Escrito com dois pp

 

A idade é um Bem que se escreve com dois pp: Precioso e perverso. Bem precioso para os que amam a vida e continuam a tê-la e a usá-la na posse duma desejável lucidez. Perverso porque a soma dos anos nos vai aproximando de um limite invisível, mas inalienável, e,  à soma do tempo, se junta a soma de algumas perdas e ausências. Forma-se então dentro de nós a percepção dum sentimento indescritível, cujo vocábulo é, simultaneamente, uma celebração e uma celebridade. Celebração, por ter ganho na língua portuguesa a condição de luminoso achado; e celebridade, por não ter em nenhuma outra língua uma tradução condigna: Eis a  eminente Saudade.

Parente da solidão com a mesma carga de efeito, a Saudade contém uma dualidade hostil e afável, paradoxo que se define pelos lados justapostos da lembrança: Recordar é viver;  recordar é também sofrer.

Este preâmbulo levar-me-ia por caminhos tortuosos e sombrios, se não fosse a capacidade que todos temos de acender a esperança nas horas difíceis do desconforto e da incerteza. Por isso, vou retroceder caminho e entrar aqui por outra via, mais larga e clara, contrariando o processo das crises e dos pessimismos. Vou referir um livro antigo que voltei a visitar, uma obra de Batista-Bastos, publicada há vinte anos, cujo título me remeteu para este escrito e cujo conteúdo me confronta com inevitáveis memórias dum passado que relevam a consciência humana, formada no amor e nos encontros e experiências felizes e apelam à preservação da integridade pessoal e à intervenção a favor do sentido positivo da vida.

Os últimos anos arrebataram-nos alguns amigos ou familiares, pessoas queridas, importantes para a nossa permanência e realização afectiva. Foram agentes de conforto e alegria, pepitas de ouro, que nos enriqueceram o projecto do amor, ou do companheirismo, no trabalho, na generosidade e no amparo da amizade. É um título significativo este, «No interior da tua ausência» que, só por si, é já uma expressiva evocação da paisagem intimista que nos convida a entrar no livro de Batista-Bastos. Qualquer de nós poderia pronunciar este simples desabafo com que o autor afirma a sua nostalgia: « Este verão correu muito depressa e o passado andou atrás de mim. Deu-me para recordar». E continua: …«Vivemos no interior dum tempo diluído, ou denso, que não nos abandona. Podemos fugir, mas não nos podemos esconder. E aquilo em que acreditamos faz a magia do que passou».

Nesta última frase reside a centelha que pode acender a nossa Fé na esperança e prover à celebração dos momentos felizes que outrora teremos vivido.

É por isso que, no decorrer de Janeiro, há uma ténue saudade a percorrer os dias, trazendo  consigo uma lembrança macia e preciosa, suave «patine», que. lentamente, vai cobrindo as pepitas de ouro velho, que, eventualmente, tenhamos guardado no cofre singular do coração. No início do mês há uma hora essencial em que os abraços se colam, e os bons votos fervilham nas pequenas bolhas dos espumantes, em que a alegria  explode nas mesas festivas, de mistura com doces memórias que o tempo vai guardando. Um ano começa e parece que a vida estagna por momentos em cada casa recolhida no calor de um bem estar preparado com dias e dias de antecedência, numa longa véspera cuidadosamente acarinhada. Mas por entre as frestas da alegria vislumbra-se, às vezes, a pulsão duma vagarosa dor antiga. A idade é então a testemunha experiente que,  sobre a distância que separa os anos,  detém a capacidade da reconciliação serena com o passado, ainda que talvez uma lágrima subtil possa ser a permuta para a obtenção da necessária paz.

Assim, considero que o p de precioso subleva o p de perverso, relativamente ao Bem que a idade nos traz. Um sentimento de gratidão sublinha a condição da vida que nos torna idosos, com direito a exigir a exorcização da carga negativa que se atribui ao vocábulo. É à lucidez que se deve a evocação das memórias e, ao tempo, o composto que as envolve e protege com uma fina película de terna melancolia, magia que nos permite, como afirma Batista-Bastos, contrariar a perversidade dos «signos».