Antigo guarda-redes do Marítimo Quim jogou com Fernando Santos e acredita que contra a Espanha “vamos ter um grande Patrício”

Quim
Foi guarda redes do Marítimo, jogou com Fernando Santos quando este esteve um ano na Madeira e hoje treina os guarda-redes dos escalões de formação dos “verde rubros”. Foto Rui Marote

Joaquim Loureiro, Quim no mundo do futebol, guarda-redes que deixou nome na I divisão nacional, hoje I Liga, na Madeira particularmente e no Marítimo enquanto clube que representou, primeiro como jogador e depois como técnico, onde permanece nos escalões de formação e na equipa B. Treina guarda-redes, claro está, a experiência de uma carreira colocada ao serviço das bases que um dia poderão resultar naquele que é o objetivo, a procura de valores que se imponham nas equipas principais. Neste caso, não é de “Ronaldos” que se trata, mas sim de miúdos que apostem num lugar de pouca procura, mas de muita importância. “Não é fácil”, diz quem sabe e quem, todos os dias, trata os candidatos a “Rui Patrícios” com o mesmo empenho como se todos eles, um dia, chegassem ao patamar que desejam. Sabe que não será assim, mas trabalha diariamente para que seja assim.

Aos 64 anos de idade, tem cinco filhos e doze netos, um deles, Gonçalo Loureiro, um central com grande potencial, acaba de assinar o primeiro contrato de profissional com o Benfica, por cinco anos. O avô não consegue esconder o orgulho. Mas tem outros netos que também podem fazer carreira no futebol.

Triste com o que se passou com Rui Patrício

Num contexto em que o Mundial 2018 está mesmo quase a começar, Quim acredita no potencial do número um da seleção. Foi guarda-redes, sabe o que é estar entre os postes, sabe sobretudo o que é ter momentos muito bons e momentos muito maus. Viveu na “pele” todas as emoções que o futebol dá, acredita que Rui Patrício “vai fazer um bom Mundial”, mas admite alguma “tristeza” por tudo aquilo que o profissional da seleção e “um dos melhores guarda-redes do mundo” está a passar depois dos acontecimentos de Alcochete e das divergências com o Sporting. Acredita que esse momento “não terá influência no rendimento”, vai torcer para que “Portugal traga a Taça”, é esse “o desejo”. Quim acredita que, contra a Espanha, “ele já vai dizer aqui está o Patrício. Temos uma capacidade fantástica, além de termos o melhor do mundo”. E, também, “temos um homem, o Fernando Santos, que trabalha muito bem a mente dos jogadores”.

O tempo em que a defesa do Marítimo tinha Fernando Santos

QUIM Marítimo com Fernando Santos
A imagem possível documenta a equipa onde jogou Fernando Santos. Em cima, da esquerda para a direita Quim, Noémio, Pedroto, Eduardo Luís, Humberto e Fernando Santos. Em baixo, pela mesma ordem Valter, Rui Lopes, Peter, Eduardinho e China.
Quim-Marítimo Mundial
Uma das equipa do Marítimo onde podemos ver, em cima da esquerda para a direita Humberto, Camacho, Quim, Oliveira, Olavo e Arnaldo Carvalho. Em baixo, Xavier, Eduardinho, Albertino, Flávio e Metralha.

Lembra Fernando Santos hoje técnico da seleção, que já representou o Marítimo, enquanto jogador, no quarteto defensivo, precisamente quando Quim era o guarda-redes. Na altura, a primeira linha da equipa madeirense era composta por Quim, Olavo, Eduardo Luís, Fernando Santos e Arnaldo. Fernando Santos esteve no clube uma época e seguiu para o Estoril. Uma recordação que fez Quim recuar no tempo e ir ao “baú” das lembranças boas do futebol.

Enquanto futebolista, Quim fez uma carreira de 25 anos. No Marítimo, entre 77 e 87, lembra-se do primeiro jogo, contra o Sporting, uma derrota por 4-0 mas uma exibição “positiva. Agarrou o lugar, apesar dos quatro golos sofridos. O treinador era Pedro Gomes e tinha como colegas de baliza Amaral e Porfírio. Há gerações que se lembram bem, outras vão sabendo pelas histórias. Quem se lembra, sabe bem as qualidades, defesas de grande nível e muitos pontos ganhos à conta disso.

Tem, entre outros, um momento alto, de que se lembra particularmente. Foi no primeiro ano de Marítimo, três jogos que valiam a permanência na I Divisão, o Marítimo jogava em Guimarães, Setúbal e nos Barreiros contra o Varzim, na altura as vitórias valiam 2 pontos e a equipa precisava de cinco em seis. “Conseguimos ganhar ao Guimarães por 1-0, empatar em Setúbal, 0-0 e ganhar por 2-0 ao Varzim. Ficámos na I Divisão, não sofri qualquer golo e sobretudo no jogo de Setúbal tive uma luta tremenda contra o avançado Mirobaldo, defendi tudo”. Foram momentos altos de uma carreira, também ela, nivelada por cima.

Fim da carreira aos 39 anos e Madeira na rota de treinador

Acabou de jogar com 39 anos de idade, em 1993, no Gil Vicente. O ano em que Portugal foi campeão do Mundo de juniores. Quando saíu, o treinador da equipa de Barcelos, na altura o Vítor Oliveira, contratou o guarda-redes campeão, o Brassard. Um jovem para ocupar o lugar do veterano. Muito tempo para que a saída fosse fácil de enfrentar. Foi tudo menos fácil, compreensível de resto, a atividade intensa de um jogador, impede-o de pensar seriamente no momento em que vai mesmo sair de campo. Em definitivo. É outra vida, é um desafio grande. Ser treinador parecia a solução. E foi.

Daí até vir para a Madeira foi um passo. Veio com Fernando Festas, para o União. E por aqui ficou, depois foi o Marítimo, a formação, a equipa B, a equipa principal, sempre como treinador de guarda-redes. Dia a dia, à procura de talentos e a viver o que lhe dá prazer na vida, o futebol.

Quim
“O problema é geral. As equipas, hoje, não podem estar à espera, neste caso, daquele guarda-redes que pensamos ter potencialidades de integrar as equipas séniores”. Foto Rui Marote

A formação, hoje, é diferente, diz. “Existem outras exigências, o atleta tem tudo para conseguir chegar a um ponto alto, os clubes dão condições e se os jovens tiverem vontade e vocação, é mais fácil chegar ao patamar que desejam. Além disso, exige-se muito de um guarda-redes, hoje é um elemento muito completo dentro do campo, deve saber jogar bem com as mãos, a grande prioridade, mas também jogar muito bem com os pés. O treinador de hoje exige que a circulação de bola comece bem logo no guarda-redes. E para formar é difícil, até porque há sempre aquela tendência de ir para guarda-redes quando não se joga bem com os pés ou quando se é baixinho”.

O treinador chega e quer ganhar não há tempo para esperar

Quim diz que é “exigente” no treino, mesmo para miúdos. Sabe que os desafios só se ganham com trabalho, procura incutir essa realidade logo nos primeiros passos. Sabe, sobretudo, que mais para a frente, quando for a idade chegar, eles deverão estar preparados para níveis mais elevados de exigência. Eles, jogadores, até podem estar preparados, mas as massas associativas e as direções ou até mesmo os treinadores, não têm tempo para esperar o tempo suficiente para um jovem ter sucesso. Os resultados fazem pressão. O técnico admite que “o problema é geral. As equipas, hoje, não podem estar à espera, neste caso, daquele guarda-redes que pensamos ter potencialidades de integrar as equipas séniores. O treinador chega e quer ganhar, não quer estar a dar oportunidades a um miúdo que, de forma natural, vai cometer os seus erros. É tudo natural e, assim, cada vez menos aparecem os jogadores formados nos clubes, o que é uma pena porque andamos a trabalhar o melhor e vimos que, depois, naquele patamar mais alto, é difícil integrá-los”.

Juniores do Marítimo nos nacionais e equipa de sub-23

Quim aponta, ainda, outro problema, a falta de competição adequada a um ritmo mais elevado, em matéria de calendário dos escalões mais jovens. “O Marítimo tem uma ou duas equipas que podem criar algumas dificuldades, de resto é tudo muito fácil e os próprios miúdos acabam por não ter aquela competição que seria desejável”. Este ano, com os juniores nos nacionais, a situação pode vir a ser diferente, o mesmo acontecendo com a criação da equipa de sub-23. “Estou convencido que, a partir de agora, o Marítimo terá melhores condições para colocar jogadores da formação na primeira equipa”.