Arraial do Monte já começa a aquecer, juntando as festividades profanas à devoção e procurando esquecer a tragédia do ano passado

 

Fotos: Rui Marote

A festa já se anuncia rija no Monte. Um ano depois da tragédia com a queda do galho de uma árvore que ceifou treze vidas e causou múltiplos feridos, a população madeirense quer é seguir em frente, após a devida homenagem aos mortos. O momento é festivo e o lado sagrado e profano das festividades unem-se para a manutenção da tradição de um arraial que é conhecido por ser o maior, ou um dos maiores, da Madeira.

Esta tarde, o Funchal Notícias esteve no Monte e pôde verificar como já a localidade se engalanava para a festa e começava a receber muitos visitantes. O teleférico ia e vinha, carregado de turistas, que circulavam desde o Largo das Babosas até ao Largo da Fonte já deixando correr o olhar pelas diversas barraquinhas cheias de brinquedos que fazem as delícias das crianças. Nos cafés da zona, as mesas estão bem preenchidas, e as crianças puxam pela mão dos pais para reclamar um peluche, um doce ou um carrinho dos vendedores ali instalados. “Quero este! Não, aquele!”, insistem. “Vamos ver tudo primeiro e depois decidimos”, responde uma senhora à filha.

Os comes e bebes estão já a cozinhar. O cheiro da carne de vinho e alhos, dos frangos assados, da língua de vaca faz estremecer os sentidos e desperta a gula. Não faltam os petiscos, entre os quais, claro, o tradicional bolo do caco com manteiga de alho e o pão com chouriço. Há, entretanto, quem não perca tempo e já tente escapar da canícula refrescando-se com uma canecas de cerveja. E a noite ainda é uma criança.

As pessoas vão chegando, algumas trazidas em táxis, outras vindas nos transportes públicos, outras ainda em autocarros de turismo. As estradas estão, na maioria, interrompidas a alguma distância, para não causar excessivo congestionamento de trânsito na zona do arraial. A PSP está vigilante na fiscalização dos acessos.

No Largo da Fonte, uma banda de música toca. Os plátanos erguem-se, altaneiros, magníficos, a carregar de verde aquele local, a mostrar como a natureza pode ser simultaneamente impiedosa e aprazível. Houve quem perdesse ali a vida por causa de uma árvore, muitas críticas se levantaram à responsabilidade da manutenção de outras, mas agora o povo não quer saber disso, convive pacíficamente com a natureza. Um cartaz colocado no local da tragédia convida, porém, os passantes ao luto pela morte das treze vítimas do acaso, ou da incúria, como se queira entender o que aconteceu. Mas a disposição geral é festiva. Já se dança no Largo da Fonte, ensaia-se uns bailinhos, puxa-se pelo divertimento. Os mais idosos às vezes ainda admitem algum receio. Mas mostram-se optimistas de que o que de mau houve há um ano tão cedo não se voltará a repetir.

 

Passantes enchem garrafinhas com a água do Largo da Fonte, devotos acendem velas. Na igreja, mais acima, não faltam os visitantes, e aqueles que ali vêm com as suas promessas, recolhidas no templo cristão e passadas pela aprovação prévia duma efígie de Nossa Senhora. O negócio de venda de círios, ao lado, vai de vento em popa e mais abaixo, não falta mesmo a curiosa e algo tétrica venda de membros (pernas, braços), ou de imitações em cera de órgãos internos como coração ou pulmões, que os aflitos por alguma maleita adquirem e vão entregar à Igreja em jeito de pedido de melhoras.

A música “pimba” ou sertaneja brasileira vai, entretanto, animando os espíritos daqueles que pretendem sobretudo divertir-se e comer e beber bem. Os crentes podem preocupar-se mais com as promessas a Nossa Senhora, que, esperam, venha a interceder por eles. Mesmo ao lado da igreja do Monte, vendem-se Bíblias, livros narrando a vida de santos, a história do papa Francisco em desenhos acessíveis às crianças ou uma biografia de Maria Madalena intitulada, sugestivamente, “Maria, a Pecadora”. Também não faltam os livros de orações destinados aos enfermos, prometendo quase uma cura ou, pelo menos, a esperança.

Nos degraus da escadaria do Monte, por onde sobem muitos peregrinos e turistas, uma velha pedinte apela à caridade alheia, estendendo, de mãos postas e num gesto pungente, o seu copo de plástico. Lenço na cabeça, vestes usadas e encardidas, suscita a piedade dos bons samaritanos e ensina aos mais novos a prática da caridade defendida por várias religiões.

 

De caminho encontramos também ali responsáveis políticos, tanto na visita à igreja como em amena cavaqueira com os transeuntes, os responsáveis por serviços na zona ou comerciantes. Estes pertencem a um partido, os representantes das outras forças políticas não vão, com certeza, também faltar à oportunidade do convívio com a população.

Esta Festa do Monte é das mais antigas da Madeira e o povo faz questão de marcar presença. Datando praticamente da colonização desta ínsula, não faltam a esta tradição os aspectos lendários, incluindo as aparições de Nossa Senhora. Antecedida pelas novenas, a festa começa rija já hoje à noite e prossegue amanhã durante todo o dia. A realização da mesma, este ano, foi precedida de garantias de segurança e de avisos para o estado deficiente de certos exemplares do património arbóreo, susceptíveis de pôr em risco as pessoas. Discutiram-se autorizações para fogo de estalo e outros excessos. O que é certo é que a Festa vai mesmo em frente. É uma tradição de centenas de anos e a vida continua. Os comerciantes querem ter a sua oportunidade de negócio, os devotos a certeza de cumprirem com um dever e profissão de fé e a população a oportunidade de divertir-se, que a existência dura dois dias.

Juntam-se familiares, alguns vindos de países da diáspora, e que só de anos a anos se deslocam à Região, alguns de propósito para esta festividade. “Não perderíamos isto por nada”, dizem. Outros vêm ainda de mais longe; o FN encontrou franceses, indianos, britânicos, alemães. Haverá muitas outras nacionalidades. Agrada-lhes o ar genuíno desta festa.

Amanhã haverá missa, presidida pelo bispo do Funchal, D. António Carrilho. Muitas individualidades estarão presentes, para além do cidadão anónimo. Não faltará quem reze pelos que aqui perderam a vida no ano passado.