Estepilha: “Aquela janela virada para o mar”…

Rui Marote

Cantou Tristão da Silva nos anos 60 uma canção que fez sucesso, “Aquela janela virada para o mar”… Ora, quem não sonha com uma casa com uma janela virada para o mar? Os ingleses, quando chegaram à Madeira, instalaram-se nos melhores locais, com as suas famosas quintas, onde privilegiavam a paisagem. Nem as Selvagens fugiram à regra.
Entretanto, o Palácio de São Lourenço, construído pelos  Filipes, continua a ser a jóia da coroa que os governos regionais reivindicaram mas que continua nas mãos do Estado.
“É meu, é teu, é nosso”, rezava há anos uma campanha algo ridícula, em que a população de mão dadas fez um anel à volta desta fortaleza, para manifestar e reivindicar este monumento, numa acção de propaganda que se destinava a fazer um matutino regional reclamar que servia causas do povo, divisada por consultores contratados.

Hoje o Palácio conserva a parte militar e a Representação da República em lados opostos.
O Estepilha, imbuído de fortes sentimentos autonómicos, presenciou há dias, como as fotos documentam, oficiais tomando o “breakfast” naquela janela virada para o mar numa manhã calorenta. Terrível atitude burguesa a tresandar a colonialismo! Ficámos indignadíssimos!
Em frente, em pleno oceano na gare marítima, o SEF, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, beneficia de instalações cedidas pela APRAM, viradas para o anfiteatro. Nada de mal. Acontece porém que, como medida de segurança, a APRAM, quando necessita de percorrer esse espaço é obrigada a pedir por escrito a entrada no varandim, explicitando a hora e o tempo que necessita.
Quem beneficia dessa “paisagem” é essa força de controlo de fronteiras, mas como “sala” de fumo ao ar livre (ver foto do cinzeiro).

Os ingleses deixaram de ser privilegiados e hoje outros valores mais altos se levantam. A bem da segurança, o café do Porto passou para segundo plano, estando às moscas, nada acessível a quem o visite tendo como pano de fundo a muralha de protecção.
Resta-nos escutar o fadista Tristão da Silva que também cantava “Oh tempo, volta para trás…” Entre os britânicos do passado e os portugueses do centralista Estado de hoje em dia, quem tratará melhor os madeirenses? A dúvida levanta-se.