Crónica de viagem – Etiópia, a “terra de gente de cara queimada”

Gente de “cara queimada”: habitantes da montanha
A Abissínia foi o país que estudei na aula de geografia. Hoje chama-se Etiópia e é mais pequeno, situado mais ou menos no norte do que foi um dia esta grande nação.
Os seus habitantes eram semitas. Semita é a língua amárica,que ainda hoje se fala. Nas línguas semíticas, no árabe e no hebraico, o país chamava-se Habash e de Habashnos chegou-nos a palavra Abissínia.
Julgaram em tempos ser esta a terra lendária do Prestes João, a quem encontrei um monumento erguido já alguns anos em Port Elizabeth, África do Sul. Este era o lendário padre cristão, que os exploradores portugueses tanto se esforçaram por encontrar na Abissínia.

Anos depois o reino da Abissínia  foi muito alargado, juntando-se-lhe outros povos negros seus vizinhos. Passou a chamar-se Etiópia, de Aithiôps, “terra de gente de cara queimada”, que era o curioso nome que os gregos davam a diversas terras africanas, desde o Vale do Nilo até o Corno de África.

 

Museu Nacional

Como curiosidade, apresenta-se a explicação de alguns termos, de que todos já ouvimos falar.

A língua da Abissínia é semítica. A capital da Etiópia chama-se Adis Abeba. Adis significa nova. Abeba é o mesmo que Aviv, em hebraico, que significa espiga, como a Primavera, a época do ano em que se ceifam as espigas. Temos pois que Adis Abeba é a “Nova Primavera”.
Os burros carregam um pouco de tudo
Há uns meses atrás referi que iria surpreender os leitores com uma nova aventura. E mudei o meu azimute para um continente no qual não é fácil viajar. Aterrei há pouco em Adis Abeba a bordo de um avião da Air Etiópia. Este país não tem representação diplomática em Portugal e os vistos são tratados com a embaixada em França, o que requer enviar o passaporte para Paris, um incómodo, assim como a transferência monetária e toda restante burocracia.
Descobri porém que na cidade do Porto há um cônsul honorário, que amavelmente respondeu as diversas questões enviadas por email. A boa nova chegou por fim: os portugueses podem tirar o visto à entrada, no aeroporto, sendo o mesmo válido por 30 dias, desde que com o passaporte válido por mais de seis meses.
Interior da catedral, tecto e vitrais

A catedral
Túmulo do imperador Hailé Selassié e sua esposa
Em zonas onde a água falta, o abastecimento é feito por camiões-tanque
Luz verde conseguida, começei a preparar a minha aventura. O que ver, o que fazer neste país africano, que para muitos é sinónimo de pobreza e de seca eterna, de gente esquelética, e que, positivamente, é apenas falado no atletismo mundial, pelos corredores de fundo. Programei a minha partida para Fevereiro; alterei para a Páscoa para estar presente em Lalibela, nas cerimónias religiosas da Igreja Cristã Ortodoxa da Etiópia. A Paixão de Cristo é vivenciada com grande devoção neste país e segue uma tradição que há vários séculos não é modificada. Mas isso é assunto para uma crónica de fotojornalismo, retratando essas procissões e as igrejas escavadas na rocha.
Após uma maratona de 11 horas de viagem desde Lisboa-Viena e com o fuso horário de duas horas a mais em relação a Portugal, aterrei no aeroporto internacional de Bole em Adis Abeba, o quinto mais movimentado de África, depois
do da África do Sul.
O esqueleto de Lucy, um dos primeiros hominídeos, é muito visitado
Este aeroporto chamava-se Hailé Selassié, antigo imperador entretanto deposto, Selassié (em hebraico chelishiah) significa “Trindade”, e Hailé é “Santo”. Portanto. o nome do imperador era “Santíssima Trindade”… Ao chegar a Bole, cumprindo os trâmites legais de entrada, uma das necessidades é efectuar o câmbio da moeda de euros para a moeda etíope, que se chama Birr e que equivale a 32,70 de um euro.
A operação seguinte é conseguir um táxi para percorrer os 8 quilómetros entre o aeroporto e o centro da cidade, que varia entre 6 a 8 euros por percurso. Já instalado no hotel, testei a Internet. Tudo Ok! Com o mapa na mão deixei-me envolver entre a modernidade e o tradicional. Estou em Adis Abeba, que significa “flor nova” realizando um sonho há muito desejado. Não acusando o Jet Lag, estou operacional para descobrir e desvendar o que oferece a cidade aos visitantes. Nem sei por onde começar.

Optei por visitar a catedral, onde se encontra o Mausoléu de Menelik, uma das igrejas mais antigas, e pude admirar belíssimas obras de arte e os túmulos dos antigos imperadores. Continuando, visitei o Museu Etnológico, outrora Palácio Haile Selassié, que reúne elementos característicos dos diferentes povos que habitam na Etiópia. A visita prosseguiu no Museu Nacional, conhecido como o “Melhor Museu de África”, onde encontrei relíquias culturais e artefactos arqueológicos extraordinários, entre os quais se destaca uma réplica do esqueleto de Lucy (o verdadeiro encontra-se preservado neste mesmo museu), o hominídeo com 3,2 milhões de anos descoberto pelo antropólogo Donald Johanson.

O mausoléu do ex-primeiro ministro Eles Zenwa, muito querido dos etíopes
Finalizei o dia no local que em todas as minhas viagens faço questão de visitar: o mercado, considerado o maior da África Oriental. Aqui sinto-me como peixe na água, vivendo intensamente essa azáfama onde os mais variados produtos – desde electrónica a animais vivos – são vendidos.
Regresso depois ao hotel, onde acabei de descrever o meu primeiro dia na Abissinia- Etiópia. Amanhã bem cedo vou voar para para Gondar. São cerca de 2 horas de avião.