A luta de todos

Foi bom ver a geração dita tão despreocupada pelos problemas do nosso mundo, na ótica dos velhos do Restelo das antenas televisivas e manchetes jornalísticas.

 

Foi bom ver, na passada sexta-feira, 1500 pessoas despreocupadas no Porto, 200 na Guarda, 300 em faro e mais umas quantas na Madeira. Ou ainda, numa escala mais global: 150 mil em Milão, 35 mil em Haia ou em Roma com 200 mil. Juntaram-se outros tantos por Barcelona ou Holanda. Enfim, aquela malta que, está claro, de tudo faz para faltar às aulas. Até uma greve climática faz, vejam lá vocês.

 

A geração rasca, sem qualquer sensibilidade ou responsabilidade social e tão desinteressada pelo futuro, habituada a ter tudo de mão beijada e não lutar por nenhum ideal individual ou comum.

 

Malta que está despreocupada com a subida da temperatura, com a pegada ambiental, com a neutralidade carbónica, com a emigração em massa, com o degelo, com a extinção de algumas espécies ou até com o desaparecimento de grandes porções de terra. Gente apática. Sem noção. É só uma moda.

 

Nem Greta Thunberg, de 16 anos, é perfeita. Mas quem é que ela pensa que é? Ir à reunião da ONU ensinar adultos sobre as emergências mundiais atuais? Dizer que se não agirmos agora e com políticas a sério que não vamos conseguir recuar? Dizer que lhe destruíram a infância? “Come on… grow up”, pensam eles, com cifrões escarrapachados nos olhos.

 

O ativismo de Greta não termina nela própria. Greta representa cada jovem que tenciona ficar cá por alguns (muitos) anos sem ver o seu planeta a desmoronar-se.

 

Pode-se questionar algumas intervenções da mesma. Mas nunca o seu ato ativista genuíno e capacidade de mobilização de massas, tornado-a, inevitavelmente, a grande protagonista da batalha do clima a nível mundial, sensibilizando outros tantos jovens.

 

E, em boa verdade, não podemos simplesmente ignorar o conteúdo e deixar de aplaudir, goste-se ou não da forma ou do estilo.

 

Mas não vamos também cair no ridículo. Os pés têm de estar assentes em terra firme quando emergem radicalismos e temos que ser o mais pragmáticos e conscientes possível.

 

Não achamos racional acabar com os aviões ou com outros avanços que compõem a história da nossa evolução e que nos facilitaram e facilitam imenso a viver num mundo cada vez mais globalizado.

 

Não vamos proibir a carne e derivados animais, que contam com milhares de anos na nossa alimentação para tirarmos as alfacinhas dos animalzinhos.

 

 Não vamos perder o que conquistámos com avanços científicos e tecnológicos.

 

Vamos, ou pelo menos deveríamos: sensibilizar, educar, mostrar, argumentar, provar. Não vamos: proibir ou impor. Todos: pequenos e graúdos. A luta não é de uns contra os outros, não é de velhos contra novos.

 

E é bom que os jovens saiam à rua, que finquem pé, que abracem causas e sejam ativos na construção de um futuro melhor. Até porque os velhos do Restelo conhecem-nos pelos chatos que sonham alto e pensam que conseguem mudar o mundo, mas que nunca fazem nada.”