O paradoxo entre a política e o mundo empresarial  

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Num mundo globalizado como o nosso existem à luz da concepção teórica várias interpretações e várias visões sobre a política, o mundo, e como o tecido empresarial se envolve em cada um desses dois “mundos”. Numa análise superficial podemos no limite assumir que estes dois ramos da nossa sociedade andam sempre de mãos dadas numa espécie de novelo de lã que não se desenrola. Com esta minha reflexão, queria dar conta da minha visão sobre o tema e fazer-vos pensar que nem tudo pode ser preto ou branco, que existe sempre outras faces para a mesma moeda.

Durante estes meus tenros 27 anos, tive um contacto mais profundo com o mundo empresarial. É um mundo megalómano, onde a nossa aceitação é baseada em currículos, entrevistas, dinâmicas de grupo e onde se destaca a capacidade de “self-branding” para conseguirmos a tão aguardada vaga de emprego, numa realidade que se releva muito difícil para nós jovens. Após essa entrada é necessário integrar-se na empresa, mostrar empenho, ser dinâmico, versátil para poder ir subindo na escada da hierarquia empresarial. No mundo empresarial, de uma forma ou de outra, temos de ser avaliados, não há como escapar. As métricas são diversas e os modelos de avaliação por vezes complexos, o que torna essa narrativa difícil de mensurar o valor real de cada colaborador. Quanto será que vale este colaborador para a organização? É aqui que entramos no paradoxo com a política. Será que é necessário prestar provas anteriores para se filiar nalgum partido? A resposta é não.

A filiação política nasce da vontade de cada indivíduo procurar o melhor palco para fazer passar a sua mensagem. Não existem entrevistas, currículos, canudos, certificados de línguas e uma quantidade imensa de papelada. A filiação ocorre por vontade do mesmo e cabe a cada partido aceitá-la de forma natural, criando todas as condições necessárias para a política activa destes novos militantes. Aqui entramos num ponto muito particular, enquanto nas empresas os colaboradores são escolhidos pelos responsáveis de cada área, na política os partidos são dos militantes, são esses que elegem em cada congresso ou conselho regional os seus representantes para cada mandato. Num partido ninguém é mais que ninguém, cada militante vale o mesmo voto, independentemente do meio onde está inserido. Esta para mim é uma das chaves do sucesso que deverá ser replicado também no mundo empresarial. Para uma empresa atingir os resultados pretendidos tem de ter consciência que a liderança deverá ser feita na horizontal e nunca na vertical! É necessário envolver todos os elementos da organização, criar laços de trabalho, potenciar as relações interpessoais entre todos os colaboradores, criar condições para que os colaboradores sintam que fazem parte daquele projecto e que o sucesso da empresa parte fundamentalmente do input diário de cada um deles.

Por outro lado, quem luta diariamente pelos seus ideais será que se sente completamente envolvido nos partidos? É aqui que reside o outro reverso da medalha. Então será que a política não terá de apreender também ela com a visão empresarial? A resposta será sim. Os partidos têm de se abrir aos seus militantes, pois são estes que bombeiam a máquina partidária. Para atingir bons resultados eleitorais é necessário motivar os militantes, envolvê-los, perceber quais são as suas reais necessidades e efectuar políticas que estejam de acordo com a sua base eleitoral. Os partidos têm de perder o hábito de viver na sua “bolha”, e para isso é necessário compreenderam que são apenas meros instrumentos nas mãos dos seus militantes! Tal como no mundo empresarial, as empresas têm de adaptar os seus produtos às necessidades dos seus clientes, os partidos têm a missão de ajustar as suas propostas eleitorais à sua matriz partidária, fazendo assim cumprir a missão fundamental da política, fazer valer a voz de todos os militantes no panorama político.

O autor escreve segundo a antiga ortografia da língua portuguesa