Tudo normal

Não poderia estar mais feliz com o desconfinamento. Tudo normal.

Já consigo mesmo saborear o doce sabor da liberdade. E a expetativa é inebriante. Como quando passo a semana a comer alface e a imaginar como será porcalhar no sábado um hambúrguer. Duplo e com batatas fritas.

Vais voltar à escola, bebé. Sim! Depois de te desinfetar da cabeça aos pés, vou dar-te um beijinho na máscara. Depois vou poder ver-te brincar novamente com os teus amigos. Através do vidro, claro. Mas mantém a distância de dois metros de todos eles. O que são dois metros? É mais do que um papá de distância. E não partilhes brinquedos. Sim, eu sei que gostas desta parte.

Tudo normal.

E não te esqueças, amor, se caíres e te magoares ou se tiveres muitas saudades da mamã não podes ser abraçada por ninguém. Tens de saber consolar-te só, perfeito para quem tem três anos.

Tudo normal.

Depois vou trabalhar. De máscara, claro. Se precisar de falar com alguém, será através do acrílico. Desinfetando-me e lavando as mãos até já não ter pele. Tudo enquanto tento ingloriamente manter-me atualizada e não me afundar no oceano da proliferação legislativa. Vinte diplomas novos por dia, com dez versões sucessivas cada um, muitas vezes contraditórias. A letra da lei até pode estar lá como pode, mas alcançar o pensamento do legislador, isso, só de bola de cristal.

Tudo normal.

À hora de almoço, vou almoçar ao restaurante habitual. Aquele pequenino mesmo ao pé do trabalho. A fila está grande. Ora, se o restaurante tem só seis mesas, deixa ver, um terço, dois mais dois dá quatro, noves fora nove, oito, pois não sei. Sei que são horas de voltar ao trabalho. Com fome.

Tudo normal.

Este dia não está a ser fácil. O que poderia fazer agora era ir ao ginásio. Para descomprimir. Mas aulas só com o instrutor não têm muita graça. Tem as máquinas, realmente. Mas depois a pessoa transpira e sei lá o suor dos outros e tudo mais. Não. É melhor não. Vou continuar a fazer aulas online. As de Pilates e as de yoga. Vejo-as tão bem sentada no sofá. Porque todas as desculpas são perfeitas.

Tudo normal.

A caminho da casa dos meus pais ligo à minha avó. Que bom que já foi à sua missa, Vovozita. Eu sei que tinha saudades das missas das segundas e das quartas. E das da sexta e do domingo também. Mas, por favor, não fique à porta da igreja a falar com as suas amigas. Acene ao longe. Ou melhor, finja que não as vê. E se encontrar a D. Zézita, fuja. Que essa é beijoqueira.

Tudo normal.

Chego a casa dos meus pais. Não sem antes ligar para confirmar que não está nenhum tio ou prima que tenha aparecido de surpresa. Posso não saber fazer contas de mesas de restaurantes, mas já fui de fita métrica em riste medir a casa e sei exatamente quantas pessoas lá podem estar. Não amor, podes ver a avó, mas não lhe podes tocar. Beijos só daqueles enviados pelo ar. Claro que é a mesma coisa. Aliás, estes são ainda mais especiais. São aéreos.

Tudo normal.

Sexta feira à noite. Sete Mares. Esplanadar como deve ser, finalmente. Meninas em casa a dormir e o papá a tomar conta delas. Matar saudades dos amigos, ao fim de tanto tempo. Como assim, só nos podemos sentar todos numa mesa se vivermos juntos? Somos o elenco do novo Big Brother, versão madeirense. Cada um para a sua casa. Sem uma cerveja sequer.

Tudo normal.

Que belo dia de Sol. Acordam às sete da manha, claro. Só porque é fim de semana. Ninguém me convence que não é de propósito. E que tal darmos início à época balnear deste ano? Um tímpano furado com os gritos da excitação. Não, piscinas não há. Mas então já estás há três anos na natação e não sabes nadar no mar? Pois vais aprender. Aos seis anos está mais que na altura, amor. Tu não, pequenina. Vais de braçadeiras. Se há escorregas no mar? Ainda não.

Tudo normal.

Mas no Porto Santo o mar é uma delícia e vocês adoram, não é? Claro que vamos lá de férias. Ano sem Porto Santo não é ano. Mesmo em modo Covid. Vamos ver os primos, os tios e a bisa. Através das janelas, mas já não é mau. Temos é de pensar bem em que altura vamos, porque este ano será como se o Sr. José ficasse maluco e desatasse a oferecer lambecas.

Na praia, podemos usar os corta-ventos e fazer uma ala de isolamento. Para a água vamos a correr. Sem respirar.

Tudo normal.

Isto afinal vai ser mesmo como passar a semana a comer alface e a imaginar porcalhar um hambúrguer no sábado. A expetativa é inebriante. O prazer fica sempre aquém. A azia é demolidora.

Nada normal.

O que pode ser. O que tem de ser.

A única coisa que me consola é que, mesmo não podendo ir ver os Aerosmith, sempre posso ir à Festa do Avante.

Tudo normal.


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