Credo, que Deus me livre! Eu não quero ficar assim!

O cérebro, como só ele, armazena milhares de informações por dia. Algumas relevantes, outras nem tanto. Basicamente, começa por recolher informações, organiza-as e envia cada uma para um arquivo específico, sendo que outras vão para a reciclagem ou para o lixo, traduzindo o processo em moderna linguagem informática.

Embora o esquecimento faça parte do processo de aprendizagem, todos nós alguma vez nos confrontámos com essa traição do cérebro, às vezes, nas horas mais inconvenientes. Aliás, com vosso perdão, nem todos. Todos, menos os “convidados de honra” das Comissões parlamentares de inquérito.

Cientificamente falando, está comprovado que a rede de ligações neuronais é mais densa no indivíduo que utiliza o cérebro mais intensamente e menos densa naquele que, em qualquer fase da vida, deixe de estimulá-lo. Falta de estímulo cerebral. Ora, nem mais. Aqui está a explicação para as amnésias totais, as patológicas “brancas”, o clássico “agora, assim de repente, não me lembro…” ou os esquecimentos seletivos dos “convidados de honra” das Comissões parlamentares de inquérito da Assembleia da República. Bem que eu suspeitava. Afinal, é tudo uma questão de maior ou menor densidade das redes neuronais. Basta que sim!

Quanto às ditas comissões, uma pergunta urge aqui fazer (a questão essencial, em politiquês, puro e duro): afinal, para que servem?

Nada como espreitar o que reza o Regime Jurídico dos Inquéritos Parlamentares.

Cá vai: no seu artigo 1.º, Funções e objeto, designadamente no ponto 1, determina-se que “Os inquéritos parlamentares têm por função vigiar pelo cumprimento da Constituição e das leis e apreciar os atos do Governo e da Administração”. Já no ponto 2, fica definido que “Os inquéritos parlamentares podem ter por objeto qualquer matéria de interesse público relevante para o exercício das atribuições da Assembleia da República”.

E vai daí? Vai daí, o “filme” resume-se ao ritual do costume. Escândalos uns atrás dos outros, Comissões outras atrás das umas.

Só para não pegarmos no sono, mudam-se os protagonistas, verdadeiros atores merecedores do avesso dos Óscares, os chamados Framboesas de Ouro, ou Golden Raspberry Awards, apelidados carinhosamente de Razzies (estatuetas anuais, feitas de plástico, com um valor de US$ 4,97) para as piores realizações em filmes, com categorias que vão desde o óbvio (pior Filme, Ator e Atriz) até aos mais diversos (pior Remake, Rip-Off ou Sequência, entre outros).

O “elenco” que já por lá esteve “em cartaz” (alguns dignos de comendas e “reconhecido mérito”)  tem sido muito heterogéneo, no entanto, o argumento e a encenação mais não deixam que a memória das más interpretações, a par de uma sensação, melhor, uma certeza, de “déjà vu”.

Tal como na mentirosa verdade desportiva, grassa a mentira, assim mesmo, “sem medos”, na desportiva. Pode dizer-se que a plasticidade é uma das características da memória, que tem de ser modificada a cada instante para que não sejam guardadas informações desnecessárias ou, diria eu, nestes casos dos “convidados”, incómodas e inconvenientes.

Consequências? Resultados? Invariavelmente, o resultado dos trabalhos é sempre inócuo ou inconsequente. Um limbo de dúvidas e incertezas. Claro, as Comissões não são tribunais, dir-se-á com razão, mas não é menos verdade que alguns dos senhores deputados poderiam evitar risinhos, de quase simpatia, por exemplo, para com Oliveira e Costa, ou sujeitar-se, absolutamente impotentes, à estarrecedora dramatização  e enxovalho de Joe Berardo, que, mesmo pontapeando a gramática portuguesa, a inteligência e a indignação dos portugueses, fez saber que não deve nem um cêntimo, paga um poucochinho de renda de casa e só tem uma garagem. Faz lembrar alguém que dizia que 10.000 euros não lhe chegavam para despesas, mas “em mais triste”. Ch(oremos)!

Enfim, como estas doenças crónicas de falta de memória e de negação se alastram gritantemente, num assustador contágio, cumpre-me, por imperativos de misericórdia cristã, deixar aqui algumas dicas, em jeito de receituário, a ver se os pacientes/utentes recuperam a memória ou, ainda mais difícil, para não dizer impossível, a consciência.

Então, é assim:

  1. Praticar exercícios aeróbicos; 2. Mastigar pastilhas elásticas; 3. Beber café; 4. Meditar para melhorar a memória de trabalho; 5. Comer frutos vermelhos para melhorar a memória a longo prazo; 6. Dormir mais para consolidar memórias; 7. Exercitar o cérebro. Por exemplo, ir às compras e, à medida que colocam os alimentos ou objetos no carrinho, tentar calcular mentalmente o valor total das compras (impraticável para alguns governadores/supervisores do Banco de Portugal, e afins). Fazer palavras cruzadas é, também, uma forma de melhorar a memória.

Voltando aos “convidados de honra” das Comissões, parece-me avisado deixar um “recado” de Camões numa estância muito atual. Infelizmente, de uma atualidade preocupante e assustadora:

 

“E ponde na cobiça um freio duro,

E na ambição também, que indignamente

Tomais mil vezes, e no torpe e escuro

Vício da tirania infame e urgente;

Porque essas honras vãs, esse ouro puro,

Verdadeiro valor não dão à gente:

Milhor é merecê-los sem os ter,

Que possuí-los sem os merecer.”