Como está o nosso património cultural?

Será que conhecemos, minimamente, o nosso património cultural material, imaterial, arqueológico, histórico, ambiental, artístico, etc.? Julgo que não. Pois a educação e valorização do património cultural não é, ainda, uma prioridade por parte, de muitos dos nossos decisores políticos e o mesmo acontece com a grande maioria dos cidadãos.

Mas não tenhamos margens para dúvidas que é de uma extrema importância que haja uma maior consciência coletiva e cívica sobre o que é nosso; uma consciência de bem sobre a nossa identidade. Pois o património retrata o nosso passado, o que fomos e o que somos, daí não podemos de forma alguma perdê-lo ou mesmo destorcê-lo, como muitas vezes, acontece, um pouco, por todo o país. Infelizmente, existe graves ameaças de degradação, desaparecimento e destruição do património cultural. Na nossa Região e não só, ao longo dos anos deparámos com vários casos de alguma negligencia sobre o património local ou de um silencioso abandono que o condena à desmemória.

Independentemente de termos consciência ou não, reconhecemo-nos no património cultural, num passado que nos formou até aos dias de hoje, desde as crenças, as festas, as lendas, os contos, a  literatura, os jogos, a gastronomia, a toponímia, as fontes orais (normalmente passadas através dos idosos, que são excelentes fontes de informação.), as tradições, as técnicas artesanais, etc.

Realmente o nosso património cultural é o que nos distingue dos outros. Assim, há que olhar conscientemente para o património que nos rodeia, valorizando-o e salvaguardando-o, porque é nosso, descreve a nossa história coletiva e é algo que ficará como testemunho para o futuro dos nossos filhos e netos.

Falar em património cultural, exige uma construção coletiva e democrática, um diálogo permanente de forma que não se permita abusos descarados sobre sítios onde há referências do nosso património local. Refiro-me, por mero exemplo, ao uso de betão na reconstrução das paredes em pedra aparelhada que suportam os poios, ou sobre a calçada tradicional madeirense nos caminhos e veredas. São vários os casos, de desaproveitamento do nosso património cultural, na nossa ilha. Dizem que é mais barato, cobrir com cimento do que recuperar corretamente o original. Mas o barato, por vezes, sai caro. Fico com a terrível sensação, que o que importa mesmo é fazer obra, para inaugurações de fachada, ignorando por completo o valor cultural do passado.

Claro que, felizmente, também há casos de sucesso, na recuperação e salvaguarda do património. Mal seria se tudo fosse uma bandalheira em termos de valorização da matéria patrimonial.

Por isto, é que temos que ser pontos proativos na divulgação e salvaguarda do nosso património, que contribui para a formação de indivíduos ativos e conscientes. Ter conhecimento do património coletivo e inclusivo contribui, e de que maneira, para o sucesso da nossa aprendizagem.

Envolver a população para ter, cada vez mais, noção da importância do seu passado é construir uma comunidade consciente, que valoriza o património cultural local.

Considerando a convenção para a salvaguarda do património cultural imaterial, pela “UNESCO”, reunida em Paris de 29 de setembro a 7 de outubro de 2003, o ser humano deve ter uma ligação emocional ao passado, de forma a que o próprio e cada um, desempenhe um papel importante na produção, salvaguarda, manutenção e recriação do património cultural,

A divulgação e promoção da educação patrimonial, são questões de dizem respeito a todos, cabendo particulares responsabilidades, mestas áreas, às entidades que regem os vários territórios. Mas será que as instituições públicas dão a devida importância ao património local?

Apostar na educação patrimonial é outra forma de ver, ouvir, sentir e construir um mundo melhor. Daí que devemos criar o gosto coletivo pelo património local, dando valor às origens. Mas isto só se consegue se formos capazes de incluir a comunidade em atividades sobre o património local, nomeadamente, através de debates, exposições, folhetos, workshops, pois todos têm o direito a conhecer o seu património. O ideal seria trilharmos um caminho na educação e valorização patrimonial, tal como temos vindo a fazer, há anos, na educação ambiental.