Às avessas…

Já, por diversas vezes, tenho tentado corrigir ideias erradas sobre a História do Porto Santo, difundidas por políticos e outros notáveis que gostam de falar sobre o que não sabem. Hoje interrogo-me por que razão persistem no erro. Porque sentem necessidade de andar às avessas com a evidência histórica?

Há um adágio antigo, derivado de um sermão de Santo Agostinho que diz o seguinte: «Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico».

Sem querer ver diabos a saltarem das páginas dos discursos oficiais, não deixo de estar atento à teimosia de alguns porto-santenses em construírem um discurso anti-histórico, que em nada os prestigia. Retomando o conhecido adágio, podia dizer-se que, para essas pessoas, errar é humano, perseverar no erro é sádico.

No dia 24 de Junho, o município do Porto Santo celebra o seu feriado municipal. Que a escolha do dia do concelho recaísse na festa de João Baptista, isso foi opção camarária, que mereceu consenso e aplauso. Agora pretender associar a festa joanina ao aniversário do município é um disparate maior do que aquela ilha.

Segundo os camaristas, neste São João ocorreu o 185.º aniversário do município do Porto Santo. Para a efeméride, Idalino Vasconcelos fez-se fotografar junto à escultura de São João Baptista, que, pelo ar estupefacto, parece ter-se recordado do que havia dito às multidões que acorriam para serem baptizadas por ele: «Raça de víboras! Quem vos indicou que fugísseis da fúria que está para vir? Fazei crescer frutos dignos da mudança…» (Lc 3, 7-8). E o presidente fez publicar a fotografia nas redes sociais, acompanhada de um pequeno texto alusivo ao seu 185.º aniversário do concelho do Porto Santo.

Não sei com que fundamentos fazem tão insensato cálculo de idade. Julgo que o município do Porto Santo não tem complexos da sua longevidade. Mas por que razão reduzem bastante o número de anos da sua existência? Em meu entender, a longa idade do município só lhe acrescenta prestígio.

Não é a primeira vez que dissimulam a idade do concelho. Para o ano, persistentes no erro como se têm revelado, serão capazes de comemorar o 186.º aniversário no mesmo dia. Deve-lhes dar um gozo tremendo contrariarem a História, mas essa infantilidade em gente adulta só pode ser ignorância ou sadismo.

Não se conhece, com rigor, as datas de criação dos mais antigos municípios do arquipélago da Madeira: Funchal, Machico e Porto Santo. São, porém, todos do século XV. Têm todos mais de quinhentos anos.

Muita da documentação antiga do concelho do Porto Santo não chegou aos nossos dias, por razões diversas, entre as quais os frequentes saques de piratas e corsários àquela ilha. No entanto, ainda sobra alguma documentação elucidativa, zelosamente guardada no Arquivo Regional da Madeira. Sugeria, por isso, ao presidente e vereadores da Câmara, bem como aos seus assessores, uma visita àquela instituição, a fim de verificarem, com os seus próprios olhos, já que parecem não acreditar no que já por duas vezes lhes disse, como estão errados quanto ao aniversário do município.

Aproveitem a visita para se desfazerem de outros equívocos como o famigerado 1.º de Novembro, para erradamente assinalarem o dito descobrimento da ilha, e também para se esquecerem dessa malfadada Cidade Vila Baleira, em vez de Cidade do Porto Santo.

Depois dessa visita, chegarão, por certo, mais esclarecidos à sua terra e, no futuro, não repetirão as cenas tristes que têm vindo a protagonizar, a não ser que, para sempre, queiram estar de candeias às avessas com o seu passado histórico.