“Le Sporting c`est moi”

 

Contam-se já 50 anos que o princípio do fim de Salazar se corporizou, mais precisamente a 3 de agosto de 1968, no terraço do Forte de Santo António, no Estoril, quando o calista Augusto Hilário se preparava para lhe tratar dos pés.

Manuel Marques, à época barbeiro oficial do “Rei-Sol” de Santa Comba Dão, testemunharia para a posteridade que o ditador tombou no chão desamparado pois “não se apercebeu nessa manhã que a cadeira, onde se deveria instalar, se encontrava fora do sítio”. “O Dr. Salazar era muito educado, mas muito cabeça no ar”, lembrou.

Após internamento no Hospital de São José, ainda que sem se entenderem quanto ao diagnóstico (hematoma intracraniano ou trombose cerebral), os médicos concordavam que urgia operar.

Em versão Reader’s Digest, o Boletim Clínico resumia “O Sr. Presidente de Conselho foi operado esta noite de um hematoma, sob anestesia local, encontrando-se bem”.

Seguiu-se um desmaio, no Centro de Saúde de Benfica, agravado com uma hemorragia no cérebro, o que determinaria o fim da vida política do “maior português de sempre”, sendo substituído por Marcelo Caetano. A bem da “Democracia”, Sal e azar, como o batizou em verso Fernando Pessoa (às ocultas, presume-se), governou Portugal, orgulhosamente só, durante 40 anos, quatro meses e 28 dias, para regozijo de alguns e infortúnio de muitos.

Após a substituição, apenas o ditador (ainda de boa memória para os saudosistas do Estado Novo de longas barbas brancas, garante do “Paraíso na Terra” no entender dos devotos encarneirados na catequese do obscurantismo ou beneficiários convictos do seu regime de terror) foi o único a pensar que ainda estava “de pedra e cal” na cadeira de trono, apoiado por uma encenação que se estenderia por dois anos de simulacro de poder.

“Há uma ficção de tragédia posta em teatro: Salazar vivendo na residência oficial do chefe de Governo. Salazar recebendo ministros, embaixadores, jornalistas estrangeiros. Salazar discutindo política, concedendo entrevistas. E Salazar sendo somente um grande inválido despojado de todo o poder terreno, cidadão como os outros, sem dúvida carregado de passado, de história, de simbologia nos seus princípios, e do poder próprio de uma autoridade moral”, escrevia Franco Nogueira.

Embora a analogia, no geral, seja muito residual, ocorreu-me estabelecer um paralelo com a ilusão de poder do ex-Presidente, Presidente, e troca o passo, Bruno de Carvalho. À semelhança de Salazar, delirantemente Presidente ex-Presidente, também Bruno de Carvalho, delirantemente, é o único que ainda teima que a cadeira é sua até ao fim dos tempos. Como caricaturava Herman José, a propósito dos que se arrogam donos eternos do “pedaço” por letra de lei do punho dos próprios, Bruno de Carvalho traz à memória a caricata divisa “Eu é que sou o Presidente da Junta”.

Tal como as “claques” de Salazar, alguns houve que após a queda do chefe acordaram marcelistas, sabendo do crepúsculo do seu Deus, votando-o ao esquecimento e dele se demarcando; outros, alternativamente, optaram, em razão de caridadezinha ou conveniência, por alimentar-lhe a ilusão de perpétuo “Big Brother”.

Há diferenças, porém, que são de algum modo dignas de registo.

O caso é que Salazar caiu da cadeira abaixo por, segundo dizem, ser “muito educado mas muito cabeça no ar”; Bruno de Carvalho, por seu turno, sentadinho na cadeira com cola de contacto, foi atirado cadeira abaixo em votação inequívoca, situando-se algures nos Antípodas da educação, com a agravante de querer manter a cabeça no ar sem saber sequer o que é ter os pés na terra.

Retomando as analogias, e salvaguardando-se as devidas distâncias, tal como Salazar, Bruno de Carvalho parece entender que “Quem não está comigo, está contra mim”, e quem assim está não passa de um traidor merecedor de posts no pior vernáculo ou de atitudes revanchistas, porventura na esteira do modelo tweeteiro do também muito democrático e dialogante senhor Trump.

Acresce que, ainda no domínio dos denominadores comuns, é tão certo Salazar nunca ter colocado a remotíssima hipótese de demissão quanto BDC, que, embora o admitindo no caso de ser destituído por esmagadora e incontornável maioria, nunca fez tenção de demitir-se ou fazer prova de coerência.

Tal como Luís XIV, que diante dos parlamentares parisienses bradava aos sete ventos “L`État c`est moi”, BDC anda de cabeça perdida julgando que Le Sporting c`est moi ou, sem risco de exagero, acompanha o pensamento de Luís XV, outro que tal, que cunhou, muito “humildemente”, “Depois de mim, o dilúvio”.

A verdade, nua e crua, é que BDC, após bons começos, deixou o Sporting à beira do abismo, tudo fazendo para que o clube desse um passo em frente. Em bom rigor, e não obstante o estado quase comatoso em que deixou a instituição, o facto é que o Sporting pode e deve governar-se sem BDC, o mesmo não se podendo equacionar inversamente. Por outras palavras, é cada vez mais consensual que só remetendo BDC para o passado, não lhe reconhecendo qualquer legitimidade ou autoridade presente, é que o Sporting pode ainda pensar em ter o futuro que a sua História centenária e a sua grandeza reclamam e merecem.

Em suma, BDC tem honras de abertura de telejornais ou programas desportivos pelos piores motivos, ganhando o protagonismo dos holofotes mediáticos que lhe enchem o “ego”, já de si dilatado ao limite do umbiguismo, adivinhando-se-lhe, mesmo sem recurso às profecias de um polvo Paul, um destino mais que previsível: ir de providência cautelar em providência cautelar até à derrota final. Bem podem os sportinguistas tomar como sábia a voz popular: “Com amigos destes quem precisa de inimigos?”