Devolver o PSD-Madeira às bases e não fazê-las como “criados” das ordens do Funchal, um alerta do social democrata Filipe Malheiro ao novo Secretariado

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Luís Filipe Malheiro considera que Miguel Albuquerque percebeu o problema e atacou a sua raíz. E diz que “o secretariado do PSD-M tem que ser uma estrutura da confiança do Presidente da Comissão Política Regional e não uma estrutura geradora de conflitos”.

Miguel Albuquerque, líder do PSD-Madeira no pós jardinismo, operou uma mudança no partido, substancial e abrangente, em matéria de pessoas e de tendências internas. Uma mudança inesperada na exata medida da dimensão que se viu. E que, por isso mesmo, indicia uma necessidade que o líder sentiu de “dar uma volta” à máquina partidária, sobretudo na consciência que algumas opções assumidas anteriormente deixaram de ter validade em novos contextos estratégicos da vida política na Madeira, mais exigentes certamente em função de uma concorrência nunca antes registaram um patamar tão forte.

Albuquerque assumiu esta decisão. Disse-o, de forma clara, foram escolhas pessoais, alterações que revolucionaram o Secretariado, todo ele, e a Comissão Política, em grande parte. Com uma preocupação visível de abarcar as sensibilidades, num evidente “confronto” com figuras que acabaram por ter um peso na divisão interna, resultando daí aquele comportamento eleitoral nas últimas Autárquicas.

Secretariado anterior acusado de distanciamento

Luís Filipe Malheiro, um social democrata que já integrou orgãos do partido, conhecedor das questões internas e externas da plítica, hoje comentador, considera, em declarações ao Funchal Notícias, que “Miguel Albuquerque, atendendo ao que se passou desde 2015, fez bem em renovar um secretariado que ele tinha escolhido em 2015 e que pela surdina – há que dizê-lo – era acusado de distanciamento, de alguma falta de experiência e de ter sido, indiretamente, causa próxima de algumas divergências que ainda hoje subsistem nalgumas estruturas partidárias nas freguesias s concelhos”.

Malheiro considera que há a “tendência de comparar realidades diferentes. Iguais no plano partidário, meramente interno ou estatutário, mas politicamente substancialmente diferentes”. E explica:  “Uma coisa é um secretariado de um PSD-M que possui uma maioria absoluta folgada no parlamento, que lidera a esmagadora maioria das juntas de freguesia e mesmo todas ou quase todas as Câmaras Municipais na RAM, outra coisa é um secretariado de um partido que em 2015 se confrontou com os piores resultados eleitorais de sempre, nas regionais e nas legislativas nacionais, que foi incapaz de impedir que a abstenção atingisse valores recorde nesse ano (e a questão da emigração não pode ser um cimento usado de forma oportunista para tapar “buracos” e justificar o injustificável) e que nas autárquicas de 2017 não foi beneficiado com um cenário eleitoral estimulante”.

Pessoas com selo na testa de jardinistas numa intervenção inquisicional

O comentador considera positiva a entrada de certos nomes nos orgãos do partido, nomeadamente no Secretariado, com “experiência e tarimba no que se designa de relações com a vertente mais basista do partido, ou seja, com conhecimento do que deve ser feito para manter as bases mobilizadas e empenhadas”. E é nesse contexto que aponta a necessidade de uma nova estratégia desse mesmo Secretariado, no sentido de “passar a “pente fino” todas as freguesias para apurar que problemas políticos existem e se é possível ou não trazer de novo para a vida partidária pessoas que se afastaram ou foram afastadas, aquelas por opção e desilusão, estas últimas porque levaram com um selo na testa de “jardinistas” como se isso fosse um pecado passível de justificar uma intervenção inquisicional fosse de quem fosse. Felizmente que esta última realidade, que teve consequência em tudo o que se passou eleitoralmente desde 2015, prece estar a ser afastada. Ainda bem”.

Atribuir de novo importância às bases

Luís Filipe Malheiro é de entendimento que “o novo secretariado tem que fazer uma urgente inventariação da realidade partidária interna, ao nível da freguesia e dos concelhos, apurando a existência de focos de contestação ou de descontentamento – identificando as causas de tudo isso – percebendo se a metodologia de trabalho nas relações com as bases é a melhor, atribuindo de novo às estruturas de base do partido a sua importância e um papel politicamente mais participativo e importante em vez se serem olhadas como “criados” das ordens do Funchal e depois serem ignorados quanto se trata de discutir nomes, por exemplo, para eleições autárquicas, já que supostamente serão esses órgãos de base os que melhor conhecem a realidade nas suas freguesias e concelhos”.

Do lado de fora mas muito por dentro, o comentador lembra que “se o secretariado conseguir essa tarefa, de reunir todos de novo, sem diferenciação entre os “renovadinhos” e os pretensos “jardinistas” – como se isso fosse um estigma e não fosse óbvio que a esmagadora maioria dos acuais dirigentes foram dirigentes, deputados, autarcas, etc no tempo em que Alberto João Jardim liderou o PSD-M e a Região – acho que poderão começar a ser resolvidos os problemas”.

Eleitos não terão tempo a perder

Relativamente à parte prática, considera relevante uma intervenção rápida e eficaz, tendo em vista os desafios que se colocam ao partido em 2019. É preciso um plano de ação. Lembra que 2019 “é um ano triplamente eleitoral e muita coisa vai depender do que acontecer até final do ano – porque os eleitos não terão muito tempo a perder. Se as europeias de Maio de 2019 correrem mal – e acho que a crise europeia e a desconfiança, a par do aumento de um discurso mais radicalmente de direita e de contestação a esta realidade europeia crescentemente patética – o PSD-M poderá ficar numa posição ainda mais difícil nas eleições seguintes. Difíceis em termos de mobilização dos eleitores. Uma das tarefas importantes é manter a mobilização das pessoas (não apenas dos filiados porque só com esses nenhum partido ganha eleições), para evitar que elas fiquem saturadas com constantes idas às urnas e acabem por engrossar a abstenção penalizando não apenas os partidos mas permitindo que se questione a representatividade dos eleitos”.

Campanhas eleitorais serão exigentes

Observa, a esta distância temporal, não faltando no entanto muito tempo para a primeira consulta popular, das três previstas para 2019, reforça a ideia que “as campanhas eleitorais serão exigentes, desgastantes, precisam de toda a máquina no terreno, precisam que se leve alegria e confiança à política, necessitam de recursos – que confesso não sei se existem – precisam de imaginação, de contactos diretos com as pessoas, de saber passar a mensagem aos eleitores, de cativá-los para uma espécie de renovação de um contrato de confiança, precisam de mobilizar os cidadãos, de combater a ameaça da crescente abstenção, perigosa para qualquer democracia”.

Secretariado deve ser de confiança do Presidente

E neste quadro explica-se a decisão muito própria e isolada de Albuquerque: “O secretariado do PSD-M tem que ser uma estrutura da confiança do Presidente da Comissão Política Regional e não uma estrutura geradora de conflitos – lembro que há uns anos os secretariados partidários foram diabolizados depois da “guerra” surgida no PS entre Mário Soares e os elementos do “ex-secretariado”, entre os quais Vítor Constâncio e Jorge Sampaio – pelo que não comento nem os nomes, a maioria dos quais conheço, nem as opções de Miguel Albuquerque, cuja liderança defendo totalmente”.

Enquanto social democrata de base, considera que “ao contrário do que alguns pensavam demonstrou, por sua iniciativa ou bem assessorado, que percebeu o problema e atacou a sua raíz. Resta fazer uma avaliação pragmática depois de 2019, porque não são as mudanças de nomes que dão votos aos partidos, nem a melhor ou pior metodologia de trabalho e presença no terreno garante sucesso. Os eleitores é que decidem e já não vão nessas conversas moles, seja do poder ou da oposição, nem confundem actos eleitorais diferentes nem responsabilidades pessoais também diferentes”.

Sobre a estrutura interna e a forma de eleição, no âmbito dos estatutos do PSD-Madeira, Filipe Malheira dá uma opinião, pessoal e política: “Eu sempre fui, e continuo a ser, contrário à eleição do secretariado regional do PSD-M pelas bases. A legitimidade do secretariado está indexada à legitimidade do Presidente do partido. Um e outro são um todo ligado entre si, não partes separadas uma da outra. Acho que se trata de um órgão que na realidade não é autónomo, que depende das decisões da Comissão Política e do seu Presidente, pelo que estes a qualquer momento – e desde 2015 até hoje esse foi um dos problemas – se precisarem de fazer mudanças sabem que elas podem deixar de fazer sentido quando os membros do Secretariado são eleitos pelas bases directamente. Muito sinceramente acho que o secretariado não tem que submeter-se a votos. O secretário-geral e o secretário-geral adjunto, se existir, esses sim, devem integrar a comissão política e submeter-se ao veredicto das bases em diretas. O secretariado devia ser um órgão escolhido pelo presidente da Comissão Política (em articulação com e o SG e SG Adjunto) logo depois da sua eleição e dada informação das suas escolhas no início do Congresso. Esta é a minha opinião e dela não prescindo”.