O peso do chumbo

Um aluno que chega ao fim do ano sem saber, chumba ou não chumba?

Parece absurda esta pergunta. Claro que chumba. E claro que deve chumbar. Pelo menos é que nos diz o senso comum. Senso comum, aquilo que para António Costa não serve para avaliar estas matérias. E pelos vistos, nenhuma outra.

Permitam-me discordar de António Costa. O que acontece amiúde.

Mas vamos por partes. Na verdade, nesta matéria, eu vejo muitas partes. Estou é a ter muita dificuldade em ver o todo. Infelizmente não sou a única.

Quanto mais leio e oiço sobre esta matéria, mais me parece que as discussões são inúteis. Porque uns falam de alhos e outros respondem bugalhos. E ainda tive de googlar o que era um bugalho.

Tudo começa com um item constante do programa eleitoral do PS, transposto para o Programa de Governo: criar um plano de não retenção no ensino básico, trabalhando de forma intensiva e diferenciada com os alunos que revelam mais dificuldades.

Eu li e percebi. Acho. Até tenho um certo orgulho nas minhas capacidades interpretativas e de conhecimento da língua materna. Mesmo não sabendo o que é um bugalho.

Concluí que seria planificar um conjunto de medidas e/ou processos para impedir as reprovações escolares. Mas também pode ser para evitar as reprovações, em vez de impedir. E aí já o caso já pode mudar radicalmente de figura.

Afinal a ideia é impedir – proibir – as reprovações ou evitar – fazer o possível para que não aconteçam?

Já começo a duvidar das minhas capacidades interpretativas.

Mas, para tirar dúvidas, nada melhor do que ouvir o debate quinzenal no Parlamento sobre esta matéria. Certo? Profundamente errado.

Posições extremadas e perguntas básicas não respondidas.

Afinal, um aluno que chega ao fim do ano sem saber, chumba ou não chumba?

Fiquei sem resposta. Eu e acho que todos nós. Honrosa exceção a alguns comentadores socialistas que juraram a pés juntos que o Primeiro-Ministro foi claro. Devem ter algumas legendas especiais que o meu pacote básico da MEO não contempla.

Serão passagens administrativas como corolário socialista? Mesmo diferentes, todos são tratados como iguais? Obviamente que não, parece. Então como será? Inconclusivo.

E como é que uma medida de um programa de governo pode ser tão indeterminada, imprecisa e ambígua? Essa é que é uma boa pergunta. É para testar as águas e preencher conforme conveniente?

Decidi ver o que diz Tiago Brandão Rodrigues sobre isto. Talvez seja o Ministro da Educação quem percebe afinal disto. A ideia é “acompanhar mais de perto os alunos que têm dificuldades, de forma a acabar com os chumbos”.

A politicamente correta “não retenção” – porque reprovação, não só o ato como a palavra pode ser traumatizante – e depois o ministro a rematar com “chumbos”. Que delícia.

O Ministro falou e disse. Exceto o que não disse.

Afinal, um aluno que chega ao fim do ano sem saber, chumba ou não chumba?

Indeterminado.

E entre isto, os resultados do PISA, os argumentos esgrimidos pela Conselho Nacional de Educação, os aduzidos pela Federação Nacional de Educação ou pela Confederação Nacional de Associações de Pais, fiquei cada vez mais baralhada.

E a saber que há muitos mais Conselhos, Federações, Confederações e congéneres do que imaginava.

Muni-me do tal mal-afamado senso comum e, na perspetiva enviesada da ótica do utilizador, usei a cabecinha para pensar. O mantra que impinjo sistematicamente às minhas filhas.

Portugal é um dos países da OCDE com uma das mais elevadas taxas de reprovação escolar. Não há maneira agradável de ver isto.

Uma reprovação poderá ter resultados positivos em alguns casos, é certo. Assim de repente, conheço pelo menos duas pessoas bem sucedidas que perderam um ano. Serviu para reorganizar prioridades e fez delas pessoas mais resilientes. Mas foi assim porque tinham uma família que as apoiou – depois do costumeiro puxão de orelhas – andavam em boas escolas e puderam frequentar explicações.

Pelo contrário, a maior parte dos alunos a quem isto acontece perde mesmo o ano. Perde-se, esfuma-se e não serve para nada aquele ano. Porque a maior parte dessas crianças provém de meios socioeconómicos carenciados, sem apoio familiar e acabam nas temíveis turmas de repetentes.

Para que serve rotular estes alunos e pô-los mais um ano a ouvir a mesma coisa – mesmo aquelas disciplinas que fizeram com aproveitamento – dita exatamente da mesma forma, mas a outra voz? Será que esta é uma boa estratégia? Aparentemente todos os estudos respondem negativamente. E o meu senso comum tende a concordar.

Se as passagens administrativas são um facilitismo inaceitável, esta também não é uma forma de facilitismo? Não sabe, deveria saber e portanto chumba. Daqui lavo as minhas mãos.  Para o ano há mais.

E dou por mim num beco sem saída. Não podem haver passagens administrativas. As reprovações também não são a solução. E agora?

Agora pensa-se no problema como deveria ter sido sempre pensado. Resolvendo as coisas a montante e não a jusante. Envolvendo a comunidade, os professores, os pais. E os alunos. Porque não?

As reprovações não são a doença. São um sintoma. Não temos de aboli-las, temos é de evitar que sejam sequer necessárias.

Dotar as escolas de meios. Materiais e humanos. Dar formação aos professores e condições de trabalho. Permitir flexibilidade curricular às escolas, para que se adaptem convenientemente às especificidades dos seus alunos e ao meio social onde se inserem.

Confiar nos professores.

Empregá-los para dar apoio aos alunos que precisam em vez de os incentivar a emigrar.

Não deixar nenhum aluno para trás. Essa é que deve ser a ideia.

Mas e se tudo isto falhar?

Custa-me que o Governo, que é exatamente aquele que impõe pesadas restrições financeiras ao Ministério da Educação e que deixa maternidades e urgências fechar por razões meramente economicistas, tenha esta poderosíssima válvula de escape.

Bem, tentámos tudo – assim dirão eles -, não resultou, mas vai passar na mesma.

Uma válvula de escape que lhes permitirá poupar uns estonteantes 250 milhões de euros.

Acho que é um perigo incalculável.

E por mais voltas que dê à coisa, não concebo a ideia dum aluno passar sem saber. Até porque quando não se sabe juntar o “p” com o “a”, nunca se vai escrever papoila.

E pagaremos todos nós, um custo muito superior aos tais 250 milhões, quando tivermos uma sociedade de incapazes.

Mas afinal, um aluno que chega ao fim do ano sem saber, chumba ou não chumba?

Não sei. Pelos vistos ninguém sabe ainda. Vamos ter de esperar pelas cenas dos próximos capítulos.

Porque é que um aluno chega ao fim do ano sem saber e como mudar isso?

Essa é que deveria ser a verdadeira pergunta. Isso eu sei.