Rafaela Fernandes gere o “tsunami” da pandemia e a pacificação do hospital com uma equipa coesa, espírito de missão e muitas horas sem dormir

No seu gabinete, Rafaela Fernandes repousa do turbilhão da gestão hospitalar da pandemia, no bálsamo que é a vista sobre a cidade. Fotos FN.

Quando Rafaela Fernandes foi nomeada presidente do conselho de administração do SESARAM, o “coração” de todas as polémicas hospitalares, poucos acreditaram nesta aposta de Albuquerque, já que, ironicamente, se comentava publicamente na “dança das cadeiras”. Os seus antecessores ocuparam a mesma cadeira num percurso de alta tensão com os profissionais de saúde e com a própria tutela. Acontece que Rafaela Fernandes, no seu estilo discreto, mas firme, chegou e surpreendeu. Com a bagagem jurídica e políticas que levou e o distanciamento dos lobbies da saúde, procurou “arrumar” a casa e serenar os ânimos. O segredo, segundo revela em entrevista ao FN, tem sido respeitar as áreas de intervenção de cada serviço e respeitar todos por igual, desde o funcionário que abre a porta ao gestor.

Curiosamente, nestes quase dois anos de presidência, não foram as classes profissionais que lhe tiraram o sono, mas o inesperado tsunami da pandemia covid. Ainda assim, com trabalho dia e noite, uma equipa alargada e coesa e o diálogo permanente com a tutela, o clima que se respira no hospital é de confiança e estabilidade, mesmo com o espetro da pandemia.

O respeito pelos profissionais de cada serviço é a base para a pacificação hospitalar.

Cedo chega ao gabinete, após deixar os dois filhos menores bem orientados. De fácil acesso e trato, despacha serviço pelos corredores e não deixa a comunicação social nem os utentes à espera, apesar da avalanche de solicitações que caem diariamente na sua mesa de trabalho. Em novembro próximo, cumprem-se dois anos à frente do SESARAM. O que mudou na Rafaela Fernandes de meados novembro de 2019 – data oficial da entrada – a 2021 é um testemunho feito na primeira pessoa, nos seu gabinete, ao FN: “Iniciei funções em meados de novembro de 2019, apanhámos logo, em 2020, com a pandemia, e acho que todos os dirigentes da função  pública, mas em particular  a administração do serviço publico regional, com um contexto insólito, tiveram de fazer um upgrade de responsabilidade. Tudo passou a ter que ser muito mais imediato, a organização de trabalho teve que ser redefinida com outra afinação nos processos de tomada de decisão e nos processos de contratação para dar mais celeridade nas aquisições, caso contrário não poderíamos dar resposta às necessidades do hospital. Qual o resultado destes quase 2 anos ? Há naturalmente um cansaço, que é um sentimento natural de todas as equipas, mas também um sentimento que é partilhado por mim e pelos meus colegas da administração, que de alguma forma, é um sentido de missão que temos ainda mais no contexto atual e a consciência do dever cumprido, porque fazemos parte de uma grande equipa. O processo atual é liderado pelo secretário regional, como se sabe, e no contexto de articulação com a Direção Regional de Saúde, particularmente com a unidade de emergência e com toda a componente do hospital, serviços clínicos e não clínicos, o que nos obrigam todos a ter um espírito de missão e muitas noites mal dormidas, muitas preocupações fora do horário de trabalho”.

A equipa que Rafaela Fernandes dirige, face ao atual contexto pandémico, obriga-a a trabalhar com um sentimento de que é preciso estar sempre “em prontidão”. Apesar de todas as previsões que os especialistas possam fazer, “temos de viver sem esquecer que somos uma região insular e de podermos estar limitados no acesso a determinado número de bens”.

O pior momento que viveu nestes dois anos foi o dealbar da pandemia. “Este anúncio da pandemia e a sua chegada, num ápice, a Portugal foi muito forte. Quando se falava da China, algo distante, não criou sobressalto, mas quando se começa a ver o pandemónio da Itália, ali mesmo ao lado, vivemos o pior momento de constatar que o problema estava próximo de nós, tudo mudou e tivemos de dar resposta. Era como se estivéssemos a ver chegar uma grande calamidade e era preciso reagir depressa. A reação depressa consistiu era todos ir ao mesmo e nós, teve que ser rápido e nós, por maioria de razão, porque era preciso garantir os transportes necessários para a Madeira dos produtos de emergência. Tivemos consciência de que era preciso meter mãos à obra e assim fizemos”.

 

O “reconhecimento da população” num contexto difícil motiva a caminhada.

Mas o percurso também é feito de pontos positivos. O melhor momento desta  administração é o sentido de equipa. Rafaela Fernandes faz questão de salientar a importância da sua equipa. Não se trata de um órgão singular mas de uma administração coletiva alargada de 3 para 5 elementos. “Temos uma aliança e articulação permanente com os nosso órgãos técnicos, nomeadamente com o diretor clínico e o diretor de enfermagem e o coordenador do ACES ao nível dos cuidados de saúde primários. Toda a equipa de gestão do SESARAM tem tido bons momentos, nomeadamente quando sabemos que há uma redução de números, em que sabemos que não há profissionais comprometidos, são pequenas vitórias do dia que nos alegram para o dia seguinte”.

Rafaela Fernandes destaca também, como aspeto positivo, “o reconhecimento da população; tivemos o reconhecimento por parte de entidades públicas e privadas pelo trabalho desenvolvido. O mérito é de todos os profissionais, desde o que abre a porta, atende o telefone, encaminha para os serviços, trata dos doentes … Transversalmente, o SESARAM é um serviço público de saúde que vive de várias carreiras profissionais, em que todos têm as sua função, e o que se espera, com este cansaço, é que os profissionais de saúde tenham, neste período de verão, um  momento para descansarem as armas com as suas famílias, porque se avizinha um período de outono/inverno que não sabemos muito bem o que é a nossa vida e temos de carregar baterias”.