Comandante temeu “perder quarteirão de São Pedro e Rua da Carreira”, diz que “há mais e melhor prevenção” mas admite que a limpeza dos terrenos continua “um problema”

josé Minas
“Temos que investir para manter a nossa floresta limpa, caso contrário até as nossas casas, no meio da cidade, estão em risco”. Foto Rui Marote

Quinta-feira foi apresentada uma viatura ligeira de patrulhamento, a primeira de quatro. Até final do ano, virão mais três carros pesados, topo de gama, num investimento de 600 mil euros. Em outubro, os bombeiros estarão equipados, da cabeça aos pés, com equipamento de proteção florestal, envolvendo uma verba aproximada aos 60 mil euros. Em 2019 haverá investimento na requalificação da proteção individual urbana, em alguns aspetos.

São, assim, os Bombeiros Sapadores do Funchal, uma corporação com 143 elementos, 30 dos quais, 25 homens e 5 mulheres, acabaram de chegar de formação no Continente. São os primeiros com formação de sapadores. Mas quase todos foram este ano enviados a Lisboa para os cursos de promoção. Fora estes 30, a média de idade, este ano, é de 45 anos. Está no limite para as necessidades. O processo de renovação começa a tomar forma. Em recursos humanos e material, é a modernização que parte para uma velocidade de cruzeiro.

Começou na Polícia do Exército, tem licenciatura em Proteção Civil

José Minas, o comandante, é oriundo da Polícia do Exército, foi segundo comandante da PE na Madeira, chefiou o pelotão quando extinguiram o esquadrão, entrou como segundo comandante dos Bombeiros Municipais, liderados então pelo comandante Coimbra, passou à liderança quando este foi para a reforma, embora sem poder assumir o cargo, na plenitude legal, em virtude da alteração estatutária e de não ser licenciado. Integrou a carreira de bombeiro, chefiou uma secção até 2014, altura em que passou a comandante interino até 2018. Em janeiro deste ano, assume o comando em regime de substituição, sendo que neste momento decorre a fase concursal tendo em vista o comando efetivo. Entretanto, concluiu licenciatura em Proteção Civil, com duas pós-graduações nessa área. Comanda os Sapadores do Funchal e é oficial de ligação, junto do Serviço Regional de Proteção Civil, a exemplo do que acontece com as corporações de todos os concelhos. Uma medida que José Minas considera “importante” e que, como diz, “em boa hora” agora concretizada pelo presidente do Serviço na Região, o capitão da Força Aérea José António Oliveira Dias, nomeado oficialmente para o cargo em janeiro de 2017.

POCIF tem demonstrado ser eficaz

Minas proteção
José Minas revelou que nos últimos 20 meses, os Bombeiros registaram 261 ignições do Funchal. Foto DR

Vamos a mais de metade do POCIF, o Plano Operacional de Combate a Incêndios Florestais, que vai na terceira edição e vigora desde 15 de junho e tem final previsto para 15 de outubro, podendo ser prolongado se as condições atmosférias assim o exigirem. Os fogos de agosto de 2016 ainda estão bem presentes na memória e, depois disso, “casa arrombada, trancas à porta”, como se diz popularmente. As entidades “meteram” mãos à obra e, tudo junto, dá hoje um cenário de melhor prevenção e melhor capacidade de intervenção.

José Minas acredita que o POCIF “tem demonstrado ser eficaz”, não esquecendo, também, a existência de um Plano de Prevenção. Fala na qualidade de comandante dos Sapadores, dá a visão do ponto de vista dos bombeiros, uma opinião necessariamente parcelar, relativamente ao todo que está sob coordenação da Proteção Civil, logo num âmbito mais alargado de responsabilidade. “Mesmo antes do plano adotado, já tinhamos os procedimentos, apenas foram passados para o papel. A única diferença é que fazemos, agora, o patrulhamento com viaturas ligeiras, envolvendo dois a três homens, mas sempre que há um foco de incêndio, não são essas viaturas que avançam, mas sim uma viatura mais pesada para um combate mais musculado. Claro que a base do plano não é bem esta porque as outras corporações não dispõem dos meios que nós temos, por isso fazem a deteção e a primeira intervenção com essas viaturas de patrulhamento, o que muitas vezes não é suficiente”.

Articulação entre as duas corporações do Funchal

O Funchal tem uma particularidade, que é a existência de duas corporações, os Voluntários e os Sapadores, sendo que José Minas realça o entendimento sobre a existência de uma articulação visando o patrulhamento, para o que já existe um plano definido. Por exemplo, no dia da entrevista, os Sapadores estavam na zona de Santo António e os Voluntários na zona de São João Latrão. No dia seguinte, invertem-se os papéis “sem quaisquer problemas”. Mostra a parte organizativa da operação, o quadro de escalas de patrulhamento, para evidenciar a parte operacional desta ação articulada entre as duas corporações.

Tivemos problemas gravíssimos em São Pedro

Proteção Civil helicoptero
Entre os meios operacionais, o Comandante dos Sapadores diz que a chegada do helicóptero constituíu uma mais valia no combate aos incêndios. Foto DR

O que é que mudou depois dos incêndios de 2016? Há maior capacidade de intervenção? Há maior consciencialização para a limpeza de terrenos? Os meios são melhores? José Minas volta atrás no tempo, foca dois aspetos determinantes para que o fogo de 2016 atingisse aquelas proporções, “o mato na Ribeira de João Gomes e as condições atmosférias naqueles dias foram terríveis. Tivemos uma série de incêndios com projeções dentro da cidade do Funchal. Tivemos problemas gravíssimos em São Pedro, as pessoas não têm noção do que passámos na noite de 9 de agosto. Eu, muito sinceramente, durante muitas horas, pensei mesmo que íamos perder o quarteirão da zona de São Pedro e Rua da Carreira. Equacionei que iamos perder tudo. Tinha bombeiros que trabalhavam dez minutos no topo da escada a projetar água e depois tinham que descer. Vieram da serra e meteram equipamento de proteção individual e foram lá para cima. Foi uma situação muito excecional”.

Difícil apurar quem é dono dos terrenos

A parte correspondente à limpeza de terrenos é menos pacífica, de mais difícil abordagem. “Continua a ser um problema”. Numa primeira análise, aponta vários fatores que potenciam essas dificuldades: os custos, a orografia da ilha, o tipo de coberto vegetal, temos uma incidência de espécies infestantes. Aponta um custo que, por si só, dá que pensar: dez mil euros para limpar um hectare, “é uma brutalidade”.

A par de todos estes entraves à limpeza, existe a questão que tem a ver com a propriedade. As notificações são feitas, a Câmara Municipal do Funchal apontou recentemente para o meio milhar, mas depois há a parte funcional. O responsável pelos Bombeiros Sapadores diz que “muitas vezes, torna-se difícil apurar a quem pertence o terreno, algumas pessoas estão emigradas, outras vezes são vários os proprietários”.

Há riscos para sociedade e nós todos é que vamos pagar

A solução passaria, por exemplo, pela limpeza, operada pelas entidades oficiais, com a respetiva fatura a ser encaminhada para os proprietários. Mas isso traz um problema ao nível dos recursos financeiros públicos. José Minas defende que “deve haver uma acompanhamento da gestão da floresta. Não conseguimos fugir a isto. Há riscos para toda a sociedade, há riscos sociais que são aceitáveis e é preciso que toda a sociedade perceba isso. Nós todos é que vamos pagar. Temos que investir para manter a nossa floresta limpa, caso contrário até as nossas casas, no meio da cidade, estão em risco”.

Importante trabalho de limpeza na Corujeira e no Parque Ecológico

O comandante dos bombeiros aponta, no entanto, o importante trabalho de limpeza que tem sido desenvolvido na zona florestal da Corujeira, referindo “a diferença no Parque Ecológico em direção ao Poiso, do lado esquerdo está limpo e do lado direito, com terrenos privados, é um caos e não podemos entrar”. Há a posse administrativa, mas “o material que temos afeto ao Parque não é suficiente para isso”. Salvaguarda, além das operações de limpeza, a necessidade de, em termos de futuro, proceder a trabalhos de manutenção. Há zonas em que os eucaliptos têm metro e meio, dois metros, mas para o próximo ano já serão problema em termos de perigo de incêndio”.

Estamos a trabalhar para a contínua melhoria

Num outro patamar, que se prende com a importância de dar dignidade aos bombeiros, em correspondência com o papel que desempenham na sociedade, na primeira linha de muitas das intervenções de risco, deverá estar em curso uma alteração do Estatuto do Bombeiro, que neste momento “está ultrapassado”, como refere José Minas. Recorda que se trata de um documento de 2002, do tempo do primeiro-ministro António Guterres, na altura em que estava demissionário. Neste momento, vivemos com o que temos e claro que a carreira deveria ser mais dignificada”.

Paralelamente ao que a nova legislação vai reservar, o comandante dos Sapadores diz que “na Câmara Municipal, estamos a trabalhar para a contínua melhoria para a dignificação dos bombeiros, na formação e nas condições de trabalho”.