Estepilha: intimidado quando captava imagens de testes Covid…

Rui Marote
Há cerca de meio século que sigo abraçando uma profissão com imparcialidade e nunca esqueço que sirvo o interesse público, com isenção e ética. A minha experiência foi adquirida no exercício diário da profissão e nas muitas viagens que efectuei ao redor do mundo. Houve momentos bons e maus: guardo os bons e os maus ficam para a História.
Estou aposentado já lá vão 11 anos. E estou longe de arrumar as botas! Vivo da minha reforma e trabalho gratuitamente desde o nascer ao pôr do sol. É tirar o cavalinho da chuva, que as pressões ridículas que de vez em quando surgem não me impressionam. Não foi antes, e não será agora. Sou um “Kokwana”, palavra originária da língua ronga e changana em Moçambique, termo de respeito para com pessoas mais velhas!
Na gíria jornalística o “nariz de cera” está concluído.
Vamos ao sujeito da oração, o caricato acontecimento de hoje: na minha ronda matinal diária, porque sou “uma corporação de bombeiros sem viatura”, fui verificar as obras do Ilhéu da Pontinha.
Ora, ao entrar no porto deparei-me com um enorme cartaz: “Posto de Testagem Covid-19 faça o seu teste rápido antes da sua viagem para o Porto Santo” (ver foto) e uma enorme seta. Não vá nenhum mal ao mundo, mais vale tarde do que nunca. Seguimos o sinal, na busca de ver um “tabernáculo” dedicado aos testes Covid-19 junto ao cais do Lobo Marinho e nada. Chegámos a pensar se era no interior da gare e espreitámos, não vendo sinais de testagem.
Perguntámos ao Securita, que nos indicou que era depois de atravessarmos o túnel,  numa espécie de  contentor.
Nas costas da gare marítima  do porto, dois “contentores”, um em actividade e com cartaz (ver foto).
No seu interior duas jovens devidamente equipadas,
Interpelámos com o intuito de saber se esta parafernália se destinava ao Porto Santo. Correcto, informaram-nos, mas não só. As pessoas podem recorrer à mesma para outros fins.
Uma corrente de ar ventosa e fria entrava por uma das portas e saía pela outra. O Estepilha, atento, viu que uma das jovens estava embrulhada num cobertor sentada á secretária. Cheguei a pensar que estava numa das esplanadas do Porto de Neyhavan em Copenhaga, Dinamarca, onde os utentes vão saboreando umas cervejas envolvidos em mantas.
Captei a imagem, quando de imediato uma das jovens pediu para não publicar. Aceitei e prometi-lhe que não publicava. Mas a jovem insistia que eu tinha de apagar a imagem. Respondi que a minha palavra estava dada e não a publicaria. Sempre a insistir, “apague por favor”, a jovem não desarmava. Respondi-lhe que não o faria. “A senhora faz o seu trabalho e eu o meu porque  não vou interferir para colocar zaragatoa na narina esquerda. Assunto encerrado”, disse.
Mas o escândalo não ficou por aqui: vinte minutos passados o director da clínica reportava o acontecimento ao director do FN.
Bateram na porta errada: a minha honra inspira confiança. Aprendi muito jovem a cumprir com a palavra dada. Nos escuteiros, para ser exacto. As pessoas deveriam deixar de fazer um “31” com a captação da sua imagem, e informarem-se mais sobre os direitos que os jornalistas têm de as colherem em locais públicos e em circunstâncias que são do interesse do público. Direitos que estão consagrados na lei. Gritam tanto pela sua imagem pessoal que parece que ninguém pode tirar fotos e não estamos num país livre, mas ainda no tempo da ditadura e da censura.