Calhau da Lapa do “paraíso” à “terra de ninguém”

Calhau da Lapa
Calhau da Lapa, o “paraíso” na terra e no mar. Foto Artur Campos
Calhau da Lapa
As “casinhas” do Calhau da Lapa são geridas pela Associação do Campanário. Mas não há registos, não há documentos. Foto Artur Campos

Falam dele como o “paraíso na terra” para expressar a dimensão da surpresa encontrada. Para sermos mais rigorosos, na terra é como quem diz, meio em terra e muito em mar. O recato daquele canto, longe de tudo, mas perto do mais importante, o silêncio e a tranquilidade que um certo isolamento ainda dá, trazidos pelos acessos, difíceis, mas também pelo mar que por aquelas bandas e nesta altura, torna o espaço único, para viver o momento e recordar para a vida. Tudo muito natural, água límpida, o que naturalmente é outra coisa.
O Calhau da Lapa, na zona do Campanário, Ribeira Brava, tem duas formas de acesso, por terra através de uma vereda, íngreme, onde é preciso estar minimamente preparado, para a caminhada com a segurança e o conforto possíveis, e por mar, através de passeios organizados, desde o Funchal, havendo preços de 35 euros, ou serviços de transporte, com alguma frequência, conforme a clientela, que sai da Ribeira Brava, envolvendo um custo de 20 euros com almoço incluído. Uma vivência que, diz quem lá esteve, “vale a pena”.

É um “mundo à parte”, muito por explorar. Infelizmente, dizem uns, felizmente, dizem outros, dependendo do ponto de vista. Muita aposta pode dar problemas e acabar com “espaço de sonho”. Pouca aposta pode votar o espaço ao abandono. É mais ou menos ficar “entre a espada e a parede”, como diz o povo, embora a maioria prefira aquilo como está, assim meio “selvagem”.

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Calhau da Lapa
Fotos Artur Campos

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Calhau da Lapa
O ambiente convida a uma refeição de peixe. Foto Artur Campos

Esse “mundo à parte” é, simultaneamente, aquilo a que podemos chamar de “terra de ninguém”, como diz o presidente da Associação do Campanário, uma estrutura associativa que gere o aluguer de três frações, pequenas “casinhas”, como chama, alugadas a preços que variam entre os 17 e os 20 euros e que nos períodos de férias, entre junho e setembro, têm quase sempre “lotação esgotada”. A Associação é responsável pela manutenção e gestão dos espaços, mas não é por acaso que Luís Drumond fala em “terra de ninguém”. Não há papéis, o Governo recuperou as casas, a Câmara entregou à Associação, em 2005, mas não há documentos que provem a propriedade, nada “preto no branco” que diga aquilo de quem é. E já lá vão treze anos. Tem tudo e tem nada, tudo o que a natureza dá, nada o que a falta de documentação obriga.

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Fotos Artur Campos

Calhau da LapaLuís Drumond diz que “o Calhau da Lapa tem condições para um determinado nicho de mercado, que gosta de aventura, sossego, ligação ao mar. Mas temos esse impedimento formal. No final dos anos noventa, aqueles que chamamos amigos do Calhau da Lapa, sugerimos que fossem recuperadas as casas, com algum material de apoio e foi nesse contexto que o Governo Regional procedeu às obras. No ato de inauguração, o Governo entregou as chaves ao presidente da Câmara, que por sua vez guardou e deixou as casas fechadas”.

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Fotos Artur Campos

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Calhau da Lapa
Fotos: Artur Campos

20180824_164657Desde 2005, um acordo entre a Câmara e a Associação do Campanário, tem permitido, a esta organização associativa, gerir os espaços. Mas como não existe documentação, as casas do Calhau da Lapa não constam de qualquer site relativo a alojamento local, o que seria vantajoso em termos de dinamização turística. Valem os naturais da Madeira e a publicidade “boca a boca”, basta ligar para a Associação. Legalizar, agora, parece um processo difícil. “E as obras só foram para a frente atendendo a que a área está enquadrada no âmbito do domínio público marítimo, sendo que à data não houve quem fizesse prova da posse, que se resumia a ruínas”, explica Luís Drumond.

Um espaço de apoio, não se pode dizer que é concessinado, porque em termos formais não é, podemos classificar de autorização temporária, assegura um serviço de restauração no período de verão. Essa autorização terminou em agosto, agora está fechado. Era ali que o serviço de transporte garantia, também, o almoço aos visitantes, peixe claro está, só podia ser. E do bom, para completar o ambiente e um dia de praia.

É assim, como está, “perdido” e ao mesmo tempo “encontrado”, que o Calhau da Lapa mostra os seus encantos. Com muito ou pouco por fazer, tem tudo para ser o que é: o tal “paraíso”. Na terra e no mar.