das boas regras”.  Com efeito, e citamo-lo: “Para a proporção de casos novos que temos, nós temos uma mortalidade bastante baixa. O que aconteceu foi uma má comunicação, em que se passou a mensagem que se tivéssemos 85% de população vacinada, deixaríamos de ter problemas de pandemia… é como conduzir um carro: temos cinto de segurança, travões e moderação de velocidade e é assim que evitamos ter acidentes. Para a pandemia, temos a vacinação, o uso da máscara e o distanciamento físico. E é assim que evitamos os novos casos”, advertiu.

Embora afaste a possibilidade de novo confinamento, o Bastonário da Ordem dos Médicos preconiza que urge acelerar a toma da 3.º dose da vacina, uma vez que entre quatro e oito meses a eficácia da vacinação tende a diminuir significativamente, sendo que, no seu entender, “Se tivermos as pessoas vacinadas quer para a gripe sazonal, quer para a Covid 19, nós estamos obviamente muito mais protegidos”, sendo de extrema importância reforçar algumas medidas, insistindo na necessidade de termos regras específicas, em razão de algumas que neste momento não fazem sentido, com exigências draconianas para determinados locais ou eventos e um “laissez-faire, laissez-passer” para outros, que deixam alguns responsáveis políticos sem argumentos ou com respostas balbuciantes e desconexas quando questionados, razão pela qual devem também ser revistas algumas regras absolutamente destituídas de coerência, feridas de ineficácia ou de faz de conta.

A nível regional, ficou a garantia do chefe do Governo de remeter as decisões sobre novas medidas restritivas para o fim do corrente mês. Já a nível nacional, aguarda-se a reunião entre peritos e Governo, no Infarmed, na próxima sexta-feira.

Recorde-se, para finalizar, que a OMS (Organização Mundial de Saúde), talvez pelo lamentável facto de não ter ouvido as declarações do virologista Pedro Simas, avisou que a situação da pandemia de covid-19 na Europa é “muito preocupante” e apontou a cobertura insuficiente de vacinas e o relaxamento de restrições para explicar o aumento de casos nas últimas semanas.

Em suma, apele-se no sentido do bom senso, sem dúvida. Aposte-se na prevenção e na responsabilidade individual. Invista-se na testagem e vacinação, mas não se descure  mão firme, autoridade, medidas e sanções, proporcionais e efetivas, no cumprimento integral das regras.


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