Um pequeno texto de Lourdes Castro

Em Maio de 2001, numa entrevista ao “DN” do Funchal, a pintora Lourdes Castro disse:

“Na Madeira, a violência é enorme, nomeadamente na qualidade do que é construído sobre a crosta terrestre. Destrói-se tudo. Constrói-se de qualquer maneira. Olha-se para a terra e para as pedras como coisas inanimadas. Pensamos como se fôssemos os donos do planeta, temos máquinas. Será isto uma história de poder ou de cegueira? Nos Açores, por exemplo, há outra relação com a terra, que necessariamente tem de respirar. Se cobrimos tudo de cimento, tapam-se os poros e a pele ainda é um órgão. As pessoas querem ter, ter, parecer, parecer e não ser. É desolador.”

Lembrei-me deste belo texto quando passei, guiando, junto ao futuro hotel Savoy, na altura com um acabamento próximo, já, do seu retrato definitivo. Só pude visionar o hotel, de esguelha, com receio de algum acidente de trânsito, mas pareceu-me uma gigantesca serpente, coleante e negra, saída do belo ventre da belíssima Madeira, distraída vítima de infame ligação a um diabo qualquer, armado de hipócritas razöes invocadoras do bem comum e do sagrado investimento, a trazerem riquezas insuspeitas ao pobre trabalhador madeirense e ao sacrossanto turismo.

Pensam nestas “vantagens” os AFAS deste mundo e alguns governantes que, conforme comentários que ouvi em sessão televisiva, declaravam esperar críticas à volumetria do edifício por meras razões de INVEJA essa velha pecha do carácter do madeirense…

Já não se menciona, sequer, a legislação mínima, para proteger a paisagem, o património e o planeamento urbano, naturalmente complicado numa ilha pequena, orograficamente marcada pela exuberância dos seus relevos. Não se pensa, ainda, nos prejuízos impostos a outros hotéis que dignificam a construção sensata, em harmonia com a paisagem.

Mais: a construção de uma unidade com aquelas proporções vai eventualmente prejudicar os investidores que optaram pelas construções respeitadoras da lei. A permissividade actual permite novos arrojos aos empreendedores que agora até invocam o “sonho” de construções que transformem a nossa terra num novo Dubai ou numa Singapura atlântica. O problema reside em faltar aos grandes investidores, as qualidades exigíveis aos legítimos decisores culturais.

Ninguém tem “invejas” dos que honradamente e sem favoritismos construíram as suas sólidas fortunas – dentro de um quadro legal imparcial eles têm o direito de agir e ganhar lucro contribuindo ainda para o bem da sua e nossa terra. O problema é existirem “decisores culturais” que hipocritamente acautelam sobretudo a gula pelos cifrões que farão escorrer lucros inimagináveis para os respectivos bolsos.