Saúde ou roleta russa no Hospital?

Há uns 20 e poucos anos, eu olhava para o Hospital como uma instituição seríssima. Os seus administradores e diretores pautavam a sua atuação pela discrição e nós, os jornalistas, para obter uma informação, bem transpirávamos junto do diretor da urgência ou até mesmo do diretor clínico para poder urdir uma notícia sobre um caso do dia ou um problema de saúde pública. Não havia gabinetes de comunicação nem assessores de imprensa a fazer o photoshop do chefe.

Há cerca de 15 anos, a rua do hospital e da saúde pública passou a ser os jornais. As notícias começaram a sair em catadupa. A anterior governação substituiu as peças do xadrez, levou à liderança Almada Cardoso e Miguel Ferreira e eis que o Hospital saiu de uma longa noite de discrição para um mundo abrasivo. Durante algum tempo, reproduzi declarações de quem mandava de que era preciso arrumar a casa, porque havia médicos clinicamente notáveis mas que trabalhavam quando queriam e tinham mais mordomias do que serviço no bloco. Dia sim dia não, a saúde passou a ter lugar assíduo nos jornais, pelas piores razões. Nessa altura, nomes como Mário Pereira, Pedro Ramos, Rui Barreto ou Miguel Albuquerque não existiam sequer nesta novela de ajustes de contas, de despedimentos por telefone e de acelerados pedidos de reforma antecipada. A saúde começava a cair, pelas piores razões, na praça pública.

Após muita água a correr pelos corredores do Hospital, eis que a Renovação confiou a gestão política e administrativa da casa a outros senhores. Já não sobravam muitos, verdade se diga, porque, entretanto, foram outros tantos queimados na marcha de Alfama e outros mandaram o Hospital às malvas e abraçaram projetos privados. Eis que saltaram os Britos, depois os Nunes e depois os Ramos para secretariar a tutela política escaldante da saúde.  Nesta roleta russa, o Hospital passou de casa seríssima a um estabelecimento pouco sério, onde os seus principais clientes, passaram a ter medo de serem tratados pelo profissionais que se seguissem ou que fossem da confiança do líder político do momento. Neste intervalo de tempo de acelerada descredibilização do setor, surgiu outra lista de diretores clínicos que o clima de instabilidade foi naturalmente engolindo, com a administração Sesaram também a parecer, não um hotel, mas um motel para gente de passagem.

A população, alienada com os festivais e futebóis, achava que isso era problema deles, dos políticos  e dos médicos, sempre a fervilhar de episódios, até ao dia em que lhe chegou à pele. Hoje, o simples utente, sem dinheiro para as sopas, é capaz de pedir emprestado ao vizinho para ir ao privado, porque perdeu alguma confiança no seu Hospital, porque, segundo dizem os jornais, o azedume grassa, os profissionais estão exaustos (“burnout”), as carências são mais que muitas e já rodaram quase todos nas direções e administrações. Daí que ninguém se admire se olhar para as clínicas privadas e as vejam cheias de fregueses como se de hospitais se tratassem. Terão os madeirenses, subitamente, enriquecido?

Qual é, então, o problema do momento? Pois claro, o diretor clínico, desta feita os Pereiras, mais um, se deve ou não ter a confiança dos seus pares, porque um governo de coligação tem de contentar ambos os lados para parecer unido. Por outras palavras, a gestão de uma casa seríssima, que sempre foi o Hospital, caiu na rua, com os partidos a se entreterem com este “churrasco” de notícias para aparecerem a dizerem disparates, ao mesmo tempo que os profissionais de saúde que lá trabalham saltam de chefe em chefe, cada um com o seu geniozinho, graduado ou não, a partir os restantes cacos da casa.

Pergunta-se: onde está a Liderança da Saúde da Madeira? Nas mãos de um fortuito e incerto acordo de coligação? Nas mãos de um CDS derrotadíssimo nas urnas mas a insistir em comandar os destinos do coração de uma governação? O que ensinam os manuais sobre como se lida com a chantagem quando os interesses da população estão em causa?

Do lado de quem governa, vêm sempre as desculpas: a saúde é um pântano de interesses, de poderes instalados, de virgens ofendidas, de naturezas complexas, de vírus e bactérias no ar… em síntese: o antibiótico não funciona e não sabemos como governar a saúde. Por isso, de experiência em experiência até ao descalabro final.

Quando não se consegue ou não se sabe decidir, passou a ser moda no hospital ouvir todos, rolar cabeças sem dó nem piedade para contentar todos. Mais uma vez se confirma que o Hospital caiu na rua. E que faz a população? Cala-se, encolhe-se, reclama para as paredes e pede emprestado dinheiro ou sacrifica-se para pagar a consultazinha no privado, porque receia um atendimento inadequado no Hospital ou de ser vítima de uma bactéria que por que lá passou a circular e a matar demasiadas vezes.

Com este diagnóstico, com ou sem acordo de coligação, entendam que é preciso decidir começar de novo. Esqueçam os génios, esqueçam os lobbies do corporativismo e coloquem nos lugares-chave rostos novos, desconhecidos, mas com currículo credível e façam a monitorização viral das vossas políticas e não das pessoas. Dou apenas um exemplo básico. Há pessoas que, embaladas pelo estrelato dos nomes, vão a Lisboa confiar os seus processos jurídicos a uma estrela nacional do Direito. Pagam a peso de ouro a defesa e nem sempre os resultados estão à altura da factura. Mais prudente seria entregar as causas a um técnico anónimo do Direito, sem galões a não ser o do trabalho sério, acima dos acordos entre advogados numa Madeira rica em compadrios.

Sem uma limpeza transversal na saúde, ficarão sempre minas pelo caminho que colocarão em primeiro lugar os interesses e azedume pessoais em detrimento dos interesses públicos. E, por favor, não façam a patética figura de perguntar a todos se podem decidir se fulano é agradável a sicrano. Mudem tudo e sejam firmes nas tomadas de decisão. Matem mais as políticas erradas e menos as pessoas. Falem menos, apareçam menos e trabalhem muito, muito mais. Lembrem-se: o Hospital já foi uma instituição seríssima e confiável.