O que aconteceu, Sandra, para deixar o sucesso no Madeira Andebol SAD? “Terminou o meu tempo” e “estava muito cansada!”

Ou tudo ou nada: vencer sempre foi a meta de Sandra Fernandes.

O mundo do andebol conhece-a muito bem. Na Madeira e no panorama nacional e internacional. Sandra Fernandes não faz por menos: discreta, exigente e com o horizonte sempre na vitória. Primeiro destacou-se como atleta de mérito. Depois levou ao estrelato, por diversas vezes, as equipas que treinou no Madeira Andebol SAD. Não foi por acaso que a Federação Portuguesa de Andebol a distinguiu, por duas vezes, como a melhor treinadora nacional. Até fez o insólito: treinou a equipa masculina do Madeira Andebol SAD. Quando continua em alta, eis que a treinadora de sucesso surpreende e anuncia que deixa o Madeira Andebol SAD, apesar da administração querer contar com ela. O que aconteceu, Sandra? Ao Funchal Notícias, partilha emoções antes contidas: “Não interessava continuar a trabalhar num sítio onde eu achava que tinha terminado o meu tempo.” O que o público não sabe, e que Sandra partilha hoje ao FN, é que estava “muito cansada” e precisava de fazer outras coisas que não passam pelo andebol.

 

Uma cumplicidade longa e vencedora na equipa feminina do Madeira Andebol SAD.

Funchal Notícias: Gostaríamos que recordasse, de forma sumária, o seu percurso no mundo do desporto, como jogadora e depois como treinadora. 

Sandra Fernandes: Como jogadora, joguei andebol durante 20 anos, num percurso iniciado na minha terra no continente, Esposende, depois passei a jogar no Colégio de Gaia, outro dos clubes de referência a nível nacional e posteriormente recebi um convite realizado pelo Srº Alfredo Mendonça (atual administrador do Madeira SAD) e ainda muito novinha vim para a Madeira. O meu 1.º clube foi o C.S. Madeira, depois passei pelo Académico do Funchal e posteriormente fui atleta do Madeira Andebol SAD. Por estes três clubes na Madeira, conquistei todos os títulos nacionais. 7 Campeonatos nacionais, 7 supertaças e 7 taças de Portugal. Fui atleta internacional em todos os escalões e como sénior ainda consegui participar no campeonato do mundo grupo C.

Como treinadora, iniciei a sério a minha carreira no CD Bartolomeu Perestrelo, onde fui coordenadora e treinadora de vários escalões de formação. Depois estive na associação como diretora técnica regional, fui selecionadora regional de varias equipas e posteriormente fui selecionadora nacional de juniores, onde participei em campeonatos do mundo e da Europa, destacando a presença na meia final do campeonato da Europa de juniores em 2013 onde Portugal conquistou um histórico e brilhante 4 lugar ( a melhor classificação de sempre do andebol feminino). Neste ano, ainda fui treinadora da equipa masculina do Madeira SAD Masculino, numa conjuntura financeira muito difícil onde praticamente só havia atletas da casa e conseguimos manter a equipa na 1ª divisão masculina, sem dúvida outro dos momentos que guardo com muito carinho na minha carreira, que agradeço ao Carlos Marques Pereira, que na altura teve a coragem de colocar uma mulher à frente da equipa (nunca mais esquecerei). Posteriormente, fui selecionadora Nacional de seniores. Depois abracei o projeto do Madeira SAD feminino, onde conquistei quer títulos individuais como coletivos, 2 campeonatos, 4 supertaças e 1 taça de Portugal. Fui considerada neste 4 anos e meio por duas vezes a melhor treinadora nacional (troféu que é entregue pela FAP) e ainda conseguimos ter dois anos o troféu individual da melhor guarda-redes, três anos a melhor jogadora da competição e um ano a jogadora revelação da prova.

 

A entrega total ao comando das meninas do andebol. Vencer é obrigatório.

FN: Neste percurso longo e vasto, o que guarda como mais gratificante e o que prefere esquecer?

SF: As conquistas são sempre o que recordamos com maior facilidade e carinho. Sou muito feliz pelo que conquistei até agora, mas neste processo existem pessoas e por isso as jogadoras/ jogadores são aqueles que recordações mais positivas me trazem. Ganhei jogos, ganhei competições mas também ganhei muitas amizades que guardo para a vida. Felizmente, por onde andei ganhei muita coisa, guardo com muito carinho a participação no Campeonato da Europa em 2013 e o brilhante 4 lugar. Gosto muito de recordar as conquistas a nível nacional, felizmente já venci tudo o que havia para vencer em Portugal. As menos boas, foram sem dúvida as derrotas, sou muito competitiva e trabalho muito para ganhar e, quando não consigo, sinto uma angústia elevada, por isso nunca quero esquecer estes momentos de derrota, pois só vivendo e percebendo vou conseguir alterar e por isso nunca esqueço. Agora, esquecer, quero fazer duas coisas, esquecer os conflitos, não quero reviver alguns momentos menos bons que vivi no desporto e as lesões das atletas. As lesões graves foram algumas das coisas que tiraram o sono, sentir de perto a desespero de uma atleta que se lesiona com gravidade é uma dor terrível, para elas e para mim, sofri muito com isso, nestes anos no andebol. As mulheres então são umas mártires nas lesões, existem imagens que não me saem da cabeça. Só vendo e só passando.

 

Combativa, presente, pedagógica, humana, tudo ingredientes que levaram a treinadora a contagiar os seus atletas.

FN: Como e quais as razões que a levaram a deixar o Madeira Andebol SAD, após um percurso de glória e projeção? O que o público não sabe verdadeiramente?

Saio do Madeira SAD porque considero que fechei o ciclo, o clube queria que continuasse, mas sou séria no que quero para a minha vida e no que desejo para os clubes e instituições com quem trabalho. Não interessava continuar a trabalhar num sítio onde eu achava que tinha terminado o meu tempo. Os clubes ficam, os treinadores passam e por isso eu sou apenas mais uma treinadora que passei pelo clube. Saio de consciência muito tranquila, trabalhei muito, dei muito de mim, fui competente e dedicada, ganhei e  perdi, mas ninguém nunca poderá dizer que não fui trabalhadora e séria no desempenho das minhas funções, isso não admito.

O que o público não sabe é que a Sandra estava muito cansada e que precisa de outras coisas que neste momento não passam pelo projeto Madeira Andebol SAD. Espero que o clube continue a ganhar, esse é o único desejo.

 

FN: Qual será o futuro desportivo de Sandra Fernandes?

O futuro será continuar a ser feliz com a minha família e, se for possível, ligada à modalidade. Se não for possível, às vezes também é bom fazermos uma pausa, tipo licença sabática que nos permita fortalecer áreas de conhecimento no andebol e na área da educação física que é outra das minhas grandes paixões profissionais. A vida tem de continuar.

A adrenalina dos jogos.

FN: Acha que há machismo no mundo do desporto/andebol? Já treinou uma equipa masculina. Como foi essa experiência?

A minha experiência nos masculinos foi muito positiva. Confesso que na altura, quando recebi o convite, a minha cabeça pensou em muitas coisas, pois não estávamos a falar de crianças, estávamos a falar de uma equipa de homens. No entanto, resolvi arriscar porque pensei, se sempre fui treinada por treinadores homens, por que o inverso é uma admiração? Conversando principalmente com o meu marido,  ele achava que eu era capaz e que devia de arriscar. Arrisquei e sai-me bem. Na altura em que estávamos, os recursos financeiros eram muito difíceis, vivíamos numa conjuntura financeira terrível, tínhamos uma equipa quase toda com atletas da casa. Foi fantástico, conseguimos ficar na 1ª divisão de forma confortável, foi para mim um excelente, momento. Os atletas foram sempre respeitadores, claramente que me aceitaram muito bem e muitos até ajudaram. Tive algumas situações de algum desconforto, por exemplo, entrar no balneário [risos], mas depois habituei-me e eles também, havia respeito, amizade e muita cumplicidade. Fiquei com amigos para a vida.

 

A distinção nacional como melhor treinadora.

FN: Como perspetiva o futuro do andebol e que conselhos deixa ao seu sucessor?

Espero que o andebol continue a ser a primeira modalidade da Região (atrás do futebol, claro), que continue a ganhar muita coisa para a Madeira e que continue a permitir que a ilha da Madeira seja falada pela positiva, quer em termos de Continente, quer em termos internacionais. Continuo a achar que o desporto, e neste caso o andebol, é um ótimo veículo de promoção da ilha da Madeira. Conselhos? O Tozé é um amigo e por isso desejo-lhe as maiores felicidades, já conversámos, já lhe desejei sorte, ele só tem de fazer o que sabe, pois o clube fica muito bem entregue.

Hidratar, sempre muito preciso, nesta luta dura em campo.

FN: Considera que os políticos apoiam verdadeiramente o desporto ou é cassete eleitoral apenas?

O desporto na Madeira é muito bem apoiado, acho que os políticos continuam a ter o desporto num patamar de excelência em termos de apoio. Considero, no entanto, que há um especto a corrigir, que passa pelas infraestruturas que não são suficientes e algumas têm pouca qualidade, para as equipas seniores. As equipas de miúdos/ crianças não podem continuar a treinar na rua, temos que ter pavilhões para os nossos jovens treinarem diariamente, estamos a falar de desporto e de saúde para o crescimento dos nossos jovens. O resto só espero que o COVID nos deixe continuar a jogar, ver e a conviver socialmente e desportivamente no andebol.

 

O companheirismo na hora da glória.
Motivar, acreditar que a vitória é sempre nossa. Sandra é assim em campo.