Maria João Loureiro: Telemóveis na escola – proibir ou não?

A investigadora do CIDTFF da Universidade de Aveiro, Maria João Loureiro, reflete sobre “Telemóveis na escola – proibir ou não?” na rubrica “Educação à Escuta”, iniciativa desta unidade de investigação, em colaboração com a rádio Terra Nova.

Contacto:  https://www.ua.pt/en/p/10307366

Telemóveis na escola – proibir ou não? Eis a questão

A questão em discussão tem sido abordada nos media, dado haver escolas que estão a optar pela interdição do uso de telemóveis, o que penso ter que ser objeto de reflexão alargada. Partilho, neste pequeno texto, a minha opinião e aspetos que devem ser equacionados pela comunidade educativa em geral, tendo em vista a tomada de decisões, informada e balizada por uma visão holística e fundamentada. A minha resposta à pergunta acima é não – o uso do telemóvel na escola não deve ser proibido – porque, como diz o povo, “o fruto proibido é o mais apetecido” e, portanto, de pouco adianta proibir. Recordo ainda que todos fomos jovens e sabemos que há sempre formas de contornar regras impostas.

Irei discutir o problema, dando tentativas de resposta a outras questões que importa considerar. A primeira é: que regulação existe nas famílias? Na minha opinião, a educação continua a ser primordialmente da responsabilidade das famílias, daí ser necessário refletir sobre o que se passa no seio das mesmas e entre “amigos” no que respeita ao uso dos telemóveis e outros dispositivos móveis. O que tem aparecido na comunicação é que, por um lado, estas tecnologias são colocadas nas mãos das crianças e jovens como babysitter (Jornal Público, 18 de outubro de 2018) e, por outro, em momentos de reunião da família, como as refeições, os pais e os filhos estão de telemóvel na mão. Todos fazemos esta constatação, por exemplo, em restaurantes, em reuniões de amigos, e temos consciência de que a tecnologia pode aproximar quem está longe mas também separar quem está perto (https://odia.ig.com.br/_conteudo/noticia/mundoeciencia/2014-06-07/tecnologia-aproxima-quem-esta-longe-e-afasta-quem-esta-perto.html). A este propósito a Telefónica espanhola divulgou um cartaz, que circulou na Internet e ilustra bem o referido, em que se lia “hoje lá em casa estivemos sem internet e convivi com a família, parece boa gente!” Estes comportamentos têm sido associados a pais “digitalmente” distraídos, que são indulgentes e permissivos e não definem regras. No seio dessas famílias, as crianças e jovens crescem com um sentido de direito a obter tudo o que desejam, sem merecê-lo, sem responsabilização, sendo o sono e a alimentação desequilibrados e o estilo de vida sedentário, entre outras consequências. Pode ser lida mais informação no Jornal da Cidade Online, num texto de Luís Rojas Marcos, juntamente com um conjunto de conselhos https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/13702/ha-uma-tragedia-silenciosa-em-nossas-casas.

O problema não é novo, colocou-se quando a TV foi vulgarizada e parece não haver grandes dúvidas de que pode levar a uma deterioração das relações sociais, bem como ao sedentarismo, à ansiedade, etc. Já antes o tinha referido num artigo publicado na rubrica “(h)á Educação” do Diário de Aveiro publicada pelo CIDTFF (HAEducacao_RIA). No referido artigo, defendi que tanto no seio da família como na escola, as crianças e jovens devem usar as TIC de forma supervisionada e segura, tendo os adultos (pais e professores) o papel de orientar a sua educação tecnológica e discutir como as usar as tecnologias de forma esclarecida e responsável. Para isso é, no entanto, necessário educar os educadores, sejam eles os pais, os professores ou outros. Defendi também que estas orientações fazem sentido no mundo ocidental e que é necessário discutir os impactos do uso que fazemos da tecnologia nos países em desenvolvimento, em que a maioria das crianças e dos jovens cresce em contextos onde não há alimentação, nem água, nem luz.

Pensemos agora na questão das diferenças entre as faixas etárias. Da informação e leituras que tenho feito, vários autores aconselham que as crianças tenham tempos reduzidos de contacto com os dispositivos móveis (telemóveis e tablets). O psiquiatra Cristiano Nabuco, que tem desenvolvido investigação na área do impacto do uso dos dispositivos móveis na saúde, defende que o contacto com estas tecnologias pode esperar, dado que emocionalmente as crianças são mais vulneráveis e estão mais expostas aos perigos da Internet (http://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2020/01/28/celulares-em-sala-de-aula-vale-restringir-ou-nao/).

Por outro lado, é de considerar a filosofia da escola Waldorf School of the Peninsula, que fica em Silicon Valley e em que os maiores especialistas em tecnologias da América têm os seus filhos a estudar. Para as crianças não há computadores, nem tablets, só lápis e papel. Os quadros são de ardósia e para escrever apenas giz. A educação tecnológica é feita só no ensino secundário. Na escola Waldorf, os educadores consideram que é muito importante as crianças interagirem umas com as outras e com os professores e trabalharem com materiais reais. Consideram também que explorando ideias, participando em arte, música, movimento, etc., as crianças desenvolvem-se fortes, robustas, confiantes, criativas e motivadas. A estes argumentos associa-se a necessidade de as crianças brincarem ao ar livre e o Projeto “Limites invisíveis”, do CIDTFF, que será divulgado neste programa num futuro próximo, tem essa preocupação subliminar.

Na escola acima referida, os alunos do ensino secundário usam as tecnologias como recurso no processo de aprendizagem e desenvolvem competências digitais rapidamente. É nesse nível de ensino que a aprendizagem da programação se faz para os alunos que pretendam ter carreiras na indústria tecnológica.

Outra questão que se coloca é: em que espaço da escola são usadas ou restringidas as tecnologias? Tendo em conta os esforços que desde o projeto MINERVA têm sido feitos no pais, sendo a iniciativa mais recente o INCoDe, cuja terceira conferência está a decorrer no Porto, e apesar de, na literatura, não haver consenso sobre o impacto da exploração destas tecnologias nas aprendizagens, penso que não usar os dispositivos móveis, em contextos formais e não-formais de ensino, é um desperdício dos impostos que todos nós pagamos. Acresce que a presença destas tecnologias nos lares portugueses não implica que os jovens saibam usá-las. A investigação tem indicado que a utilização dos dispositivos móveis pelos jovens tem como fim o entretenimento, ou seja, o jogo e o uso de redes sociais, e não o desenvolvimento de competências digitais, como as definidas no referencial europeu DigComp (https://erte.dge.mec.pt/noticias/digcomp-21-quadro-europeu-de-competencias-digitais-para-cidadaos). Importa, pois, que os dispositivos móveis sejam integrados em contextos educativos de forma transversal, como recurso e na lógica do “traga o seu próprio dispositivo móvel” (Bring Your Own Divice – BYOD).

Como acima referido, os espaços fora das salas de aulas devem ser espaços de sociabilização, de fruição do ar livre, de movimentação, devendo, na minha perspetiva, ser restringido o uso dos dispositivos móveis mas de forma negociada. Neste espaço e na sala de aula ou noutros espaços de aprendizagem formal é necessário definir regras, o que implica uma discussão alargada e aprofundada dos impactos sociais, económicos, a nível da saúde, entre outros, do uso não sustentável das tecnologias que sem dúvida vieram para ficar.

É necessário também equacionar o papel destas tecnologias no desenvolvimento económico. É inegável que nas sociedades ditas desenvolvidas, as tecnologias estão cada vez mais presentes. Por outro lado, penso ser necessário equacionar as projeções feitas e os impactos ao nível social, económico e ambiental, a nível global. Que se passa nos países em que o acesso é elevado? Vários autores alertam para a desumanização, para a escassez de emprego e para o burnout, de quem tem emprego, em parte ligado ao aumento de burocracia que implica a informatização de informação em múltiplas plataformas. E nos países subdesenvolvidos? Temos ecos de que o impacto é, entre outros, o aumento do trabalho infantil (como o caso de Dorsen, um menino de 8 anos que trabalha 12 h/dia para extrair cobalto que é usado no fabrico de telemóveis e outras tecnologias: https://www.theuniplanet.com/2017/03/dorsen-tem-8-anos-e-trabalha-12hdia.html) e das doenças causadas pela separação do silício e outros materiais perigosos, dos dispositivos que deitamos fora. Esta realidade, devo reforçar, leva ao aumento das desigualdades e da exclusão.

Termino esta reflexão, inspirando-me numa entrevista a Cristóbal Cobo (https://www.fundacionsantillana.com/ed21/entrevista-cristobal-cobo/). O autor defende que a globalização resultante das revoluções que se sucedem e sobrepõem, dependo do contexto, tem sido encarada como monocromática e homogeneizante e é necessário que as agendas globais dialoguem com as locais. Para Cobo a explosão das desigualdades requer que todos assumam uma atitude de responsabilidade e respeito pelo planeta azul, em que vivemos, e um compromisso com a possibilidade de um futuro comum.

Em suma e voltando à questão, existe uma necessidade premente de discussão das temáticas que abordei, de forma glocal e envolvendo os jovens, tendo em vista não impor uma situação mas negociá-la. Na página do seminário “Alunos, escola, família, sociedade e tecnologias: ubiquidade? dependência?” (https://www.facebook.com/events/570563636352414/?active_tab=discussion) está disponível informação a partir da qual se pode, por exemplo, organizar uma atividade do tipo jogo de representação (role play).

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