Lista alternativa acusa Associação de Barmen de ter uma “gestão fechada” aos profissionais, espaço no Mercado sob críticas de “concorrência desleal”

Emídio Alves
Emídio Alves é a voz do descontentamento relativamente à orientação que a atual direção da Associação de Barmen está a assumir e que, em sua opiinão, não é favorável aos profissionais.

São vários os profissionais de bar que se dizem “revoltados” com aquilo que consideram ser uma “conduta pouco transparente da Associação de Barmen da Madeira”. Apontam o dedo aos responsáveis por esta organização, designadamente ao seu presidente. Consideram que se perpétua no cargo, “são muitos anos e o movimento associativo cristalizou”. Os mandatos são de dois anos, apontam a necessidade de limitar e lembram que Alberto Silva está na liderança há 16 anos, o suficiente para “justificar alternância”. Dizem que “está agarrado ao poder” e não abre “espaço” aos novos nem às inovações. “São sempre os mesmos que aparecem”, critica Emídio Alves, a face visível do descontentamento.

Profissionais não se reveem na Associação

Emídio Alves já fez parte desta direção durante 14 anos e alertou para várias situações, diz que por isso passou a “alvo a abater”. Depois de entrar em rota de colisão com a gestão vigente pretendeu candidatar-se nas últimas eleições, mas esbarrou nas quotas em atraso de alguns dos elementos que componham a lista, fruto de situações que estão para trás e que, em sua opinião, resultaram “num afastamento de profissionais que não se reveem na atual direção”. Sugeriu que os atrasos fossem resolvidos “com uma nova ficha de inscrição, começar de novo”, porque para regularizar os valores “implicaria dispender verbas elevadas, incomportável para a maioria”.

Não perdeu a esperança de retomar essa “corrida” para assumir-se como “alternativa”, já está mesmo a trabalhar no assunto, defende uma associação “credível que dê mais confiança e valor ao profissional Barmen/Barmaid”. Lança uma questão: “Os sócios com quotas em atraso não têm direito a voto nem podem pronunciar-se, mas podem entrar nos concursos regionais, nacionais e em festivais?”

Três mil profissionais na Região, 25 sócios pagantes da ABM

Afirma falar em nome de muitos, diz que há cerca de 3 mil profissionais na Madeira e a Associação “é pouco representativa, é de alguns, não tem mais do que 25 sócios pagantes”. Um cenário que preocupa os críticos, que pretendem “dar uma volta” à organização daquela estrutura sindical. Diz que a sede “está sempre fechada”. Emídio Alves afirma que “o presidente trata dos assuntos diretamente de casa”. Defende uma Assembleia Geral para apresentar o relatório e contas, mudar estatutos e marcar eleições, acusa a direção em funções de ter apresentado um relatório “onde constavam apenas produtos de alimentação e bebidas vendidos, não constam as contas dos workshop pagos, as quotas dos sócios efetivos e a verba doada pela Câmara Municipal do Funchal, de 2500.00 anuais”.

Na Assembleia de 27 de fevereiro, conta, “fui informado que não houve lucros e que a Associação tinha uma dívida de 3 mil euros. Acontece que a Associação de Barmen nunca pode ter dívidas, uma vez que, para além de estar a explorar um bar no Mercado dos Lavradores, que se encontra aberto das 9 às 18 horas, é favorecida com eventos anuais, como por exemplo na Placa Central, mas nem sempre paga arrendamentos pelas barracas, contando com a colaboração de várias empresas. Por isso, é estranho ter dívidas”.

Câmara atribui espaço e isenta de taxas

O espaço que a Câmara atribuíu, no Mercado dos Lavradores no terraço, é disso exemplo. O acordo é de agosto de 2016, onde a Autarquia lembra a atribuição, à ABM, da medalha de mérito municipal, grau ouro, atribuída nesse mesmo ano. E os argumentos de valorização da Associação não ficam por aqui, a Câmara justifica a atribuição do espaço por estar vago “devido às sucessivas desistência dos concorrentes, tratando-se de um espaço cuja localização obriga a uma visita obrigatória a boa parte do mercado”. Lembra, ainda, que o regulamento dos Mercados Municipais permite “excecionar o caráter oneroso da ocupação, quando esteja em causa o apoio a atividades de interesse municipal”, além de invocar o caráter não lucrativo da associação. Por isso, segundo o acordo celebrado, justifica-se que há “interesse municipal”, pelo que não há lugar a pagamento. O contrato é por cinco anos, envolvendo a isenção de taxas. A ABM paga água e luz”.

Neste particular, as queixas não se ficam pelos críticos da gestão de Alberto Silva, passaram, também, para empresários que dispõem de espaços no Mercado dos Lavradores e que consideram haver, neste acordo ABM/CMF, uma “concorrência desleal”, em função dos benefícios concedidos à Associação de Barmen e a respetiva concorrência que a atividade desta faz a bares e restaurantes próximos.

Houve mesmo uma situação exposta, onde é referida essa circunstância que envolve, de um lado a ABM, e do outro os inquilinos da própria autarquia, que pagam renda e têm a mesma atividade. Uma situação que apontam como sendo “uma grave injustiça com implicações financeiras que terá sobre a empresas e trabalhadores”, apontando que, numa delas “já foram suprimidos dois postos de trabalho e consideram suprimir outro caso se mantenha a fraca afluência de clientes.

Nessa mesma exposição, os empresários dizem que “todos têm direito à “vida”, com igualdade de oportunidades e de forma leal. O prestígio e visibilidade de uma Associação não deverá ser sobre-beneficiada lesando terceiros. Não consta nos seus estatutos nem é de bom senso a CMF promover concorrência desleal a um ou mais inquilinos no mesmo edifício, ainda para mais quando a ABM tem apoios financeiros do Governo Regional e CMF num espaço nas Cruzes e outro na Nazaré para exercer as diversas atividades para não falar dos inúmeros eventos que são convidados a participar gratuitamente para angariar fundos”.

Críticos querem tudo esclarecido

Emídio Alves quer ver tudo esclarecido, não vai deixar este processo enquanto não alargar o debate entre os profissionais da Região. Acusa a direção de Alberto Silva de “não estar interessada em angariar novos sócios, nem permite qualquer outra lista. Faz Assembleias gerais com um número restrito de 25 pessoas e é assim que já vai em oito mandatos”, acusa.

O seu propósito para a mudança passa, essencialmente, por desenvolver uma ação que vise promover cursos de aperfeiçoamento de bar, flair-tending e mesa, com a periodicidade trimestral, para pessoas que procuram emprego e que não obtiveram certificação. Aponta a uma “nova sede, situada entre a baía do Funchal e a Praia Formosa, aberta, ativa, virada para o turismo e com exibição frequente dos Barmen”.

Pede “gestão transparente e rigorosa”

Antes de mais, Emídio Alves quer “uma gestão rigorosa das contas, com o máximo de transparência, com relatórios mensais e revisto em reunião com todos os elementos da direção. Com resultados afixados e acessíveis a todos os associados da ABM”.

Outro rigor passa pelo conselho técnico nos concursos de cocktails, garantindo a presença da Região em eventos nacionais e internacionais, mas promovendo, sempre critérios de avaliação que assegurem a imparcialidade que a Associação deve ter entre os pares.

Emídio Alves, diretor de Restaurante e Bar do Hotel do Campo, na Ribeira Brava, aponta o dedo a esta direção da ABM por ter formado “um grupo de elite, familiar, não é uma Associação de Barmen, é um negócio de alguns. Não há contas prestadas relativamente às representações que a associação faz em inúmeros eventos regionais, além do bar que a ABM tem no Mercado dos Lavradores, onde pratica preços elevados, não paga rendas e entra em concorrência com os outros concessionários”.

Escola de formação e não fotografias para o Facebook

O objetivo de futuro passa “por uma escola de formação, que vá além do facebook e de fotografias para show-off”, uma estratégia que chame os profissionais e não que os afaste. Queremos um projeto que seja convergente, mantendo os colaboradores que são importantes, mas fazendo da ABM um espaço de todos e para todos. Estou com uma grande vontade de trabalhar num novo projeto, assumindo-me como alternativa a um sistema que cristalizou e que carateriza a sua orientação através da cumplicidades”.

Aponta, ainda, a uma alteração qualitativa do serviço que é prestado pela Associação de Barmen nos eventos em que participa. “O que for apresentado, deve atender à qualidade, atendendo à responsabilidade que uma Associação deste género tem perante a opinião pública. Uma barraca da ABM não é a mesma coisa que outra qualquer, sobretudo numa região de turismo como é a nossa, em que a presença física de uma Associação de Barmen deve expressar a qualidade do serviço, das inovações em termos de cocktail, não é ter poncha feita e servir. Sou formador há mais de vinte anos e sei aquilo que os jovens precisam em termos de formação, é importante atendermos a isso e acompanhar o que há de novo lá fora”.