Mota Torres recorda tempos de líder da oposição: sem arrependimentos por ter sido sempre cordato e não beligerante

Fotos Rui Marote

Foi cabeça de lista nas eleições regionais do ano 2000, pelo PS Madeira. Mota Torres cultivou um estilo próprio, educado e não beligerante, aparando os golpes de Alberto João Jardim sem nunca perder a compostura, e encabeçando a oposição numa altura em que isso significava ser sujeito a toda a sorte de enxovalhos. Contra os que o incentivavam a responder à letra ao presidente do Governo Regional de então, mantinha que nunca iria abandonar uma postura cordata e civilizada. O histórico socialista recorda essa época confessando que, “independentemente dos estilos, a luta política com os nossos adversários políticos, na sua agressividade e desregramento, eram os “ossos do ofício”. Por respeito para com a democracia e as suas regras, enjeitei sempre comportamentos que a manchassem na sua visibilidade e capacidade atractiva, preferindo um certo pendor pedagógico que sublinhasse a sua dignidade e convidativo o seu apelo. Daí que o quotidiano da política, mesmo nas suas versões mais hard-core, fosse por mim encarado como (quase) natural e tivesse, muitas vezes, o cuidado de disfarçar as minhas indignações para tentar que o normal, o adulto, o sério, o propositivo e o debatível sobressaíssem realçando o pluralismo, a diferença, as razões de uma escolha, a grandeza do regime que vivemos”.

Diferente e mais prejudicial, lembra, foi a “injustificada e injustificável instabilidade criada dentro do PS-M que, pela sua intensidade, pelos seus protagonistas, pela sua dimensão e pela sua visibilidade, escondeu a capacidade propositiva do PS-M, obliterou um bom programa eleitoral de governo, deu a imagem pública de um partido intranquilo, em alvoroço e onde ninguém se entendia, e portanto, incapaz de corresponder de forma honrada e séria às responsabilidades de que estava imbuído. Do pormenor, porque respeito o Partido em que milito há quarenta e quatro anos, o PS, não falarei, mas, para que seja possível um ensaio de iniciação ao tema, recordo um episódio, confirmado pelo próprio, sintetizável neste breve diálogo entre um independente (?) próximo (?) do PS e um seu familiar, profissional da comunicação social, ocorrido em 1999 no dia seguinte às eleições para a AR e, passo a citar, “F…, o Mota Torres, ontem, teve um bom resultado eleitoral; agora é preciso dar cabo dele.”

Mota Torres, enquanto foi responsável máximo pela vida do PS na Região, nunca deixou de assumir as responsabilidades que entendia caberem-lhe enquanto tal. Por isso não evitou nenhum dos desafios de que se sentia capaz.

“Não por vaidade e, muito menos, por deslumbrada ambição, mas por entender que era essa a minha obrigação e, mais, por ter a percepção, porventura errada ou distorcida, – a avaliar por comportamentos que, de forma óbvia e notória, militavam em sentido contrário -, de que era essa a atitude que os militantes do PS, simpatizantes e os cidadãos em geral esperavam de alguém que tinha assumido a responsabilidade de os pretender representar e de, assim, responder aos seus anseios, às suas expectativas e, quantas vezes às suas mais do que legítimas impaciência e esperança”.

Foi com esta postura e convicção que, nos últimos três anos do século passado, assumiu em nome do PS-M, a candidatura à CMF, em 1997, “mantendo, no essencial, os resultados da eleição anterior; fui cabeça-de-lista à Assembleia da República em 1999, em que, pela segunda vez, o PS-M volta a eleger dois deputados e, ao que parece, percentualmente, com o melhor resultado de sempre até então”.

Apesar de tudo e das lutas no interior do PS que recorda notoriamente com alguma perceptível amargura, lembra que em 2000, “e no meio desta tensão e dos seus devastadores efeitos, (ainda) foram eleitos 13 (treze) deputados do PS-M para a ALRAM; os mesmos que na eleição anterior”.

“Já passou”, diz hoje. E, recordando Maria Barroso referindo-se a Mário Soares, de quem dizia que “… o Mário perdoa, mas não esquece!”, diz que lhe apetece nesta ocasião, sublinhar a afirmação e aplicá-la a si próprio: “o meu problema, ainda, – e já só -, é a memória…”, ironiza.

“Devo dizer, porém, que o PS-M cumpriu sempre os seus estatutos, os órgãos neles previstos funcionaram de forma regular e as estratégias delineadas foram-no de forma colectiva, participada e democraticamente inatacável. Difícil é dizer se essas estratégias, e as correcções tácticas a que foram sendo sujeitas, eram as mais adequadas à situação, à correlação de forças, à experiência de poder na Região e à prática política que os cidadãos foram interiorizando ao longo de quase três décadas, reportando-nos à 2000.
Alguém dizia que “não insulta quem quer, insulta quem pode”, e, francamente, senti que quem o fazia, manifestamente não podia”, esclarece.

“E, não, não me arrependi do meu comportamento e resisti a todas as tentativas para que eu “endurecesse” o meu discurso: “tem de ser como ele”, “tem de ‘lavar’ mais, o povo quer mais agressividade”, “tem de usar as mesmas armas…” etc. E o decisivo não era isso, era, isso sim, o combate a um poder longo, carismático, consolidado, com meios, – financeiros e outros -, com discutíveis métodos e práticas, sob o ponto de vista democrático, nomeadamente no relacionamento com a oposição, na indisponibilidade para o diálogo e para os consensos que se revelassem necessários, na ausência, ou incumprimento, de regras protocolares elementares, protegido pela (quase) total complacência nacional, na assumida falta de um visão estratégica para o desenvolvimento regional assente em pilares sólidos e em maiorias representativas da pluralidade exigida, no acordo indispensável para a construção de uma autonomia que, em vez de regateada, fosse o resultado de um debate eloquente e profícuo junto da soberania, estes aspectos, estes sim, repito, eram o travão maior ao PS-M e à sua ambição de mostrar que era capaz de corresponder à vontade dos cidadãos e de lhes renovar a esperança em dias melhores e mais saudáveis sob os pontos de vista económico, social, cultural e político”.

Hoje, à distância de quase duas décadas, considera que em 2000, o PS-M apresentou ao eleitorado um bom Programa Eleitoral de Governo. “Perdeu-se um pouco no meio da turbulência havida mas, como outros, ao longo da minha vida política cujas responsabilidades nunca recusei, cumpria política, social e eticamente”.

“Tenho, sobre mim, a segurança prudente de quem acha que não deve prometer se não puder cumprir; de que poderia ter feito mais, e sobretudo melhor, se outras fossem as condições envolventes; que ao fim de 44 anos na Região, tem o sentimento de lhe ter dedicado a maior parte da sua vida com um objectivo maior e mais nobre: servir”, conclui Mota Torres.