O Café de Lenine, de Nuno Júdice

 

Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

 *Docente na Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira / Investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa (Projecto: “Viagem e Utopia”)

 

Recentemente homenageado no Festival Literário Internacional de Querença (FLIQ), Nuno Júdice tem um percurso notório, em particular, no âmbito da poesia, da ficção e do ensaio. Como poeta, tem sido distinguido como uma das vozes mais emblemáticas da literatura portuguesa. Destacamos, a título de exemplo, o Prémio Internacional Europa in Versi/Premio Carreira, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana ou o Prémio Poesia Poetas del Mundo Latino Víctor Sandoval. Professor universitário e diretor da revista Colóquio-Letras da Fundação Calouste Gulbenkian, Nuno Júdice foi também galardoado no campo da ficção com o Prémio Guerra Junqueiro.

A Implosão, a Conspiração de Cellamare ou O Café de Lenine, entre as várias possibilidades narrativas que o leitor tem ao seu alcance, proporcionam momentos de deleite estético e um enriquecedor exercício intelectual.

Publicada em 2013, A Implosão reenvia para uma época de crise económica e política provocada pela globalização numérica e pelo efeito da Troika em Portugal. Entre real e ficção, o título do livro torna-se, pois, significativo. Uma democracia em risco leva o País a conhecer tensões políticas, culturais e identitárias. Trata-se de um texto comprometido, de filiação à literatura de denúncia, como tem sido referido por alguns estudiosos da ficção judiciana.

Por sua vez, A Conspiração de Cellamare apresenta um teor mais intimista e lúdico. Publicado em 2016, o livro pretende desvendar o passado de um familiar da voz do texto. O narrador, que se (con)funde claramente com o autor, pretende descobrir o passado de António Giudici, seu parente, co-responsável pela conspiração de 1718, cujo propósito consistia em juntar a coroa de Espanha e a de França nas mãos de Filipe V.  A Conspiração de Cellamare não é, contudo, um romance histórico. Apresentando-se como um diário e, ainda, como uma escrita de investigação, a viagem ao palácio de Nápoles permitirá tecer uma reflexão sobre tempos diferentes e vozes distintas. Ao convocar algumas vivências de Caravaggio, Casanova, Sade, entre outros vultos da cultura europeia, a narrativa híbrida sublinha a provocação que se estabelece entre o autor e o receptor.

Ao “prazer do texto” soma-se a riqueza da leitura. Tal acontece com o mais recente livro de Nuno Júdice. Publicado pela D. Quixote, em fevereiro de 2019, O Café de Lenine apresenta-se como uma curiosa criação literária. Antes de percorrer as páginas da narrativa, aconselho o leitor a deter-se no paratexto. A epígrafe de Aquilino Ribeiro anuncia o mote do livro de Nuno Júdice. Fala da curiosidade de públicos, das vaidades de críticos e de (des)interesses editoriais. É certo que a citação reenvia para uma vida política e literária do tempo aquiliniano. ‘Verdade ou consequência’? Não será antes o espelho de todas as épocas e de todos os tempos? Recuperando, de certo modo, o efeito de constantes históricas, de que nos falou Eugénio D’Ors, não estarão as cartografias, as gentes e os indivíduos animados por um (qualquer) espírito de visibilidade e de ostentação? Em todo o caso, a citação de Aquilino estabelece um pacto de leitura com a escrita de Nuno Júdice. Ao convocar figuras peculiares para a sua narrativa, que se desdobra por onze secções, o autor fá-lo-á com a fina ironia e com o recorte humorístico que lhe são, felizmente, habituais.

O escritor pretende dar a lume um romance, muito embora anuncie ao leitor não saber como começá-lo e muito menos como conclui-lo. As estratégias de construção desta narrativa são problematizadas pela voz do texto, captando, desde logo, a atenção do leitor: “Nunca soube qual a melhor maneira de começar um romance, ou antes, talvez sempre tenha sabido a pior maneira de o começar” (p. 9). É, pois, na “sabedoria da incerteza”, como nos recorda Milan Kundera, que assenta esta proposta editorial. Nela, são focadas questões meta-literárias e problemáticas de receção, permitindo ao leitor acompanhar a edificação complexa da arte de romancear na nossa contemporaneidade. A escrita de um romance deve, sobretudo, evitar pastiches, paródias ou imitações.

O Café de Lenine não se apresentará como um romance de feitura clássica. Classificado como “Novela” na página de rosto do livro, o texto será antes uma reflexão ficcional, quer sobre a construção da narrativa, quer sobre o papel dos criadores, quer, ainda, sobre o resultado das criações literárias. O ato criador que subjaz à escrita ficcional de Nuno Júdice remete-nos para renovadas questões: à da construção da narrativa junta-se uma elaboração de mundos ambíguos, bem como uma edificação de relações curiosas. Apraz-me registar esta hibridização de sentidos porque todos emprestam modos próprios de contar verdades ou de recriar ilusões.

Este ‘ensaio lúdico’ sobre a (des)construção da narrativa interpela a comunidade leitora e permite desvendar um rico intertexto, ora quando o escritor convoca a literatura francesa, ora quando recorda o cânone literário ocidental. Acompanhamos o Fabrice, de Stendhal, e refletimos sobre a sua missão em Waterloo. Recordamos a Emma Bovary, de Flaubert, e questionamos a essência desta personagem na obra do romancista francês. Apesar de se confessar francófilo, deparamo-nos com outras figuras interpostas do panorama da Literatura-Mundo.

Num diálogo que abrange as mais diversas épocas e cartografias, Daniel Defoe, Lamartine, Kafka, Sartre, mas também Cervantes, Antero ou Pessoa povoam o texto de Nuno Júdice. Neste jogo intertextual de cumplicidade entre autor, narrador(es) e personagens (literárias ou reais), os leitores tornam-se também eles vozes de um texto que procura “dizer” a sua modernidade. Desdobrando-se pelo romance, pelo diário e pelo ensaio, a escrita de Nuno Júdice procura, também, responder às duvidas que encerram o livro: “A literatura ainda tem lugar no mundo?” (p. 96). Pode ser um “conjunto de memórias» (p. 101) e lugar de questionamento?  Pode ser espaço de (re)encontros improváveis e de exemplificação curiosa? Pode, ainda, recriar mitos ou dar-lhes renovadas formas?

Independentemente da resposta que quisermos engendrar, a narrativa judiciana convida o leitor a acompanhar o que poderia ter sido o encontro entre Lenine e Guerra Junqueiro, vozes que se encontram já referidas em A Implosão. Num construto simbólico em torno do devir da Europa e das sociedades contemporâneas, o espaço de um café poderia ter reunido dois vultos incontornáveis do panorama cultural, político e ideológico europeu. Encontravam-se ambos na Suíça, O encontro, que nos dias de hoje teria um mediatismo a toda a prova, poderia ter acontecido, num café de Berna, nos idos anos de 1913 ou 1914. A tertúlia não aconteceu. Mas a ficção, no seu pacto com o leitor, ditou a possibilidade de encontros improváveis. Guerra Junqueiro acreditou na renovação da sociedade. Filiado agora num sentimento disfórico em torno das derivas da pátria, o poeta, que também foi deputado e jornalista, parece ser descrente do devir português. Por sua vez, Lenine, teórico político russo, acredita numa renovada proposta social, tornando-se uma das vozes da utopia socialista. Dois sentimentos distintos. Um texto sobre paradigmas, rumos ou desistências. Trata-se, em todo o caso, de uma proposta editorial que recupera a filiação atenta ou denunciadora da escrita de Nuno Júdice. Tal como a arte de romancear, a sociedade é feita de tentativas, vontades e utopismos. Independentemente da via, há que apelar a uma consciência crítica.

Por fim, este livro não descura a problemática que tem animado o campo dito das Humanidades, nomeadamente no que diz respeito à situação dos Estudos Literários e dos Estudos Culturais. A emergência de novas áreas e metodologias nem sempre são aceites de ânimo leve. Fruto dos sinais dos tempos, os Estudos Culturais procuram dialogar, por exemplo, com os Estudos Pós-Coloniais. Esta questão é, aliás, aflorada na narrativa de Nuno Júdice.

No livro O Café de Lenine o autor inclina-se para a primazia da Literatura. Contudo, a intersecção das narrativas (fictícias ou reais) com as diferentes vias dos saberes das ciências humanas e sociais podem renovar interpretações. Quer concordemos, quer não, o certo é que temos pontos em comum. Tendo por base o Comparativismo, valorizamos a Narrativa, o Texto e a Escrita. Procuramos mover-nos pelos caminhos da Arte: a arte da linguagem, da observância e da comunicação.

Visto sob este prisma, a Literatura e a Cultura procuram, ambas, percorrer trilhos de descodificação interpretativa. Em consonância, ambas possibilitam uma renovada (re)construção dos mundos que o Livro encerra.

Referência bibliográfica:

JÚDICE, Nuno, O Café de Lenine, Lisboa, D. Quixote, 2019.