Centro de Inclusão Social da Madeira prestes a abrir as portas para receber deficientes profundos e utentes dos Centros de Actividades Ocupacionais

Todo o prédio dispõe de acessos para cadeiras de rodas um pouco por todo o lado, e de amplos pátios e terraços.

Fotos: Rui Marote

Uma nova infraestrutura, de dimensões consideráveis, está presentemente a ser preparada para acolher, na Rua da Levada de Santa Luzia, os utentes do Centro de Deficiência Profunda de São Roque, e bem assim os utentes de todos os Centros de Actividades Ocupacionais (CAOs) do Funchal. Aguarda-os um espaço que permitirá o convívio de pessoas de diferentes faixas etárias, em condições notáveis de qualidade, facilmente constatáveis no local. O Funchal Notícias foi conduzido, numa visita, por Sílvia Vieira, chefe de Divisão de Fiscalização da Secretaria Regional do Equipamento e Infraestruturas, e ficou muito favoravelmente impressionado pelo que esta obra, que chegou a estar durante anos em “banho maria” por falta de verba, promete finalmente oferecer em breve.

O edifício está dotado de amplas rampas de acesso e circulação.

“Neste momento”, refere Sílvia Vieira, os utentes dos CAOs “estavam todos dispersos”, passando todos a serem englobados neste novo Centro, “tendo por objectivo precisamente a inclusão social, uma maior interacção”. Por outro lado, a gestão e a acção do corpo docente fica também facilitada, sendo também possível, entre os professores, um maior convívio e partilha de experiências e vivências.

Bruno Freitas, fiscal de obras, o engenheiro Pedro Maria, da Mota Engil, e Sílvia Vieira, da Secretaria Regional dos Equipamentos e Infraestruturas.

Quando uma pessoa se aproxima, de automóvel, do novo Centro de Inclusão Social da Madeira, não se apercebe de imediato da dimensão portentosa do mesmo. A arquitectura foi, de facto, desenvolvida de forma integrada pela empresa encarregue da empreitada, a Mota Engil, e a volumetria do edifício não choca, enquadrando-se de modo relativamente discreto na paisagem envolvente, levando em linha de conta a escala local, as vistas e a inclinação natural do terreno.

O prédio goza de uma ampla exposição solar, e inclui amplos pátios e terraços susceptíveis das utilizações mais variadas, e ainda zonas de circulação ao ar livre que maximizam essa interligação com a paisagem do anfiteatro que desce sobre a baía do Funchal.

Os quartos estão a ser decorados com simplicidade e bom gosto; mesmo as cores escolhidas para o chão diferem pelas funções do espaço e pretendem ser mais acolhedoras, tranquilizantes ou calorosas.

São cinco pisos, plasmados numa área de construção de cerca de nove mil e novecentos metros quadrados, com o interessante pormenor de que quatro desses mesmos pisos dispõem de acesso directo de nível ao exterior, facilitando em muito as deslocações.

A nossa guia nesta visita salienta as diferentes vertentes em que funcionará o novo Centro: assumirá as funções de um Lar para a Deficiência Profunda, com uma capacidade para 49 camas. São quartos duplos e triplos mobilados com simplicidade e bom gosto, conforme pudemos verificar. Outra vertente que vem somar-se-lhe é a destinada aos utentes dos CAOs. Todos juntos, entre crianças e adultos, são cerca de 172, apoiados por um corpo docente e auxiliar de cerca de 120 pessoas.

“Além da vertente do Lar, o Centro apresenta a vertente de Escola, na qual se desenvolve um conjunto de actividades e terapias”. Entre elas, a sala Snoezelen, para estímulos sensoriais, e que será a única do género na Madeira. Ali os alunos “entram em contacto com texturas”, numa sala escurecida, apenas com alguns pontos de luz, e que visa precisamente despertar os sentidos, num ambiente não ameaçador de considerável relaxamento. A ideia foi desenvolvida por terapeutas da Holanda, no final dos anos 70 do século XX, quando os mesmos se aperceberam de que conseguiam suscitar respostas positivas em pacientes com défices mentais, através de um método que consistia em apresentar-lhes, num ambiente controlado, objectos coloridos, sons, aromas, luzes e cores, obtendo sensações de prazer. Essa estimulação sensorial tem sido alvo de crescente importância como apoio à abordagem clínica.

Na sua maioria, esclarecem-nos os responsáveis governamentais, os futuros utentes do Centro de Inclusão Social da Madeira são adultos, das mais diferentes idades, mas também existem jovens. Essencialmente, as idades variam entre os dezoito e os 60, 70 anos. “São pessoas que têm também, muitas delas, mobilidade reduzida, necessitando de muita assistência; daí que os espaços estejam preparados para isso, sendo todos amplos e dotados de apoios”.

No Centro existem também outras ofertas de qualidade, como um tanque terapêutico, uma espécie de piscina, ao fim e ao cabo, que permitirá que as pessoas com dificuldade em movimentar-se possam fazer ginásticas e terapias na água, o que obviamente muito os beneficiará.

Área de refeitório.

As salas para os utentes dos CAOs oferecem toda uma série de actividades, desde serigrafia a pintura, desde tecelagem a carpintaria ou cerâmica. Todos são servidos por um refeitório consideravelmente amplo, existindo ainda, na zona do lar, um refeitório de fim-de-semana e zona de pequenos-almoços. Não faltam os serviços como cozinha ou lavandaria, abundando também os gabinetes para os profissionais e apoio aos pacientes.

“Pensamos que este edifício ficou bem incorporado na paisagem. É um edifício grande, mas que no entanto, não choca a nível arquitectónico, não só pelas cores que lhe foram aplicadas, como pelas volumetrias. Tinha tamanho para ser agressivo [visualmente], mas não o é. Inclui muitas zonas verdes e ainda um “caminho dos pés descalços”, uma área que está a ser criada com orientação do Centro de Deficiência Profunda, para que os seus utentes tenham aí também mais uma oferta de estímulos sensoriais.

O novo Centro está praticamente concluído. “No final deste mês teremos o edifício todo pronto”, assegura-nos Sílvia Vieira. Actualmente está-se apenas a proceder à gestão técnica do mesmo, dotando-o de camas, mesas, cadeiras, distribuindo-se telefones, ar condicionado, e outros sistemas. O prédio “está todo automatizado, de forma a facilitar a vida de quem cá vai estar a trabalhar. Não queremos que quem cá esteja tenha mais uma preocupação”. Todo o complexo foi criado para ter o mínimo possível de perdas caloríferas, estando dotado de painéis solares.

A construção deste Centro iniciou-se em Outubro de 2010. Entretanto, e como já referimos acima, a obra esteve suspensa a partir de Fevereiro de 2011, voltando a ser retomada em Abril de 2017, refere-nos Sílvia Vieira. A conclusão da obra, em termos construtivos, ocorreu em Novembro do ano transacto. Agora, que se verificam os ajustes finais e que se prevê que o espaço venha a ser inaugurado em breve, procura-se torná-lo o mais acolhedor possível para que a transferências dos seus utentes dos serviços que até agora ocupavam para aqui possa processar-se do modo mais suave possível. Pela própria natureza das suas patologias, trata-se de pessoas que não podem estar expostas a grandes choques, “tendo de vir para um edifício que já esteja efectivamente capaz de os receber. Estamos a tentar ter isso em cuidado”, asseguram-nos. “A Segurança Social anda aqui connosco a desempenhar um papel muito importante, pois estamos a fazer tudo por tudo para que quando eles venham, tudo esteja preparado, e sintam o mínimo possível de diferença. Claro que fisicamente vão notar uma grande diferença no edifício, mas vão ter na mesma os seus professores, que vêm com eles, e terão o mínimo possível de perturbações”.

A Segurança Social está actualmente a rechear o edifício, estando a Secretaria Regional dos Equipamentos e Infraestruturas a colaborar na montagem, para verificar se é necessário fazer este ou aquele ajuste. “Penso que no final de Fevereiro o edifício estará todo em condições para começar a receber utentes. Aí, a Segurança Social, conforme o que entender, começará a trazer os utentes”, acrescenta.

Quando foi pensado, este novo prédio designava-se originalmente “Centro de Apoio à Deficiência Profunda”. Entretanto, no cartaz da obra patente no local, pode ler-se “Centro de Apoio à Deficiência Motora”, Mas, feita alguma reflexão, entendeu-se que “Centro de Inclusão Social da Madeira é o nome que melhor abrange aquilo que serão todas as valências” que o mesmo propõe, a “todos os utentes que necessitam de ter algum apoio”, refere a nossa entrevistada.

Docentes, assistentes operacionais, assistentes técnicos, fisioterapeutas, terapeutas operacionais, e técnicos superiores apoiam neste momento o Centro de Deficiência Profunda de São Roque; em conversa com uma responsável do mesmo, foi-nos dito que ambicionariam ter apoio de enfermagem, mas que não sabem ainda se tal será possível. “Em princípio, vamos trabalhar com os meios até agora existentes”. No entanto, a assistência médica está garantida, como apoio ao lar, pelos Serviços Médicos Nocturnos. Mas esta não é uma Unidade de Saúde, de Cuidados Continuados, não se justificando, dizem-nos, apoio médico em permanência.

No piso 0 localizam-se os gabinetes de apoio, os espaços administrativos, sala polivalente e uma garagem. No piso 1 estão as áreas terapêuticas  e de fisioterapia, salas de aulas, zonas de refeição, serviços de apoio como cozinha e lavandaria, e no exterior um campo de jogos e o já referido “caminho dos pés descalços”. Ali ficará também uma loja de artesanato, onde se pretende vender os objectos que os utentes dos CAOs vão realizando ao longo do ano.

O complexo está dotado de painéis solares, para maior eficiência energética.

Entretanto, no segundo piso situam-se os espaços de formação complementar e um apartamento para treino de autonomia diária, onde os utentes são habituados a desempenhar todas as tarefas necessárias à tão de uma casa, com equipamentos como máquinas de lavar roupa e louça, etc. É neste andar que ficam a sala de têxteis, a sala de cerâmica/pintura, arrecadações, uma cozinha pedagógica, um canil – pois o contacto com animais mostra-se muito terapêutico para este tipo de portadores de deficiência – e também uma horta pedagógica, já que todos eles gostam muito de trabalhar na terra, de lidar com plantas e legumes, e de trabalhos de jardinagem, No piso 2 ficam ainda as salas de aula.

Sala polivalente de convívio e espectáculos.

Já nos pisos 3 e 4 fica o lar, subdividido em quartos duplos e triplos, todos dotados de instalações sanitárias privativas. No piso 3 existe ainda uma pequena cozinha e um refeitório para preparação de refeições ligeiras. Todos os andares gozam efectivamente de uma vista privilegiada, e, ao mesmo tempo, preservam a privacidade de quem os utiliza.

O acesso às zonas de actividade escolar está assegurado por rampas exteriores. O o uso do elevador é, pois, opcional e não uma obrigação. Todo o conjunto está livre de barreiras arquitectónicas, estando assegurado o acesso a carro de bombeiros, ambulância ou outros veículos em todos os pisos com excepção do quarto andar.

O edifício compreende uma cafetaria que poderá ainda ser dada à concessão, ou que poderá ser a própria Segurança Social a explorar, e que se encontra em fase de acabamentos. Poderá servir visitantes e familiares que ali venham, como utentes e docentes. Está previsto também um espaço multiusos e para biblioteca.