Crónica de Viagem: Lalibela, a segunda Jerusalém, vive uma segunda Páscoa

 

Procissão da Semana Santa

Pela primeira vez, vou comemorar duas vezes a Páscoa. À data de 01 de Janeiro de 2018, 0 calendário etíope está no ano de de 2010. Muda para 2011 a 11 de Setembro de 2018.

Este é o calendário principal usado na Etiópia. É também o calendário oficial da Igreja Ortodoxa de Tewahido, tanto na Etiópia como na Eritreia. é um calendário solar, com base no tempo que leva a Terra para fazer uma órbita completa ao redor do Sol, também conhecido como ano tropical ou ano solar. O calendário etíope tem 12 meses de 30 dias mais 5 ou 6 dias  epagomênicos, que compõem um décimo terceiro mês.

Os meses etíopes começam nos mesmos dias que os do calendário copta (calendário Juliano), mas os seus nomes estão em Ge`ez .O sexto dia epagomenal é adicionado a cada quatro anos, sem excepção, em 29 de Agosto do calendário Juliano. Assim o primeiro dia do ano etóope, 1 Maskaram, durante os anos de 1900 e 2099 (inclusive). é geralmente a 11 de Setembro em anos anteriores ao ano gótico gregoriano. O calendário etíope está intimamente relacionado com os calendários copta e juliano, mas não é exactamente o mesmo.

Esta é a segunda nação mais populosa da África, e a décima maior em área (1 104300km2).

Localizada no nordeste da Etiópia, Lalibela é uma pequena vila, que no entanto, apesar da sua pobreza, se afirmou como um centro de peregrinação de cristãos. Antes chamava-se Roha, mas no século XII, passou a chamar-se Lalibela em homenagem ao Rei Lalibela, que ali construiu um notável complexo religioso. São onze igrejas, um mosteiro, sepulcros e outros lugares sagrados para serem visitados. A igreja Bet Giyorgis (Casa de São Jorge), um monólito em forma de cruz grega, é uma das principais relíquias de Lalibela.

A Etiópia tem uma das mais antigas tradições cristãs. Antigamente, os cristãos tinham por tradição visitar Jerusalém pelo menos uma vez na vida. Como Jerusalém estava sob o domínio dos muçulmanos, os cristãos estavam impedidos de ir a Jerusalém. Assim, enquanto os católicos europeus passaram a voltar-se para Roma (até hoje, há peregrinações à cidade italiana a cada 25 anos, nos anos terminados em 0, 25, 50 e 75, de cada século), Lalibela decidiu construir uma “segunda Jerusalém” no seu reino. Até mesmo o riacho do lugar foi rebaptizado como rio Jordão e a colina onde estão as igrejas passou a chamar-se Monte das Oliveiras. Para os cristãos da Etiópia, de tradição copta (igrejas cristãs não ligadas à Igreja Ortodoxa nem à Romana), a peregrinação a Lalibela significa o mesmo que uma viagem a Jerusalém.

 

Lalibela tornou-se um lugar sagrado para os cristãos etíopes. Milhões de devotos peregrinos, vindos de todos os lados, vão todos os anos a Lalibela. As igrejas nunca deixaram de ser usadas. A religiosidade mantém-se viva desde o início do século XII, quando as igrejas foram construídas. As igrejas estão abertas das 9h00 às 13h00 horas, e das 14h00 às 17h00 horas. Tem-se que tirar os sapatos para entrar na igreja; é desrespeitoso entrar calçado.

Os trabalhos de construção das igrejas começavam por escavar e retirar toda a rocha ao redor das futuras edificações, que nesse estágio eram apenas um bloco monolítico de rocha. Depois, eram feitas as fachadas, dando forma aos contornos das edificações. Em seguida, criava-se o espaço interior: salas, santuários e nichos. As portas eram emolduradas, os pilares cinzelados e os arcos desenhados. Por fim, entrava a decoração com frescos, móveis, etc.

Literalmente esculpidas em vez de construídas, as igrejas de Lalibela foram escavadas na rocha. Eram interligadas por túneis e corredores subterrâneos.

De acordo com a história da vida do Rei Lalibela, que foi escrita no século XV, o Anjo Gabriel veio a este soberano e levou-o a Jerusalém, onde teve um sonho no qual Deus lhe disse que voltasse à Etiópia e construísse as igrejas. Segundo conta a história, o rei teve a ajuda de seres angelicais, que durante a noite, enquanto os operários dormiam, faziam o que seria humanamente impossível com a tecnologia da época.

A Semana Santa da Igreja Católica passou e o dia 1 de Abril, mais conhecido pelo dia das mentiras, foi replecto de ovos e chocolates.Já a Pascoa da Igreja Ortodoxa etíope está acontecer uma semana depois por utilizarem calendários  diferentes. A sexta feira da paixão celebrou-se a 6 de Abril e o domingo de Páscoa uma semana depois.

Daqui manifesto, através das minhas imagens fotográficas, a beleza destas procissões , tradições velhas de 800 anos de idade.

O fascinante nesta cidade que tomou o nome do seu rei é que as igrejas estão vivas. Raros monumentos com oito séculos de idade ainda mantêm as suas funções essenciais. Hoje, os rituais prosseguem inalterados e a atmosfera é de fé intensa. Principalmente às vésperas de uma das principais festas do país, a Páscoa.

As igrejas escavadas na pedra.

Entro nas diferentes igrejas e descubro devotos enrolados em longos tecidos de algodão branco. Parecem estar bêbados com os mantras sagrados. Alguns lêem pequenas Bíblias em voz baixa, outros preferem deitar-se sobre os tapetes que revestem o soalho frio. O cheiro de incenso não está apenas no ar, mas impregna as paredes, os tecidos e os quadros no interior da igreja.

À tarde, a partir das 17 horas, acontecem diferentes procissões ao redor de algumas igrejas, como Bet Maryam, Bet Medane Alem, Bet Amanuel e Bet Golgotha. É um momento de explosão de cores. As sombrinhas multicoloridas com as suas franjas douradas, guardadas com zelo no interior das igrejas, saem para dar ao cortejo uma atmosfera de festa medieval.

Mesmo à luz do dia, muitos carregam uma vela artesanal acesa, feita com cera de abelha. Cruzes e pinturas, envoltas em seda, lideram o séquito. Um sacerdote mais idoso, balançando um incensário, vai abrindo e purificando o caminho.

A Etiópia biblica ficava lcalizada ao sul do Egipto compreendo a área que incluia a região do actual Sudão. Era um território bastante maior que o da Etiópia actual, incluindo terras além do Mar Vermelho. Este foi o lugar originalmente habitado  por Cuxe, filho de Cão e neto de Noé (Jeremias 10:6) Mais tarde,os etíopes lutaram ao lado dos egípcios  contra Judá, em várias ocasiões.

Um personagem etíope está numa passagem importante da Bíblia ,embora o seu nome não seja dito. É o mordomo eunuco da então rainha da Etiópia, Candace, que em viagem foi orientado sobre a Palavra Sagrada pelo apóstolo Filipe.

“E o anjo do Senhor falou a Filipe, dizendo: Levanta-te, e vai para o lado do sul, ao caminho que desce de Jerusalém para Gaza, que está deserta. E levantou-se, e foi; e eis que um homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração, regressava e, assentado no seu carro, lia o profeta Isaías.

E disse o Espírito a Filipe: Chega-te, e ajunta-te a esse carro. E, correndo Filipe, ouviu que lia o profeta Isaías, e disse: Entendes tu o que lês?

E ele disse: Como poderei entender, se alguém não me ensinar? E rogou a Filipe que subisse e com ele se assentasse.”

O apóstolo Mateus  era cobrador de impostos e é dado como autor de um evangelho. Morreu na Etiópia quando evangelizava, apedrejado, queimado e decapitado. As suas relíquias teriam sido transportadas para Paestum, e mais tarde para cidade italiana de Salerno. O seu símbolo como evangelista é um anjo ou homem alado, porque inicia o seu evangelho com a genealogia de Jesus Cristo, mostrando a sua origem e descendência humanas, marcadas pelo seu nascimento (cf Mt 1)